Ainda que passem por constrangimento, ouçam piadas e sofram discriminação, LGBTs não lamentam sair do armário e não pretendem trabalhar onde não podem se assumir

Todo mundo sabe que algumas profissões concentram maior quantidade de homossexuais, como estilistas, maquiadores ou cabeleireiros. Isso porque, supostamente, esses ramos de trabalho acontecem em ambientes menos machistas e mais liberais. Isso significa que todo gay vai poder ser ele mesmo trabalhando em um desses lugares? Doce ilusão.

Francis de Souza, de 32 anos, já sofreu discriminação em seu local de trabalho
Arquivo pessoal
Francis de Souza, de 32 anos, já sofreu discriminação em seu local de trabalho

Francis de Souza , de 32 anos, é maquiador, figurinista e ilustrador. Ou seja, sempre frequentou ambientes de trabalho que recebem melhor os profissionais LGBTs. Ele próprio está fora do armário desde os 19 anos, e nunca precisou esconder sua sexualidade em seus empregos. No entanto, ter a liberdade de se assumir homossexual no trabalho não foi garantia de que não enfrentaria discriminação.

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Em um dos salões de beleza onde trabalhou, seu chefe pediu para ele maneirar nesse jeito “muito assim”. E disse isso enquanto gesticulava com a mão, “como se estivesse desmunhecando”, explica ele.

“Eu respondi falando que esse era o meu jeito e que não era provocativo ou desrespeitoso. Mas, depois disso, percebi que comecei a ser tratado diferente. Por mais que fizesse a minha parte, chamavam a minha atenção por qualquer coisa na frente das clientes”, lembra Francis. “Tudo o que eu fazia não bastava. Então, comecei a contestar as implicâncias e antes que acabasse de vez o respeito pedi demissão.”

Nunca vou omitir minha sexualidade para agradar os outros. Minha prioridade é deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz comigo mesmo (Francis de Souza, maquiador)

A situação, claro, chateou o maquiador, que sabia que tinha feito o seu melhor enquanto trabalhou lá e que sempre foi profissional. Mas, para ele, não existe a menor possibilidade de trabalhar em um lugar em que se sente reprimido. “Se sinto que não sou bem-vindo, simplesmente saio. Nunca vou mentir sobre ou omitir minha sexualidade para agradar os outros. Minha prioridade é deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz comigo mesmo.”

“Precisamos conquistar nosso espaço”

É assim que pensa também o servidor público federal Vilmar Michereff Junior , de 28 anos. Mesmo trabalhando em um ambiente mais conservador, ele faz questão de não esconder a sua homossexualidade. Michereff, inclusive, leva o namorado para as confraternizações com os colegas e não vê nada mais natural que isso.

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Precisamos mostrar que existimos e somos tão profissionais quanto qualquer pessoa e, acima de tudo, que devemos ser respeitados e aceitos inclusive na nossa vida profissional (Vilmar Junior, servidor público)

“Não concordo com essa história de que ‘pode ser gay, mas não precisa ficar mostrando’. Precisa ficar mostrando, sim! Enquanto não nos mostrarmos, seremos um alguém que se esconde ou que, para a maioria, não existe”, observa. “Precisamos mostrar que existimos e somos tão profissionais quanto qualquer pessoa e, acima de tudo, que devemos ser respeitados e aceitos inclusive na nossa vida profissional.”

Vilmar Michereff Junior, de 28 anos, acredita que os homossexuais precisam se assumir também no ambiente de trabalho se quiserem ser respeitados em suas vidas profissionais
Arquivo pessoal
Vilmar Michereff Junior, de 28 anos, acredita que os homossexuais precisam se assumir também no ambiente de trabalho se quiserem ser respeitados em suas vidas profissionais

Segundo o servidor público, outro ponto de incentivo para que os LGBTs se assumam no ambiente profissional é a motivação. Como passamos em média 10 horas por dia em função do trabalho, é importante ser você mesmo durante esse período para não se frustrar e, consequentemente, deixar isso afetar a produtividade.

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“Uma coisa é você saber que, todos os dias, enfrentará um ambiente onde terá de esconder e omitir vários aspectos da sua vida. Outra coisa é ir para um local onde não há nada a esconder. As tarefas e o clima ficam mais leves e o trabalho passa a ser melhor e mais agradável de se fazer.”

Além disso, Michereff aponta outros aspectos positivos de não esconder a orientação sexual no emprego: você pode ser mais sincero sobre seus gostos pessoais, sobre sua rotina, e até mesmo desmistificar alguns preconceitos que os colegas de trabalho menos informados possam ter.

Ele reconhece, porém, que nem tudo são flores e que ainda há um caminho longo a ser percorrido até que os LGBTs sejam tratados como os heterossexuais em seus empregos.

Ainda é comum ouvir piadinhas, ser excluído de algumas situações, ou até cochicharem quando você não está por perto, mas o servidor consegue lidar com isso com bastante humor e jogo de cintura. “Mas vale lembrar que, se provada a discriminação, temos leis do nosso lado, mesmo que a homofobia ainda não seja crime”, comenta.

Assumir no escritório pode ajudar outras pessoas

Quem também trabalha em um ambiente mais conservador é Augusto César Dias de Araújo , de 40 anos. Professor de filosofia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba, Augusto nem sempre assumiu sua homossexualidade em seus antigos empregos. No entanto, agora que se tornou um educador, ele sentiu que não deveria esconder sua orientação sexual dos alunos, por uma questão de integridade pessoal.

Augusto César Dias de Araújo, de 40 anos, é professor universitário e diz que tratar de sua sexualidade de forma natural ajuda os alunos a lidarem melhor com a diversidade
Arquivo pessoal
Augusto César Dias de Araújo, de 40 anos, é professor universitário e diz que tratar de sua sexualidade de forma natural ajuda os alunos a lidarem melhor com a diversidade

O professor não chega anunciando que é gay, mas simplesmente trata essa questão com o máximo de naturalidade. Nas conversas com os outros docentes e com os alunos, ele faz referências sobre seu companheiro e sua vida de casado.

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Neste semestre, porém, houve uma exceção: ele começou a dar aulas para uma nova turma de alunos, e no primeiro dia um aluno perguntou se ele tinha esposa. “Respondi no ato: ‘Não, tenho um esposo! Sou homossexual assumido e vivo um relacionamento estável de oito anos’. Eles foram pegos de surpresa, mas reagiram bem no final das contas”, diz. E uma coisa é certa: depois que você declara que é gay com todas as letras, é o fim dos rumores e das suposições. Se está tudo às claras, o que há mais para se questionar?  

E mais: ser direto é didático. Augusto considera que tratar de sua orientação sexual de forma aberta e honesta com seus alunos os ajuda a compreender a diversidade. Esta, aliás, é a sua militância mais ativa no momento. Ele tem a convicção de que sua atitude pode ajudar a muitos outros LGBTs - alunos e professores - com quem convive a se sentir mais confortáveis em tomar a decisão de sair do armário.

A homossexualidade é a minha sexualidade, é parte de quem sou, não um mero acessório. Afirmar esta identidade de homem gay foi um dos passos mais libertadores que já dei na vida (Augusto Araújo, professor)

Por isso, o professor não cogita esconder sua homossexualidade de novo, em qualquer ambiente, profissional ou pessoal. “Uma vez fora do armário, não há retorno. A homossexualidade é a minha sexualidade, é parte de quem sou, não um mero acessório”, diz Augusto. “Afirmar essa identidade de homem gay foi um dos passos mais libertadores que já dei em minha vida. Retroceder, agora, seria trair a mim mesmo. E eu não poderia me perdoar por isso.”

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