“Amo qualquer um, homem, mulher, bicho, coisa. Dura um dia, um mês. Dura quanto durar” é uma frase destacada em "Aracy de Almeida - não tem tradução", livro-homenagem à cantora, jurada de TV e rabugenta profissional que faria 100 anos

“Aracy de Almeida – não tem tradução” , com lançamento marcado para o próximo dia 16, é uma coletânea de frases, entrevistas e depoimentos da cantora cujo centenário foi celebrado em agosto deste ano. Em forma de frações e fragmentos, o livro apresenta as diversas facetas de uma das maiores artistas brasileiras, jurada de programa de calouros, cantora de prestígio, principal intérprete de Noel Rosa , frequentadora das altas rodas da malandragem e do high society carioca.

Capa do livro que será lançado em São Paulo no dia 16 de dezembro
Reprodução
Capa do livro que será lançado em São Paulo no dia 16 de dezembro

O recheio de “Aracy” são trechos de entrevistas e programas de TV, frases de efeito em que ela era pródiga, além de depoimentos de alguns dos principais nomes da cultura brasileira, como Caetano Veloso , Jorge Mautner , Elza Soares , Ary Barroso , Carmen Miranda e Mario de Andrade .

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O autor da obra, o jornalista e roteirista Eduardo Logullo , escreveu sobre o livro especialmente para o iGay: "Aracy nasceu em Encantado, subúrbio do Rio, em 1914. Estreou no rádio na década de 1930, pelas mãos de Noel Rosa, e logo tornou-se uma das principais vozes do samba carioca. Foi a responsável pelo diálogo inovador entre as ruas do Rio de Janeiro, os botecos da Lapa, e a música que chegaria às gravadoras e rádios.

Nos anos 1970, migrou para a TV e ficou nacionalmente famosa como jurada dos programas “ Cassino do Chacrinha ” e “ Show de Calouros ”, do Silvio Santos. Com seu jeitão rabugento, desbocado e frases de efeito, Aracy tornou-se um ícone da cultura popular brasileira.

Aracy de Almeida quando jovem
Reprodução/Youtube
Aracy de Almeida quando jovem

Da Bíblia aos palavrões

Seguindo o espírito anárquico da homenageada, o livro não faz um retrato biográfico e cronológico da trajetória de Aracy. Pelo contrário, a proposta é justamente mostrar diferentes olhares, versões e visões da artista e de seus admiradores e parceiros. E registrar a rica verborragia da cantora, que em seu “dialeto” de malandra incluía citações da Bíblia, filósofos alemães, poetas simbolistas, palavrões e gírias tão diversas que constituíam praticamente uma linguagem única.

Aracy morreu sendo “jurada de televisão”, na imagem que permanece como seu derradeiro personagem: a durona, a raivosa, a absurda, a rabugenta, a chata, a eterna mal-humorada.  Poucos sabiam que ali se ocultava uma cantora que gravara mais de 300 músicas que mudaram o mapa da música brasileira.

Intérprete rara. Inexplicável. Rara porque intraduzível ou intraduzível porque rara? Bolacha fina para as massas.  Ah, e existe o lance de que a consideravam sapatona, machona.  

"Com vocês, meu pai, Aracy de Almeida"

Então, preferi me guiar por seu amigo/tradutor/biógrafo, o poeta/historiador Hermínio Bello de Carvalho . Ele preferiu defini-la como pan-sexual no perfil “Araca - Arquiduquesa do Encantado”: “Amo qualquer um, homem, mulher, bicho, coisa. Dura um dia, um mês. Dura quanto durar.” 

Ele continua: “Sem alardear mudanças, deixou-se envelhecer sem envilecer, dentro de uma sociedade adoecida por preconceitos. Não é à toa que ela declarou na televisão que considerava seus cães infinitamente superiores aos seres ditos racionais. Estava próxima, portanto, da conceituação dicionarizada de pansexualismo”.

Mulher, homem, lobisomem, jacaré, mãe, filha, pai. Aliás, o músico paulista Tico Terpins, do grupo Joelho de Porco, a chamava de “pai”. E a apresentou assim no show que fez em 1980 no Teatro Lira Paulistana: “Com vocês, meu pai, Aracy de Almeida”.

(Eduardo Logullo é jornalista, escritor, roteirista de TV e autor de ‘Aracy de Almeida – não tem tradução’).

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