Ator que criou sua marca encarnando a cantora Wanderléa nos palcos por 25 anos conta que não se incomoda de ser chamado de travesti: "Não devo mais satisfação a ninguém"

O processo: sessão de make para transformar Renato na mulher que ele interpreta no palco
Edu Cesar
O processo: sessão de make para transformar Renato na mulher que ele interpreta no palco

O ator gaúcho  Renato Kramer , 59 anos, é formado em Estudos Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, em dramaturgia pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pós-graduado pela Universidade de Paris-Sorbonne. Ficou conhecido por interpretar a cantora Wanderléa no teatro durante 25 anos.

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Murila Martírio , também gaúcha, tem 68 anos, nasceu em Vacaria (RS), é apresentadora de TV, tem uma relação de amor e ódio com o seu público e ficou famosa depois de se envolver em uma polêmica ao concorrer a Miss Rio Grande do Sul em 1963 ao lado de Iêda Maria Vargas , vencedora do concurso. O que ela tem em comum com Renato? Eles são a mesma pessoa.

Criador e criatura: o ator Renato Kramer e a Miss Vacaria 1963, Murila Martírio
Edu Cesar
Criador e criatura: o ator Renato Kramer e a Miss Vacaria 1963, Murila Martírio

Criado em uma família gaúcha bastante conservadora, Renato é o caçula de três irmãos. Sua mãe planejava ter dois filhos – um menino e uma menina. Com o nascimento do segundo filho homem, ela desistiu de ter um casal. Porém, acabou ficando grávida novamente e, inconscientemente, criou Renato como se fosse a filha que não teve.

Ela não o vestia com roupas femininas, mas tinha o cuidado típico de uma mãe de menina. “Ela pedia para eu sentar de pernas cruzadas, por exemplo. Criança, eu sentava e cruzava a perninha, achando que estava bárbaro. Os meninos já me chamavam de 'viadinho', de 'mariquinha”, conta Kramer. “Eu ouvia aquilo e, por dentro, achava interessante. Pensava: 'Se pareço uma mulherzinha, é o que minha mãe quer. Então está certo', mas ninguém achava certo. E foi aí que o conflito foi nascendo.”


Minha mãe tinha um conjunto de sapatos de salto e bolsa cor de rosa. Nossa, nem a Barbie ia ficar tão feliz se usasse aquilo!

Homossexual, Renato sempre admirou a figura feminina. Quando ninguém estava em casa, corria para o quarto de seus pais, trancava a porta para evitar um flagra e vestia as roupas de sua mãe. Colocava as saias plissadas e rodopiava na frente do espelho. Combinar o sapato com a bolsa era o que ele achava mais maravilhoso. “Ela tinha um conjunto de sapatos de salto e bolsa cor de rosa. Nossa, nem a Barbie ia ficar tão feliz se usasse aquilo”, brinca.

Aos 15 anos e com 1,80m de altura, começou a trabalhar como modelo fotográfico. Mas foi depois que se formou em Estudos Sociais pela PUC de Porto Alegre que Renato teve seu primeiro contato com o teatro, fez alguns amigos na área e chegou a apresentar uma peça na cidade. Essa foi a sua oportunidade para se mudar para São Paulo.

“Fiz disso um álibi, né? Dizer para minha mãe que vinha para São Paulo para vagabundear era uma coisa, mas que vinha fazer teatro era outra. E mesmo assim ela não quis, mas aí eu juntei grana e vim”, diz ele, que entrou para a concorrida Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP).

“Interpretar mulheres é uma realização”

Foi na EAD que Renato fez o seu primeiro papel feminino, em uma peça apresentada apenas internamente. A história era uma espécie de conto de fadas para adultos e ele interpretava o príncipe. Porém, como havia poucos alunos, ficou faltando quem interpretasse uma garota. Ele logo se prontificou para ficar com o papel, que nem fala tinha.

Para meu primeiro papel feminino, fiz uma faixa, coroa e cetro. E eu arrasava. A plateia adorou. Foi uma realização, porque eu não estava mais escondido no quarto da minha mãe usando a saia dela

“Essa minha menina foi miss da cidade. Isso tudo eu que inventei. Fiz uma faixa, uma coroa e um cetro. E eu arrasava. A plateia adorou. E esse foi o meu primeiro papel feminino. Foi uma realização, porque eu não estava mais escondido no quarto da minha mãe usando a saia dela”, diz.

A MULHER QUE EU NÃO FUI

Segundo Renato, encarnar mulheres nos palcos sempre foi, no fundo, uma forma de exorcizar a mulher que era para ele ser e não foi. “Eu não teria jamais coragem de me tornar travesti. A travesti da minha época, pelo que se ouvia falar, era aquela de rua, que se prostituía, apanhava da polícia e era assassinada. Era uma imagem horrível, não tinha glamour nenhum”, comenta.

Eu não teria jamais coragem de me tornar travesti. A travesti da minha época, pelo que se ouvia falar, era aquela de rua, que se prostituía, apanhava da polícia e era assassinada. Era uma imagem horrível, não tinha glamour nenhum

Apesar disso, ele diz que não se incomoda de ser chamado de travesti pelo público ou pela mídia. Isso o aborrecia quando seus pais estavam vivos, por medo do que eles poderiam pensar. “Agora que meu pai e minha mãe já faleceram, não tenho mais que dar satisfação para ninguém”, diz.

WANDECA, O PAPEL DE UMA VIDA

A sua maior paixão – e também o papel que acabou lhe trazendo o maior sucesso – sempre foi a cantora Wanderléa. Logo no início dos anos 1980, Renato precisava pensar em alguma peça que trouxesse bilheteria. (Ou seja: que garantisse a sua sobrevivência). Foi então que decidiu escrever e dirigir “Nos Tempos da Jovem Guarda”, em que aproveitou para realizar o sonho de encarnar a sua musa.

No porta-retrato, a noite em que Wanderlea supreendeu Renato e subiu no palco junto com ele
Edu Cesar
No porta-retrato, a noite em que Wanderlea supreendeu Renato e subiu no palco junto com ele


Quando tinha 9 anos de idade tudo o que eu queria ser era a Wanderléa. Eu queria ser loira, ter aquelas pernas grossas e ser amada por todo mundo. Ela era um grande ídolo

“Quando tinha 9 anos de idade tudo o que eu queria ser era a Wanderléa. Eu queria ser loira, ter aquelas pernas grossas e ser amada por todo mundo. Ela era um grande ídolo”, conta.

A peça seria apresentada somente uma vez, mas o sucesso foi tamanho que pediram para que Kramer repetisse no dia seguinte. No fim, Renato se apresentou como Wandeca durante 25 anos, entre teatros e casas noturnas. A personagem o levou a ser entrevistado pelo apresentador Jô Soares e pela Hebe Camargo.

Uma noite, no fim de uma apresentação, foi procurado no camarim pelo irmão da cantora, Bill, que disse que ela estava interessada em assistir ao show, mas que ele teria de fazer um convite formal. Bill deixou o telefone da secretária de Wanderléa e Renato ficou duas semanas sem ligar, com medo de ela própria atender.

Eu a ouvia no meu quarto e chorava sozinho. Sabe o gayzinho em um mundo horroroso e que a única salvação era a Wanderléa? Ela era a minha santa de devoção.

"Se aquela mulher atendesse, eu tinha um infarto. Eu a ouvia no meu quarto e chorava sozinho. Sabe o gayzinho em um mundo horroroso e que a única salvação era a Wanderléa? Ela era a minha santa de devoção. Como é que eu iria falar com ela?"

Por fim, ele criou coragem, mas para seu alívio foi atendido pela secretária. Após algumas semanas, no entanto, foi pego de surpresa pela própria cantora no camarim enquanto se preparava para se apresentar.

“É uma sensação que eu não consigo descrever. Era aquela criatura que eu idolatrava ali, dando o aval dela. Ela podia ter aplaudido e ido embora, mas subiu no palco e ainda me deu um beijo na boca”, relembra.

SEGUNDO CAPÍTULO, MURILA MARTÍRIO

Wandeca foi o principal papel de Renato até 2005, quando desistiu da minissaia e de um personagem que demandava muita energia para alguém da sua idade. Foi então que criou Murila Martírio, baseado em alguns traços reais da mulher que alimentou essa personagem feminina que Renato carrega dentro de si: sua mãe.

A história de Murila ele concebeu em detalhes: ela foi Miss Vacaria em 1963 e concorreu ao Miss Rio Grande do Sul no mesmo ano, ao lado de Iêda Maria Vargas. “Na verdade, a Iêda era bonitinha, mas a Murila ia ganhar. Só que era preciso ter 18 anos para concorrer a Miss Bagé, cidade inimiga de Vacaria. Iêda sabia que a Murila tinha mentido e espalhou a notícia. Casualmente, a Iêda ganhou o Miss RS, Miss Brasil e o Miss Universo. Mas era para ser a Murila”, brinca.

Sarcástica, Murila faz sucesso principalmente entre os gays, que se identificam com seu estilo de humor ferino. “Tem muito da minha mãe. Se eu sou um pouco irônico, minha mãe era o ácido em pessoa. Mas na linha da inteligência e da rapidez de raciocínio, não com o intuito de destruição”, observa Renato, que deve voltar para os palcos como Murila a partir de março do ano que vem.

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