Para esclarecer as dúvidas mais comuns em torno da transgeneridade, fomos atrás de quem entende do assunto

A transgeneridade continua sendo um tabu na sociedade heteronormativa
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A transgeneridade continua sendo um tabu na sociedade heteronormativa

Nem todo preconceito é ódio. Algumas vezes é falta de informação. O preconceito se manifesta quando a pessoa tem todas as informações de que necessita e rejeita a ideia do diferente apenas porque tem a cabeça fechada para o que foge do que considera o padrão ‘normal’. 

Os transgêneros são alvo fácil do preconceito. Para começar, eles são poucos. Enquanto as estatísticas dizem que 10% da população mundial são LGBTs, os transexuais seriam 1 em cada 30.000 homens e 1 em cada 100.000 mulheres. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), os transgêneros seriam de 2% a 5% da população mudial adulta, dos 17 aos 65 anos, entre homens e mulheres. 

Pode mesmo parecer bastante confusa a ideia de que um corpo de homem é habitado pela alma de uma pessa que não se identifica com o gênero masculino, ou que dentro de um corpo de mulher vive na verdade uma pessoa que se identifica com outro gênero que não o feminino. A própria definição parece um trava-línguas e tem muita gente que acha esse assunto ‘complicado demais’. Que tal fazer um esforço e tentar entender o que é transgeneridade?

A psicanalista transgênero Letícia Lanz (à dir.), com a mulher, Angela, e um dos três filhos do casal, Samuel
Reprodução
A psicanalista transgênero Letícia Lanz (à dir.), com a mulher, Angela, e um dos três filhos do casal, Samuel

Não é fácil a descoberta de que alguém não se adapta ao modelo social definido por seu sexo físico, e muitas vezes é longa, sofrida e cheia de segredos a trajetória de transformação até construir uma nova identidade e redefinir a realidade. Muitas vezes isso não acontece - a psicanalista transgênero Letícia Lanz diz que muitos trans são casados e heterossexuais na fachada, e vivem sua transgeneridade em segredo a vida toda. "A OMS (Organização Mundial da Saúde) calcula que entre 2% e 5% da população adulta, entre 17 e 65 anos, sejam transgêneros. Nesse caso, na cidade de Curitiba, onde eu vivo, haveria 75.000 transgêneros. Se fizermos uma reunião de trans aqui e aparecerem todos, não virão mais de 500 pessoas. Onde estão as outras 74.500?", indaga ela. Vivendo em segredo, garante. "Aproveitando viagens para ser quem são por um momento."   

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Vendo minhas diferenças dos meninos da minha idade, meu pai me colocou no judô e no escotismo. Não deu muito certo. No judô me derrubavam no chão, eu chorava. No escotismo eu levava flores para enfeitar a barraca. As coisas não funcionavam como deveriam (Maite Schneider)

A atriz transexual, diretora e criadora do portal Casa da Maite  Maite Schneider viveu todos os capítulos dessa história que, na maioria das vezes, tem doses grandes de sofrimento. No caso dela, infância inadequada, adolescência calada, o exemplo do irmão Guilherme, que ela tentava imitar, e da irmã Sabrina, com quem ela se identificava de verdade.

"As coisas para mim não vieram nas caixinhas certas, fui subtraindo e adicionando", diz ela sobre a transformação por que passou o seu corpo. "Sempre me senti uma criança diferente das outras, não queria usar terninho e gravata para ir ao casamento. Me culpava muito de ser como era. Vendo minhas diferenças dos meninos da minha idade, meu pai me colocou no judô e no escotismo. Não deu muito certo. No judô me derrubavam no chão, eu chorava. No escotismo eu levava flores para enfeitar a barraca. As coisas não funcionavam como deveriam."

Maite e a transgênera Amy Föxx conversaram com o iGay para nos ajudar a responder as dúvidas mais comuns sobre as pessoas trans.

Amy Föxx, transgênera:
Arquivo pessoal
Amy Föxx, transgênera: "A identidade de gênero de uma pessoa e sua orientação sexual não estão interligadas"







Todo transexual começa com a percepção de que é gay, passa por uma fase travesti e depois muda de sexo?

Maite Schneider: "Essa dúvida é comum, algo que os próprios gays sempre me perguntam. 'Sou gay feminino e passivo, quero ser travesti depois e finalmente ser uma transexual......... O que tenho que fazer?'", diz ela. "Tento explicar que não é uma escala evolutiva, não é um processo em que se passa por estágios de evolução. Cada pessoa é uma."

Resposta: Não.

Todo transexual é gay/lésbica? 

Amy Föxx: “De forma alguma. A identidade de gênero de uma pessoa e sua orientação sexual não são/estão interligadas. Eu, por exemplo: sou uma trans e sou pansexual”.

Resposta: Não.

IDENTIDADE DE GÊNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL

O entendimento de que uma coisa é a identidade de gênero e outra completamente diferente é a orientação sexual confunde muito. Por que alguém que nasceu com o sexo masculino faz uma trajetória de transformação para assumir a identidade de uma mulher e continua se relacionando sexualmente com mulheres?

Porque a identidade de gênero dessa transexual é mulher, e sua orientação sexual é homossexual. Se tivesse passado pela transição e se relacionasse com homens, sua identidade de gênero seria mulher e sua orientação sexual seria hetero.  

Identidade de gênero é como a pessoa se identifica. Se se sente mulher, se identifica com o gênero feminino. Se se sente homem, a identidade é masculina. E pode ser também um terceiro gênero, que não é homem e nem mulher, ou, ainda, sem gênero algum. 

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Já a orientação sexual diz respeito à sexualidade da pessoa, ou seja, com quem ela gostya de namorar e transar. Assim, quem sente atração apenas por alguém do mesmo sexo é homossexual, e vice-versa. Uma mulher transgênero que só sente atração por homens é uma mulher trans heterossexual, pois se identifica com o gênero feminino, mas sente atração sexual por alguém do gênero masculino.

Transgeneneridade e transexualidade são a mesma coisa?

Leticia Lanz explica que o conceito de transexualidade está errado. "Quando falamos em sexo, estamos falando de sexo genital, mas o fato de você nascer macho não significa que você vai se tornar um homem. Macho e fêmea são condições da natureza, enquanto homem e mulher são condições da sociedade, são construções sociais baseadas em estereótipos", explica. "Certo é falar em transgênero, para definir qualquer pessoa que apresente transgressão de gênero, que seja travesti, drag queen, cross dresser, transgênero, homens femininos, mulheres masculinas. O corpo é uma possibilidade para diversas manifestações." 

"Trans é toda a pessoa que não se sente CIS, ou seja, não se adapta ao binarismo masculino-feminino. Não tem nada a ver com cirurgia, mudanças hormonais, etc... somente com seu sentimento", diz Maite Schneider.

Resposta: Não

Só é transexual quem faz a cirurgia?

Não necessariamente. A pessoa pode optar por fazer toda a transformação hormonal e visual, exceto a Cirurgia de Redesignação Sexual. No caso de um homem trans, por exemplo, ele pode fazer cirurgias para a retirada dos seios, útero e ovários, mas não alterar sua genitália. Isso porque o procedimento cirúrgico ainda não leva a um resultado muito funcional, ou porque o homem trans não sente a necessidade de uma prótese. "A fantasia é ótima, a gente tem de ser criativo", disse o trans homem João Nery em entrevista.

A cirurgia de adequação de um corpo masculino para um feminino é mais viável. "É mais fácil fazer um buraco do que enfiar um poste", diz Leticia Lanz.

Resposta: Não

Amy Föxx, transgênera:
Arquivo pessoal
Amy Föxx, transgênera: "Aos poucos, assim como aconteceu com mulheres e pessoas negras, estamos reivindicando e conquistando o espaço que é nosso por direito"

Qual a idade mínima para fazer a cirurgia?

No Brasil, a cirurgia de mudança de sexo na rede pública exige idade mínima de 21 anos. A cirurgia só pode ser feita depois de um laudo que ateste a transexualidade, que leva dois anos de acompanhamento psicológico para ser emitido.

Para quem tem condições financeiras, o paraíso da cirurgia de mudança de sexo é a Tailândia, onde a cirurgia é feita como uma plástica, como alguém que quisesse modificar o nariz, por exemplo. Sem necessidade de laudo, de preparação, de coisa nenhuma. "Na Tailândia eles fazem cópias de uma vagina bem melhores do que a original", diz Leticia Lanz. "A Tailândia é o paraíso de quem quer mudar de sexo."

Resposta: 21 anos

Toda pessoa transgênero quer fazer a cirurgia?

Amy Föxx: “Não, nem todas. Eu mesma ‘desisti’ no caminho, inclusive algumas pessoas trans não-binárias também não sentem esta necessidade”.

Resposta: Não

Não é mais fácil aceitar o sexo com o qual você nasceu?

Amy Föxx: “É claro que, devido à mentalidade conservadora e retrógrada que infelizmente impera na sociedade, seria mais "fácil". Não é uma questão de aceitação, mas sim de como a pessoa se sente, se define e se vê”.

Maite Schneider: "Temos é que nos encontrar felizes, e o único caminho verdadeiro que serve de base para isso é sendo quem somos, independente de quem somos. Não há outro meio. Não dá para abrir mão disso."

Resposta: Não

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Bandeira do movimento transgênero
Reprodução
Bandeira do movimento transgênero

Isso tudo não é uma invenção só para chamar a atenção das pessoas?

Amy Föxx: “De forma alguma. Eu, por exemplo, desde pequena sempre me senti desconfortável, para dizer o mínimo, com ‘meu’ corpo e ’minha’ aparência. Sempre me senti uma garota aprisionada em algo que não condizia nem representava minha mente, alma e essência”.

Resposta: Não

Você se incomoda com perguntas que as pessoas fazem sobre você?

Maitê Schneider : "Não me incomodo e nem acho nenhuma pergunta sem sentido. Sem sentido é não perguntar e ficar na ignorância. A dúvida nos leva ao conhecimento, incluindo o de nós mesmas."

Resposta: Não

Todo transgênero acaba se prostituindo?

Amy Föxx: "Não, eu mesma, felizmente, nunca precisei. A sociedade está evoluindo. Aos poucos, assim como aconteceu com mulheres e pessoas negras, estamos reivindicando e conquistando o espaço que é nosso por direito”.

Letícia Lanz : "A prostituição é uma necessidade para algumas, mas há as que gostam, aquelas que se dedicam à prostituição porque ali elas são donas do pedaço, mandam e desmandam, numa sociedade que manda elas à merda o tempo todo."

Resposta: Não

Transgêneros são gays/lésbicas que mudaram de sexo para conseguir ficar com heterossexuais?

Amy Föxx: "Não, de forma alguma. Até porque, se a pessoa que realizou a cirurgia de redesignação genital/sexual se sente atraída pelo gênero oposto, ela é heterossexual.”

Resposta: Não

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