Eficácia em se comunicar com a população LGBT do país atraiu investimento de US$ 30 milhões de empresa norte-americana

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Durante o dia, Ma Baoli ocupava um alto posto na força policial de uma cidade litorânea. Durante a noite, ele gerenciava um website para pessoas gays compartilharem suas experiências, no qual ele usava um pseudônimo para falar sobre a pressão que enfrentava por ser homossexual.

Depois de muitos anos, o departamento de polícia descobriu e disse que ele não poderia gerenciar um website privado que lucrava com propagandas publicitárias ao mesmo tempo em que trabalhava como policial.

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Ma escolheu ficar com o website, uma decisão que mais tarde se provou frutífera. Do site Danlan.org, surgiu o aplicativo de paqueras Blued - voltado para homens, já alcançou 15 milhões de usuários em dois anos, sendo 3 milhões de fora da China.

No último mês, sua companhia, Blue City, recebeu US$ 30 milhões em investimentos da DCM Ventures, organização do Vale do Silício. Ma espera utilizar o dinheiro para expandir a empresa internacionalmente e se prepara para uma possível abertura de capital. Ele também pensa na possibilidade de lançar um aplicativo para lésbicas.

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Em um país em que o governo considera perigosa qualquer forma de ativismo e onde a homossexualidade é tratada como um tabu, Ma tem construído seu negócio parcialmente por conta das aproximações com as agências do governo, mostrando-as que ele pode providenciar um serviço de utilidade pública ao espalhar mensagens de conscientazação sobre sexo seguro.

Ma Baoli, fundador da Blue City e criador do aplicativo gay Blued
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Ma Baoli, fundador da Blue City e criador do aplicativo gay Blued

Em 2012, ele foi convidado para um encontro com o agora primeiro-ministro Li Keqiang por seu trabalho de prevenção da AIDS.

Wu Zunyou, diretor do Centro Chinês para Controle de Doenças e Prevenção da AIDS e doenças sexualmente transmissíveis, elogiou o aplicativo por levar informações úteis para a comunidade LGBT.

"É muito difícil conseguir tantos usuários em um período tão curto de tempo", disse Wu à agência de notícias AP na última semana em um evento de prevenção à AIDS organizado pela Blue City. "Nenhum de nossos websites públicos de conscientização consegue receber tanta atenção. Este é um canal muito importante para espalhar informação sobre prevenção da AIDS entre a comunidade LGBT."

O aplicativo permite que os usuários encontrem pessoas por meio de sua localização ou pela última vez em que estiveram online. Ele também permite a criação de grupos, para que as pessoas possam organizar atividades como trilhas ou criar um time de basquete, assim como providenciar informações das autoridades de saúde sobre locais para realização de testes de HIV e tratamentos.

Andrea Pastorelli, especialista político do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, disse que o governo chinês reconheceu a efetividade do app em alcançar pessoas que eles não conseguem.

"Eles têm grandes problemas em alcançar as pessoas mais marginalizadas e, na china, esse é o local em que a epidemia se encontra", disse ele. "O fato de que eles conseguiram captar tanto dinheiro mostra o interesse no chamado 'mercado rosa'. Companhias privadas estão tomando consciência de que os gays existem e que eles representam um grande mercado."

Uma gerente de investimentos do escritório da DCM Ventures em Beijing, que pediu para não ser identificada, confirmou o investimento de US$ 30 milhões na blue City, dizendo que o futuro parece ser promissor. "5% de toda a população é LGBT", disse ela. "Essas atitudes vão se tornar cada vez mais comuns."

Para Ma, de 37 anos, que usa o pseudônimo de Geng Le na internet, o investimento sinaliza uma mudança de atitude entre os chineses em relação aos homossexuais. Há cinco anos, o seu site Danlan.org era constantemente derrubado. Hoje, isso não acontece mais, e ainda levanta discussões sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. "Eu agora me sinto mais e mais confortável dizer 'Sim, eu sou gay e sim, eu gerencio um site com temática gay'", conta. O aplicativo ainda oferece privacidade para os usuários preocupados que outras pessoas descubram sobre sua orientação sexual.

Uma lei contra o "hooliganismo", que vinha sendo usada para atacar homossexuais, foi eliminada em 1997 e a homossexualidade foi desclassificada como uma doença mental em 2001, mas algumas clínicas ainda prometem a "cura gay", oferecendo terapias de conversão que incluem eletrochoque. A China não reconhece casamentos entre pessoas do mesmo sexo e não há nenhuma lei específica contra a homofobia.

No entanto, mais organizações estão sendo criadas para defender a comunidade LGBT, e bares voltados para esse público, antes exclusivos das grandes cidades como Beijing e Xangai, estão aumentando em cidades menores.

A Blue City emprega 40 engenheiros de software, designers, vendedores e advogatos.

"Eu gostaria de usar o poder da economia para promover a comunidade LGBT", conta Ma. "De muitas maneiras, a economia pode engatilhar mudanças políticas. Então se, por exemplo, eu fizer isso muito bem, se meus usuários passarem de 15 milhões para muito mais no futuro, se eu conseguir abrir o capital da empresa, eu posso dizer para o governo: Viu, eu posso fazer isso sendo uma 'companhia gay' e não lhes causamos nenhum problema."

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