Para especialista, homofobia internalizada provoca rejeição à troca de carinhos de um casal homoafetivo em locais públicos

Dois homens têm o mesmo direito ao beijo que um casal hetero? Alguns gays acham que não
Thinkstock/Getty Images
Dois homens têm o mesmo direito ao beijo que um casal hetero? Alguns gays acham que não

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Indiana , nos EUA, levantou uma polêmica: alguns gays toleram demonstrações de carinho de casais heterossexuais, mas são contra casais do mesmo sexo que se beijam em público ou mesmo andam de mãos dadas. Mas qual seria o motivo disso?

No estudo “Direitos formais e privilégios informais para casais homoafetivos: evidências de um experimento nacional” , o pesquisador Long Doan entrevistou 1 mil norte-americanos, entre heteros, gays e lésbicas, e verificou que os heteros estão mais dispostos a aceitar a equiparação de direitos legais para casais gays, como o direito à herança, por exemplo, do que a ver dois gays se beijando em um parque público. Até aí, esse resultado já era esperado. No entanto, o que surpreendeu Doan foi o fato de que alguns gays também se mostraram contra as demonstrações de afeto em público entre duas pessoas do mesmo sexo.

Para o psicólogo e psicoterapeuta Klecius Borges, especialista em terapia homoafetiva, se a mesma pesquisa fosse realizada no Brasil, os resultados seriam parecidos. "Uma coisa é você ser a favor de algo que racionalmente faz sentido. Trata-se de direitos civis e isso está mais no campo da racionalidade, daquilo que a pessoa pensa e do que é politicamente correto. Agora, quando você fala em ver duas pessoas manifestando carinho é uma coisa mais complicada, porque gera uma reação mais emocional. Uma coisa é a ideia e outra é você ver aquilo concretizado na sua frente", diz.

É comum ver casais heteros se beijando na TV, no cinema e nas ruas, faz parte do cotidiano. Mas casais gays se beijando na rua não é algo que se vê normalmente (Klecius Borges)

Segundo ele, o beijo entre duas pessoas do mesmo sexo em um lugar público ainda causa uma comoção entre os próprios gays porque nem mesmo eles estão acostumados a ver casais homoafetivos fazendo isso fora dos ambientes gay friendly. "Os gays são criados em sociedades heteronormativas, em que é comum ver casais heteros se beijando na televisão, no cinema e nas ruas, ou seja, isso sim faz parte do cotidiano. Mas, casais gays se beijando na rua não é uma coisa que se vê normalmente", conta.

Vitor Astoni, de 19 anos, fica mais à vontade para beijar e trocar carinhos com outro homem em ambientes gay friendly
Arquivo pessoal
Vitor Astoni, de 19 anos, fica mais à vontade para beijar e trocar carinhos com outro homem em ambientes gay friendly

Para Angelo Sordi, de 19 anos, esse é justamente o problema. "A sociedade deve se acostumar a ver casais homossexuais trocando carinhos por ai. Nós, homossexuais, vemos casais heteros trocando carinhos a todo tempo, e porque é que eles não podem ver casais homossexuais da mesma forma?"

Gay assumido há 5 anos, ele confessa, porém, que não gosta de ver pessoas se beijando em um clima mais quente em público, sejam gays ou heteros, mas acredita que demonstrações de afeto como um abraço, selinho ou beijo não fazem mal a ninguém.

Afetos sem apelo sexual são super agradáveis de se ver. Mas sou contra qualquer casal, homossexual ou hetero, que simule afetos que devem ocorrer na intimidade (Vitor Astoni)

Já Vitor Astoni, de 19 anos e gay assumido há 3 anos, conta que só se sente realmente à vontade para demonstrar carinho pelo parceiro se estiver em um lugar frequentado por outros LGBTs, pois tem medo de ser alvo de alguma agressão homofóbica em outros locais. Ainda assim, ele às vezes se arrisca, mas sempre de maneira contida.

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“Acho que afetos sem apelo sexual são super agradáveis de se ver. Mas, sendo homossexual ou hetero, sou contra qualquer casal que simule afetos de cunho sexual, algo que, ao meu ver, devem ocorrer em locais íntimos do casal”, opina.

Estéfani Cristina Moura, de 26 anos: 'Não acredito que o respeito [das outras pessoas] venha de nos privar de namorar em um shopping ou uma praça'
Arquivo pessoal
Estéfani Cristina Moura, de 26 anos: 'Não acredito que o respeito [das outras pessoas] venha de nos privar de namorar em um shopping ou uma praça'

Quem não tem medo e nem se incomoda com o que outras pessoas vão pensar é Estéfani Cristina Moura, de 26 anos. Namorando há 2 anos com outra mulher, ela afirma que não se priva de fazer carinhos e trocar beijos em locais públicos, pois não vê como isso pode ser uma falta de respeito com outras pessoas.

“Não acredito que o respeito [das outras pessoas] venha de nos privar de namorar em uma praça de alimentação, em um shopping, em um parque ou em um restaurante. O respeito sempre vem de pessoas bem criadas. Educação vem de berço, e não digo berço de ouro, mas sim de caráter e respeito”, diz.

Nós, homossexuais, vemos casais heteros trocando carinhos a todo tempo, porque eles não podem ver casais homossexuais da mesma forma? (Angelo Sordi)

Para o psicoterapeuta Klecius, no entanto, alguns homossexuais acabam criando desculpas para não beijar em público, sem perceber que estão, na verdade, tentando disfarçar a homofobia internalizada. “'Por que precisa disso? Qual é a necessidade? Mesmo em casais heteros eu acho que não é legal’. Tem uma série de motivos que os gays alegam, mas que refletem uma dificuldade deles de entender essa nova realidade”, observa.

Estéfani Cristina Moura e sua namorada
Arquivo pessoal
Estéfani Cristina Moura e sua namorada

Ele lembra, porém, que a vontade de beijar alguém em público ou andar de mãos dadas é algo muito individual. Há quem faça porque sente essa necessidade, há pessoas que fazem como uma forma de se afirmar na sociedade heteronormativa e defender a causa LGBT, mas também tem quem não faz simplesmente porque não sente vontade ou tem medo.

"De qualquer maneira, a possibilidade de casais homoafetivos demonstrarem afeto em público é uma realidade muito nova e tem muito a ver com a visibilidade sobre os LGBTs, que passou a ocorrer muito recentemente", diz ele, lembrando que ainda levará um tempo para que todos lidem com essa situação de maneira mais natural. Inclusive os próprios LGBTs.

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