Santo mais cultuado do mundo, São Jorge - e seu dragão - estão envoltos por lendas, milagres e legiões de devotos. Conheça sua história

Os seguidores de São Jorge pouco se lixaram quando Paulo VI resolveu, nos anos 1960, retirá-lo do panteão dos santos oficiais da Igreja Católica. Quem daria importância àquela decisão de um papa narigudo e orelhudo? Entre os argumentos do Vaticano estavam as origens “difusas” e a “precariedade de registros” que documentam a biografia desse jovem soldado do império romano, nascido em uma família cristã do século III e que, nos últimos tempos, transformou-se em um dos ícones do combate à homofobia.

Jorge veio ao mundo na região da Capadócia, uma das províncias da Turquia. O pai, também soldado, morreu em combate. Essa perda resultou na mudança para a Palestina, local de origem de sua mãe. Destemido e corajoso, em pouco tempo ele conquistou honras militares e títulos de nobreza. Veio em seguida a transferência para Roma, onde assumiria cargos políticos de relevo.

De repente, não mais que de repente, Diocleciano teve um surto de paganismo e decidiu eliminar todos os cristãos dos extensos domínios romanos. Jorge rodou a espada, subiu em seu cavalo e irrompeu em praça pública, desafiando o decreto do imperador e os cônsules. A multidão imediatamente notou o carisma daquele militar que ousava defender o cristianismo, no período histórico em que os cristãos serviam de repasto aos leões. Soldados da Corte logo foram convocados para prendê-lo.

PRISÃO, TORTURA E MARTÍRIO

Depois da prisão, tortura e martírio. Espancado, chamuscado com fogo, sangrado e amarrado a torniquetes que esticavam seu corpo, Jorge resistiu a todas as investidas de crueldade ordenadas por Diocleciano. Levado ao imperador após cada sessão de tortura, ele não admitiu em nenhum momento renegar a fé que o movia. O imperador, indignado com tamanha bravura do jovem soldado, mandou que o decapitassem. O dia: 23 de abril do ano de 303.

A convicção de suas palavras e o sofrimento de sua morte levaram a imperatriz Alexandra e o pagão Atanásio, um célebre sacerdote de Roma, à conversão ao culto cristão. Ambos também seriam perseguidos e mortos. O corpo de Jorge foi trasladado de volta à cidade de Lydda, na Palestina, local onde se ergueu sob a égide do imperador Constantino a primeira igreja em louvor ao mártir. O templo foi destruído em 1010 e mais tarde reconstruído pelos cruzados. Novamente a igreja de São Jorge veio ao chão durante a Terceira Cruzada, no ano 1190, por ordens do sultão Saladino. Apenas em 1872 o novo ponto de devoção seria construído sobre sua tumba, mantendo-se até hoje na cidade israelense de Lod, próxima ao aeroporto de Tel-Aviv.

O DRAGÃO QUE BLOQUEAVA O SUPRIMENTO DE ÁGUA

Mil setecentos e onze anos passados da sua morte, o culto a São Jorge permanece imantado de poder. Venerado durante as Cruzadas, a figura do mártir atingiu os confins da Europa Oriental durante a Idade Média, embora sua canonização tenha acontecido muito antes, por decisão do papa Gelásio I, no ano de 484. Até àquela época, a imagem de São Jorge não estava atada à lenda do dragão, que é um relato milagroso surgido em data incerta e possivelmente disseminado oralmente a partir de 1470. O guerreiro teria salvo uma cidade dos sacrifícios humanos diários impostos pelo dragão Stihdjia, que bloqueava o suprimento de água dos habitantes locais. Em gratidão, todas as pessoas abandonaram o paganismo que praticavam pela fé cristã.

Historiadores consideram esse relato um arquétipo mais antigo do que o próprio cristianismo. Há, entre gregos, védicos, germânicos e indo-europeus, várias passagens mirabolantes envolvendo conexões entre dragões, heróis, princesas e bloqueios de água. Contudo, uma coisa ninguém pode negar: São Jorge e o dragão formam um ícone religioso imbatível, exatamente por embaralhar noções essenciais à religiosidade, como mistério, lendas, salvação, heroísmo, desafio e libertação.

Talvez por simbolizar a união entre fé, milagre e coragem, São Jorge foi a imagem popularmente mais cultuada do medievo europeu. O cavaleiro e o dragão surgiam aplicados em mosaicos, afrescos, pórticos, armaduras, ícones, relevos, medalhas e telas, constituindo-se desde então entre as manifestações religiosas mais intensas do mundo ocidental. E o cavalo branco, de onde surgiu? Durante as cruzadas, os cavalos brancos eram considerados animais valiosos e relacionados a soberanos ou comandantes de exércitos. Eqüinos brancos denotavam poder, magnetismo e fidalguia.

E vamos parar de ficar destrinchando a história de São Jorge, porque o bonito dela é exatamente essa aura de intangibilidade, esse halo etéreo, esse apelo esotérico. São Jorge não se explica. São Jorge é.

SÃO JORGE E A GEOGRAFIA

A presença universal de São Jorge continua a impressionar. Levam seu nome uma série de acidentes geográficos, países e cidades como Ilhas Geórgia do Sul, Geórgia (o estado norte-americano e o país europeu), Georgetown (capital da Guiana), estreito de São Jorge (Filipinas), Lago Saint George (Canadá), Baía Saint George (Canadá), Cabo Saint George (Groenlândia), entre dezenas de outras citações. Igrejas e catedrais em louvor ao santo se encontram na Etiópia, Espanha, Alemanha, Suíça, França, Venezuela, Itália, República Tcheca, Eslovênia, Inglaterra, Irlanda, Grécia, Rússia e mais dezenas de outros países. São Jorge ainda é o padroeiro da Catalunha, Inglaterra e Geórgia.

No Brasil, o sincretismo religioso o identifica com Ogum (linha de Angola) ou com Oxóssi (linha keto), misturando altares e ritos. No Rio de Janeiro, a igreja do santo, no centro antigo da cidade, atrai milhares de pessoas que celebram o 23 de abril, data transformada em feriado municipal. O maior reflexo dessa empatia talvez esteja na MPB, concentrada nos compositores Jorge Benjor e Caetano Veloso.

SÃO JORGE COMO INSPIRAÇÃO

O primeiro compôs mais de 30 canções que citam o santo guerreiro. Caetano já musicou a Oração de São Jorge (regravada depois por Fernanda Abreu), além de compor “Lua de São Jorge” e “Divino Conteúdo” (esta, citando vários “Jorges”). Benjor se esmera: ele costuma promover reuniões “jorgianas” em sua casa, quando são convidados exclusivamente os amigos que têm o prenome Jorge.

E pronto. Vamos parar por aqui e ler a Oração de São Jorge. Espadas ao alto, olhos no dragão e corpo ereto. Para quem é ateu e viu milagres como eu, trata-se de uma reza forte. Palavra de quem nasceu no dia 23 de abril. Okê arô! Salve Jorge!

Oração a São Jorge

Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem, tenham mãos e não me toquem, tenham olhos e não me vejam, e nem em pensamento eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar, porque estou sob as armas de Jorge.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com força e grandeza.

E que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos. Assim seja.

(Eduardo Logullo é jornalista, autor de livros e roteirista de televisão. Está preparando o lançamento de um livro sobre a cantora Aracy de Almeida.) 

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