Vinda do interior de São Paulo, Carol teve um "choque de realidade" quando começou a cursar jornalismo na USP em 2009. Conheceu a maior amostra de diversidade que já vira e reconheceu o preconceito - o dos outros e o seu próprio

Nasci e fui criada em uma cidade do interior paulista, com todo o conservadorismo típico da região. Nos grupos que eu frequentava e dentro da minha própria família, vi pessoas sendo discriminadas simplesmente por ser diferentes do modelo aceito pela maioria. Era com surpresa que, nas visitas a São Paulo, via casais do mesmo sexo andando de mãos dadas pela Avenida Paulista sem ser hostilizados. Para mim, isso era um sinal de "avanço".

Mudei-me para São Paulo em 2009, para cursar Jornalismo na USP. Eu achava que não era homofóbica. Habituei-me a fazer uma separação entre mim e as pessoas da cidade onde eu cresci. Acreditava estar muito à frente delas no sentido de aceitar o diferente. Hoje sei que não era bem assim.

O preconceito pode se manifestar de diferentes formas. Pode assumir níveis extremos, em que a pessoa se sente atingida, violentada até, pelo modo de vida que foge do seu, e sente o impulso de defender a sua honra, ou algo que o valha, partindo para a agressão - verbal ou física. Mas pode assumir formas mais "leves" também, às vezes até inconscientes. Esse era o meu caso.

Cumprimentei rapidamente o casal lésbico e desviei o olhar. Era como se aquilo fosse imoral, como se aquelas duas mulheres abraçadas estivessem cometendo um ato obsceno

Em uma das minhas primeiras semanas na USP encontrei um casal lésbico. Cumprimentei rapidamente e desviei o olhar. Era como se aquilo fosse imoral, como se aquelas duas mulheres abraçadas estivessem cometendo um ato obsceno. Me senti desconcertada também por ser uma cena com a qual eu não estava acostumada, que não me era natural ou familiar, e eu não soube direito como agir.

A USP foi o lugar onde eu tive um choque de realidade. Sobretudo o Crusp (a moradia estudantil da USP), onde não tinha como não conviver com a diversidade porque ela estava em toda parte. Eram brasileiros de todo o País, estrangeiros, pessoas das mais diversas opiniões e crenças.

No Crusp conheci um homossexual que foi das amizades mais fortes que fiz na universidade. Com ele, pude conhecer melhor esse mundo do qual descobri que não sabia nada

Foi lá que eu conheci um homossexual que foi meu companheiro de apartamento e uma das amizades mais fortes que fiz na universidade. Com ele, pude conhecer melhor esse mundo do qual descobri que não sabia nada. Ele me ajudou a quebrar muitos tabus. Percebi que certas coisas que eu falava e não julgava serem preconceitos, eram sim e podiam machucar.

Não fazia ideia de como era difícil ser gay numa sociedade tão conservadora. Coisas que para mim sempre foram tão simples, como apresentar um namorado novo para a família, não eram nada fáceis para quem é gay e tem uma família nem tão liberal assim. Na época em que eu entrei na USP, achava aceitável pessoas dizerem coisas como "não sou homofóbico, mas não gostaria que meu filho fosse gay". Com esse amigo, percebi o paradoxo dessa afirmação.

A moradia estudantil foi o lugar onde vi pessoas que tinham sofrido preconceito até então serem aceitas. Num lugar onde existe tanta diversidade, não há um diferente e sim várias diferenças

A moradia estudantil foi o lugar onde eu vi pessoas como ele serem aceitas. Não somente LGBTs, mas todas as pessoas que tinham sofrido preconceito até então por ser diferentes do que se convenciona achar "normal" tinham uma segunda chance. Porque, num lugar onde existe tanta diversidade, não há um diferente e sim várias diferenças.

A USP, no entanto, está longe de ser um lugar em que reina a aceitação. Algumas pessoas são abertas a aceitar a diversidade e fazem mais do que isso: manifestam-se contra o preconceito e realizam grupos de estudo e debates sobre o assunto. Outras não aceitam tão bem. E mesmo onde a diversidade é bem-vinda, há atos de preconceito.

Conheci amigos que tiveram medo de se assumir homossexuais na USP. Isso acontece muito nos cursos em que o número de homens heterossexuais é muito grande, como Engenharia. Nesse caso, sempre existe um medo da não-aceitação da parte de quem está fora desse "padrão". Soube também que os cursos de Economia e de Medicina são um ambiente que não acolhe bem os gays, que optam por ser discretos quanto à sua orientação sexual. Em outras palavras: preferem passar os anos de faculdade, que deveriam ser de livre expressão e experimentação, dentro do armário.

Aviso do DiversIME, grupo de apoio aos LGBTs, apareceu pixado:
Reprodução
Aviso do DiversIME, grupo de apoio aos LGBTs, apareceu pixado: "Abaixo a viadagem"

No ano passado, um extravagante estudante de Letras, que veste frequentemente saia e salto alto, foi agredido em uma festa. O simples fato de usar trajes que a sociedade definiu como sendo exclusivos das mulheres fez com que ele fosse alvo de violência por parte de seus colegas. Para encerrar o assunto da briga, os donos da festa pediram que ele se retirasse do local porque estava provocando confusão. Ele, a vítima, foi punida.

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AMEAÇA À LIBERDADE 

O preconceito existe e é uma ameaça para a liberdade de expressão dentro da universidade. Mas também existem muitas pessoas combatendo essas atitudes. Em setembro deste ano diversos alunos, gays ou não, organizaram uma semana de discussão da diversidade dentro da USP. Acho muito importante que cada vez mais gente se engaje nessa conversa, para que a lição que a gente leve da USP, e deixe na USP, seja de aceitação.

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Quando terminei o curso de Jornalismo, em 2013, comecei em seguida a cursar Letras e permaneci na USP. Sinto que o ambiente que encontrei na minha chegada está mais aberto para tudo, de atitudes à discussão. Uma diferença que eu noto é que as pessoas não ficam mais quietas diante de uma injustiça ou agressão. Se acontece alguma coisa, os alunos se unem, se organizam, se manifestam, denunciam. Isso já constitui uma mudança, um caminho para combater a discriminação. 

No ano passado, alunos da USP convocaram estudantes daqui e de outras universidades para participar de um "saiaço": meninos vestidos de mulher e meninas vestidas de homem para protestar contra o preconceito e apoiar a liberdade de expressão. “Nós viemos fazer girar a roda dos costumes”, disse um colega meu. Eu, de minha parte, estou disposta a girar junto com ela.

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O que aprendi de mais valioso na minha experiência na USP é não me declarar livre de preconceitos precipitadamente, pois eles estão aí, enraizados por décadas de uma sociedade que rejeita as diferenças. Eu costumava rir daquelas piadinhas machistas, sexistas e homofóbicas que sempre surgem numa mesa de bar. Hoje elas perderam a graça, porque sei que não são inofensivas. São a exposição de um preconceito que essas pessoas acham (como eu achava) que não têm.



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