Ela nasceu na alta sociedade paulistana, rica de pai e de mãe. Estudou nas melhores escolas, é sócia do Paulistano, clube de elite de São Paulo. E faz questão de ser chamada de travesti

Ela foi uma criança atenta, que aos 4 ou 5 anos se fascinava com o universo feminino e fantasiava ao ver sua mãe se maquiando. Foi um menino que começou a fazer terapia aos 10 anos e se vestia de mulher a cada chance que tinha. "Quando ficava sozinha em casa, me arrumava, me maquiava, e me sentia bem. Quase não tem foto minha de homem, eu odiava as câmeras. Hoje eu adoro." Foi um adolescente que começou a tomar hormônio por conta própria e passou a desenvolver formas femininas. E foi aí que seu segredo foi descoberto.

"Meu peito começou a despontar, meu pai me levou ao médico e tive de contar tudo", diz a transexual Márcia Rocha, com sua voz grave e raspada de quem fuma um Marlboro atrás do outro. Ela fala sem parar, cruza e descruza as pernas longas, muda de um assunto para o outro, tem várias frentes de batalha, se equilibra com desenvoltura em cima de um salto taludo e aprendeu a conviver com os olhares que atrai o tempo todo. "Consigo transitar porque sou contra radicalismos. Tenho jogo de cintura."

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Mas isso é hoje. "São 40 anos de experiência", ri ela, sobre sua intimidade com o sapato alto. Lá atrás tudo foi difícil e complicado, como se imagina. Quando soube que o filho estava tomando hormônio feminino, seu pai, dono de uma construtora, o levou para outro psiquiatra, que adotaria nas sessões um discurso combinado. "Ele me trancava no armário a pedido do meu pai. Me convenceu a não me expor e a parar com a hormonização, ou eu ficaria estéril", diz ela, que queria ter filhos e uma família. "Meu pai me colocou na terapia porque achou que eu era um caso único. Descobri que tem um monte como eu." 

Então ela cresceu com aparência externa de um menino, namorava muito as meninas - o que faz até hoje -, se vestia de menina quando tinha oportunidade, até eventualmente se casar. "Minha primeira namorada era a filha da diretora do Pueri Domus", diz ela, citando o colégio frequentado pela elite branca paulistana. O primeiro namoro sério foi aos 18, com uma menina de 14. "Eu era menino, mas minhas namoradas sabiam que eu me vestia de menina." 

No meio da minha transição, chorava no ombro da minha esposa e dizia: 'Eu não queria ser assim. É tanta dificuldade, cobrança, perigo, medo, risco

Teve um primeiro casamento, sem filhos, e no segundo teve uma filha, que está hoje com 20 anos. As duas ex-mulheres, que seguem sendo suas amigas, sabiam de sua "mania" de se vestir de mulher. No segundo casamento, que durou dos 29 aos 34 anos - depois de congelar uma dose de esperma para garantir que poderia ter filhos biológicos -, começou a fazer a transição para mulher. 

"No meio da minha transição, chorava no ombro da minha esposa e dizia: 'Eu não queria ser assim. É tanta dificuldade, cobrança, perigo, medo, risco'", lembra Márcia. "Fiquei 40 anos da minha vida tentando me entender para caber na minha caixinha. Mas vi que a gente não pode tomar decisões baseada em medo, tem de tomar decisões baseada em vida." No primeiro namoro depois da separação ela saiu pela primeira vez de mulher junto com uma mulher. "Quando eu era casada só fazia isso dentro de casa."

SUPER EMPRESÁRIA E MUITAS FRENTES DE LUTA

Hoje a situação de Márcia é a seguinte: tem uma namorada advogada, uma filha de 20 anos que mora com ela, quatro empresas - a construtora que herdou do pai e mais uma empresa de loteamento, uma de estacionamentos e uma de administração de bens e investimentos imobiliários - e milita por várias causas. "Faço parte do movimento feminista, do movimento socialista, sou da comissão da diversidade sexual e combate à homofobia da OAB (ela é advogada com diploma da PUC-SP), continuo no BCC (Brazilian Crossdresser´s Club) e sou a única trans brasileira que participa da WAS (World Association os Sexology)", enumera.

Gosto de ficar com homem, o momento é bom, mas todas as vezes que saí com homem eu queria me sentir mulher, nunca foi pelo cara. Eu nunca peguei o telefone de um cara, nunca quis ter nada depois

Ela se considera bissexual fisicamente, mas afetivamente é lésbica - nunca se apaixonou por um homem. "Se o cara me canta direitinho, leva", diz ela. "Gosto de ficar com homem, o momento é bom, mas todas as vezes que saí com homem eu queria me sentir mulher, nunca foi pelo cara. Eu nunca peguei o telefone de um cara, nunca quis ter nada depois."

Da sua namorada atual, lésbica assumida, ela elogia a "pegada". "Nossa dificuldade agora é fazer a família aceitar que ela está namorando uma trans. Eles aceitaram ela sair com mulher, mas agora a questão é outra." Sobre a dinâmica sexual das duas, Márcia diz que não tem regra. "Às vezes sou ativa, às vezes sou passiva, isso não existe. Rola o que der vontade na hora, no momento."

TRAVESTI COM MUITO ORGULHO

A ciência não consegue explicar quem eu sou, mas nem toda explicação é biológica, ou social, ou genética. É um pouco de cada coisa, um conjunto. Cada ser humano é individual

Márcia se tornou, a partir da experiência e de muito estudo do assunto, uma especialista em transexualidade. "A ciência não consegue explicar quem eu sou, mas nem toda explicação é biológica, ou social, ou genética. É um pouco de cada coisa, um conjunto. Cada ser humano é individual. Eu sempre fui trans." Mas ela gosta de ser chamada de travesti. "Justamente eu quero chamar o estigma para cima de mim, uma travesti que não é bandida e nem prostituta. Faço o que eu faço para ser referência e para dizer que pode, que é possível, que você está autorizada a ser quem é. As trans mais bacanas que eu conheço não tiveram chance nenhuma."

Quero chamar o estigma para cima de mim, uma travesti que não é bandida e nem prostituta. Faço o que eu faço para ser referência e para dizer que pode, que é possível, que você está autorizada a ser quem é. As trans mais bacanas que eu conheço não tiveram chance nenhuma

E mesmo ela, que teve todas, sabe que não seria quem é se as coisas não tivessem corrido como correram. "Se eu tivesse batido o pé que queria ser mulher aos 14 anos, não teria conseguido chegar onde cheguei, por mais competente que fosse."

E mesmo hoje, vivendo sua vida da maneira que quer, ela briga com as travestis e transexuais que adotam a postura de se vitimizar. "Não sou nem homem nem mulher, sou travesti. Gosto de me sentir feminina, mas também tenho atitudes masculinas. Como empresária sou dura, para que não me devorem, mas sou justa. Não tenho que ser aceita como uma mulher, tenho que ser aceita como trans. O ser humano é diverso e tem o direito de ser. Não existe certo ou errado, existe eu."








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