Na lembrança das primeiras duas provas, vontade de ir ao banheiro reprimida, a sensação de ter virado a piada da sala, a certeza de que todos os dedos estavam apontados para ela

Sophia tem um perfil no Facebook chamado "Travesti Reflexiva". Foi lá que ela publicou o texto a seguir, em que lembra como foram as duas primeiras vezes que prestou o exame, com aparência de mulher e nome de homem.

A dificuldade que enfrentou ao preferir passar vontade do que correr o risco de ser levada para o banheiro dos homens. A sensação de que era a piada da classe. A certeza de que tinha virado atração turística ao ver pessoas parando na porta de sua sala só para confirmar a tese de que uma travesti estava prestando o Enem.

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A legenda para a foto que estampa esta matéria também foi ela quem fez: EU AMO ESSA FOTO! SENTINDO O CHEIRO DO RG NOVO! FELIZ!

Leia o depoimento de Sophia sobre a sensação de ter pela primeira vez um documento com um nome que reflete quem ela é. 

"Essa vai ser a terceira vez que realizo o Enem, mas a primeira com um nome que me representa.

A metodologia é bem clara: você estará em uma sala dividida por ordem alfabética, ou seja, provavelmente haverá na sua sala pessoas com nome idêntico ao seu. Nas minhas salas anteriores sempre havia meninos com o mesmo nome que recebi ao nascer, logo não havia como disfarçar, desdobrar ou fingir que o meu nome era uma variação, não. Estava na cara, na minha e na deles, e isso afetou o meu rendimento na prova. Ouvi os cochichos, as risadas, os murmurinhos, as piadas, as chacotas, etc. - eu ouvi tudo.

Uma hora, uma hora e meia, duas horas, duas horas e meia, três horas. Eu ainda não havia terminado o teste e estava com receio de pedir pra ir urinar, já pensou se me levavam para o banheiro dos homens? Já pensou se gritam o meu nome bem alto? "Fulano! É você? Mas você é uma menina, tá de brincadeira? Deixa eu ver a sua identificação, ahhhh..."

Não, melhor evitar, em caso de dúvida... Segure!

Foram dois dias de tortura, suportei o olhar de pena por parte dos facilitadores, fingi que não vi as pessoas que vinham à porta da sala apenas para me ver e confirmar uma tese, havia uma travesti querendo estudar! Que absurdo! Não é mesmo? Quem eu pensava que eu era? Gente?

Olhava fixo para o papel enquanto a minha visão lateral me permitia assistir aos dedos e aos olhares que eram apontados para mim. Pelo visto o rumor de que tinha um ET querendo ingressar na universidade já havia se espalhado pela instituição.

Foram dois dias que qualquer outra pessoa não saberia suportar, isso se repetiu por dois anos. Acontece que eu não cheguei agora nessa coisa chamada "sofrimento", eu lido com isso faz tempo, a sociedade me treinou.

Sabe aquele dia em que você pensa que tá cagada de tanto que todos te olham? Que você confere a roupa várias vezes pra garantir que não tem nada fora do lugar? Esse dia se chama "pra sempre" quando você é travesti.

O Enem errou em ter esperado 5 anos para implementar o nome social, e quando o fez, foi de forma precária. Muitas e muitos não conseguiram ter acesso a esse direito, foram criados tantos empecilhos, ligações, cadastros, etc., que o requerimento ficou cada vez mais complicado.

Alterei o meu nome civil no final de 2013, precisei reunir - durante dois anos, no mínimo - laudo de psicólogo, psiquiatra, endocrinologista e assistente social, convidar três testemunhas e aguardar alguns meses de dúvida na esperança de receber o meu pedido deferido, o direito de ter um nome que me tornasse pessoa, que me desse dignidade... Quando foi que isso virou um favor? Quando foi que um grupo de profissionais passou a possuir o poder de dizer quem você é? Quem eu sou? Só eu sei.

Somente esse ano - que nem acabou ainda - 84 travestis e transexuais foram assassinadas somente em 2014, o Brasil é o país que mais mata esse grupo de pessoas no mundo.

A prova foi criada em 1998 e teve a sua segunda versão iniciada em 2009 - o Enem começou a adotar o nome social, passando a possibilitar que 95 pessoas trans se inscrevessem para realizar o exame. Será que de um milhão de indivíduos que configuram esse grupo, apenas 95 queiram estudar no ensino superior do Brasil? Será normal que o número de assassinatos esteja tão próximo do número de candidatos ao ensino superior?

Quantos de vocês possuem o privilégio de poder realizar uma prova em paz? Queria eu que a minha única preocupação tivesse sido o assunto do exame, eu estava muito ocupada fingindo que ser tratada como lixo era normal.

Na foto: eu, feliz, realizada, travesti, mulher. Não digo "humana" porque isso deixou de ser qualidade faz tempo: os humanos me assustam."

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