Relato de mãe mostra como o amor e o respeito possibilitaram ao filho transexual adequar sua identidade e deixar de ser a "princesa rosa da mãe" para virar um menino muito amado

“Agora eu era o herói, e meu cavalo só falava inglês”. “João e Maria”, do Chico Buarque, era a música que nós cantávamos juntos todo dia. Minha relação com meu filho sempre foi de muita cumplicidade, desde a infância. Ele era a "minha princesa Rosa", apelido que usávamos nas nossas brincadeiras de casinha.

O apelido não durou muito tempo. Quando Pedro* começou a escolher suas roupas e seus brinquedos, acompanhei a evolução dele respeitando as suas decisões. Vestidinhos e bonecas? Nem pensar!

Sempre fui o pai e a mãe dele e nossa relação desde cedo é baseada na confiança e no respeito mútuo. Negociávamos tudo, desde o castigo até as recompensas. Ele era uma criança de opinião, sabia o que queria, opinava sobre tudo, tinha interesse sobre tudo, era curioso.

SIGA O IGAY NO FACEBOOK

Bem... Não houve uma transformação tipo "pirlimpimpim"! E nem "oh meu Deus!” (risos) Tudo foi acontecendo de maneira natural para mim. Mãe sempre sabe, sempre percebe, e percebi que algo era diferente nele desde muito pequeno.

A identidade dele foi ficando mais evidente quando veio o irmão mais novo, que nasceu quando Pedro* tinha quatro anos. As brincadeiras foram ficando cada vez mais masculinas, os amiguinhos da escola eram na maioria meninos. Ele era cúmplice de todas as artimanhas dos garotos da sala dele e vivia descabelado e suado.

Se vestia como gostava e eu o deixava escolher suas roupas, seus tênis, bonés, brinquedos e carrinhos. Não interferia nas escolhas dele e nossa relação nunca mudou por causa disso. Dentro de mim, sinceramente, não mudou nada. Mas não havíamos falado sobre essas diferenças entre ele e as outras menininhas da escola.

A HORA DA VERDADE NÚMERO 1

Ele estava com 13 anos e me pediu dinheiro pra cortar o cabelo, que era longo. Uma hora depois, volta para casa com uma sacolinha na mão e a cabeça raspada. Congelei.

A “hora da verdade" foi assim: ele estava com 13 anos e me pediu dinheiro pra cortar o cabelo, que era longo na época. Como de costume, dei o dinheiro e recomendei cuidado, liguei na cabeleireira, coisas de mãe. E lá foi ele.
Uma hora depois, voltou para casa com uma sacolinha na mão e a cabeça raspada. Congelei. Ele me disse: "Trouxe o cabelo pra você, mãe". Fiquei muda, era a hora de conversar.

Minha preocupação nunca foi a sexualidade dele, mas eu achei nesse dia que ele estava com algum problema psicológico que havia me passado despercebido, que ele estava sofrendo por algum motivo e queria chamar minha atenção.

Chamei-o para uma conversa séria, olho no olho. O que ouvi depois não veio como uma bomba que explode na sua cara, mas como uma nova etapa a seguir. Ele me disse que gostava de meninas e que estava apaixonado. Nós conversamos muito, disse para ele que na verdade eu sempre soubera, só tinha chegado a hora de botar um "rótulo" nisso. Mesmo sabendo que eu ODEIO rótulos.

Mudamos a nossa música de “João e Maria” para “Boys Don't Cry”, do The Cure, que é nossa música até hoje. Minha reação veio depois, quando fiquei sozinha, e foi de MEDO. Chorei muito, por medo do que ele teria de enfrentar, de como o mundo lá fora o trataria, será que ELE estava preparado?

Meu maior temor era a reação dos outros. Estávamos em uma cidade e em um estado onde não temos parentes, e tínhamos poucos amigos. Eu estava iniciando uma relação com o padrasto dele, e essa seria uma novidade e tanto... E veio o medo de tudo desandar. Porém, a minha prioridade sempre foi e será o meu filho.

O padrasto acabou ajudando o Pê a ser quem queria ser, o aceitou como eu o aceitava.
Foi a figura masculina que estava faltando nas nossas vidas.
Nós, eu e meu marido, acompanhamos nossos filhos em tudo... Tivemos nossa fase emo, depois viramos góticos, íamos a todos os cemitérios de todas as cidades que visitávamos... (risos). Depois viramos metaleiros, todos nós!

Fizemos tudo com muita responsabilidade, mostramos que estávamos com ele pro que desse e viesse, e isso afastou muita gente maldosa de nossas vidas. Conhecemos a primeira namoradinha dele, os levávamos e buscávamos nas festinhas, sob olhares horrorizados de pessoas desprovidas de respeito.

A HORA DA VERDADE NÚMERO 2

Aos 19 anos Pedro fez uma nova revelação: a de que não queria mais ser mulher.

Ele sentia-se homem, mas não conseguia se ver como um homem quando olhava no espelho. Ele não era lésbica, ele era homem... Mas como entender isso?

Ele estava passando por uma fase terrível, de decisões, de negações, de outras afirmações... Estava descobrindo quem ele REALMENTE É. Sentia-se homem, mas não conseguia se ver como um homem quando olhava no espelho.
Essa fase foi difícil por que, por algum motivo, ele guardava isso só pra ele. Ele não era lésbica, ele era homem... Mas como entender isso?

Qualquer indício, trejeito, traços que indicassem que ele era uma mulher lhe causavam repulsa. Aos 19 anos ele começou a ver que se parecia com um menino de 13 anos e que seria assim sempre, não teria barba, seu corpo não teria pelos...

Depois de muitas e muitas crises existenciais das quais nem gosto de lembrar, por conta do terror que eu tinha dele atentar contra a própria vida, ele queria culpar alguém, algo, Deus, sei lá, por ter um corpo feminino. Foi complicado.

Fiquei esperando que ELE resolvesse se abrir, decidi esperar o tempo dele.
E esse dia chegou. Sem hora marcada, sem aviso prévio, meu filho se sentou na minha frente enquanto eu digitava um trabalho e desabou.

Ele me contou chorando que tinha tomado uma decisão: ia tomar hormônios para ficar com aparência masculina, mudar seu nome, seus documentos, e faria algumas cirurgias.

Em uma conversa emocionada me contou chorando o que acontecia com ele, e que, independente do que eu achasse, já tinha tomado uma decisão: ia tomar hormônios para ficar com aparência masculina, mudar seu nome, seus documentos, e faria algumas cirurgias.

Creio que ele possa ter pensado que eu iria surtar, mas não. Fiquei feliz de ele ter "se encontrado". Disse que estaria junto dele e só pedi que ele fizesse isso tudo com acompanhamento médico. E assim foi. Mais uma etapa que começamos juntos.

O dia dessa conversa ficou marcado para sempre, porque ali ele teve a prova de que eu realmente estou com ele pro que der e vier.
Nesse dia nasceu o Pedro, uma pessoa incrível, que veio pra ser aceito como é e pra ser feliz.

Daí em diante o temperamento dele mudou muito, para melhor. Ele se tornou mais confiante, mais seguro, mais consciente, mais responsável. Logo depois que começou a transformação, foi morar em Belo Horizonte e mostrou ao mundo a que veio. Tem sido forte, um guerreiro, meu orgulho.

Aos curiosos da família, e aqueles que só querem fofocar, eu sempre digo: “Eu tive uma filha que hoje se tornou um HOMEM maravilhoso e que muito me orgulha!”

*O nome foi trocado para proteger a identidade do garoto.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.