Um ano depois de ser agredido num dia como outro, em que vestiu saia para ir para a faculdade, Rafael Bacarolo lembra como aquele dia faria sua vida nunca mais ser a mesma



Exato um ano atrás, a agressão contra o estudante universitário Rafael Bacarolo, que está agora com 26 anos e indo para o sétimo semestre de Letras na USP, deu o que falar. O iGay foi o primeiro a noticiar o caso, mas nada mudou dentro da USP. Na verdade, segundo diz Rafael, nada mudou de forma alguma neste ano que passou. "Ao contrário. Duas semanas depois da agressão apanhei de novo, dentro de uma festa na universidade, na ECA (Escola de Artes Dramáticas), e nada foi feito! Fui convidado a sair da festa, mesmo tendo sido eu a vítima."

Os professores o apóiam, Rafael nunca teve problema com eles. Mas desde a agressão, o estudante que usa saia "para ir à aula e para comprar pão" lembra daquele dia como o dia em que ele quase perdeu a liberdade - porque chegou a cogitar mudar seu jeito de ser. "É um questionamento constante: será que vou mudar meu jeito de ser ou vou seguir e enfrentar as consequências?", conta ele. "Depois da agressão evitei sair de casa, evitei usar saia, mas depois vi que mudar meu corpo por conta de uma agressão seria incoerente comigo mesmo. Minha imagem é a minha bandeira, é um jeito como acabo me afirmando como a pessoa transgressora que incomoda algumas pessoas."

Já cheguei a rasgar peças minhas, meus saltos, raspar o cabelo e me esconder. Vivo nesse limbo de usar ou não minhas roupas, levar ou não meu jeito de ser por conta do medo

Além de cursar Letras, Rafael é performer. "Uso meu corpo como objeto da minha arte! Desde 2009 uso saia e salto alto no dia a dia, mas sofri bullying no trabalho, um dos fatores que me levou à depressão em 2010. Vivo nesse limbo de usar ou não minhas roupas, levar ou não meu jeito de ser por conta do medo. Já cheguei a rasgar peças minhas, saltos, raspar o cabelo e me esconder."

O ambiente na maior e mais prestigiosa universidade pública do Brasil não é o que se esperaria de um local que reúne a elite intelectual do país. "A vida aqui nada tem de fácil. Meu melhor amigo foi alvo de um jornal estudantil em 2009 que dava um prêmio a quem jogasse um coco em viados", diz ele, que reage criando, performando - e pensando.

Faz parte do coletivo Dom Clemente, que estuda a formação da identidade, moda, religiosidade, construção e desconstrução de vários discursos. "Os gays absorveram muito da heteronormatividade, gay para ser gay tem de ser macho", contesta. "Eu estava errado porque estava de saia e saia é um ítem relacionado somente às mulheres. Quem disse que as coisas têm gênero? Você se identifica com a roupa, você é chamado por ela, ela te faz ser visualmente o que você é por dentro. Eu continuo usando saia, como sempre usei."

Veja o depoimento que Rafael dividiu com os amigos: 

"E é como voltar no tempo...

No dia 10 de novembro de 2013 eu entrei para as estatísticas de vítimas da lesbo-homo-bi-transfobia! Há um ano vi minha vida mudar radicalmente...

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Na manhã de 10 de novembro de 2013 fui covardemente agredido por ser gay, por estar de saia, por minha imagem não ser tão viril, normativa, heterossexual... Apanhei por misoginia, machismo, apanhei pelo medo do diferente, pela não aceitação do meu ‪#‎corpolivre‬, apanhei por ser eu e por não ser o macho que vocês tanto odeiam, mas que no fundo consomem!

Em 10 de novembro de 2013, dentro da loja do Habib's, rindo com minhas amigas e com meu melhor amigo, levei um soco na boca que dói na minha alma até hoje e vai doer por muitos e muitos anos!

Eu ganhei o medo de presente! Foi a última válvula a ser liberada para a síndrome do pânico! Eu, que já tenho depressão, acabei tendo de conviver com essa outra companheira solitária e caótica! Não é fácil, não foi fácil, não está sendo fácil e não será fácil!

O choro vem, às vezes você fica trancado no quarto, às vezes você para de pegar o metrô, você surta, você treme na aula porque fez uma pergunta, sua cabeça está cansada, diariamente exausta, você chora, se isola

O choro vem, às vezes você fica trancado no quarto, às vezes você para de pegar o metrô, você surta, você treme na aula porque fez uma pergunta, sua cabeça está cansada, diariamente exausta, você chora, se isola, pica batatas como se numa terapia, a terapia não funciona, os remédios me causam enjoos e me deixam vegetando na cama! Meu corpo foi mutilado, agredido, violentado, violado! Hoje eu não sou mais a mesma pessoa de 2013!

Tive de aprender a lidar com meu caos interior, aprender a chorar mudo, a ter medo da partida, a ter medo de andar, a ter medo de viver... um soco que me tirou a liberdade!

Passado um ano, fico imaginando quantas mais mortes não houve por esse ódio do corpo alheio, do corpo que expressa o que é, do corpo diferente e que por isso merece ser corrigido!

Passado um ano, fico imaginando quantas mais mortes não houve por esse ódio do corpo alheio, do corpo que expressa o que é, do corpo diferente e que por isso merece ser corrigido! Quantas lésbicas, quantos gays, quantos bissexuais, quantas travestis e transexuais, quantas mulheres, quantos negros, quantos indivíduos não foram violentados por conta de seus corpos, de suas essências, de ser livres como querem ser?

Eu sinto que nada está sendo feito, mas eu decidi fazer, não só por mim, não só para minimizar o medo que eu tenho, mas por você, por ela, por ele, por elx!

Eu quero poder ser quem eu quero ser... o que há de errado nisso?

Surge um movimento de corpos livres e queremos ter voz! Dia 16 eu estarei ao lado de todxs para lutar pelo meu direito de ter um #corpolivre, pelo direito de poder me expressar... estarei caminhando em favor do amor e da liberdade!

Eu quero poder ser quem eu quero ser... O que há de errado nisso?"

Temas que marcam o encontro
Reprodução
Temas que marcam o encontro "A Revolta da Lâmpada", dia 16 de novembro ás 16 horas na Av. Paulista

A REVOLTA DA LÂMPADA

Rafael faz parte do manifesto "A Revolta da Lâmpada" - alusão ao ataque com lâmpadas fluorescentes contra quatro homens na Avenida Paulista em 2010 -, marcado para o próximo domingo (16), às 16 hs., na avenida Paulista, número 777, ponto exato em que aconteceu a agressão da lâmpada.

"Esse evento ficou muito famoso porque no grupo de quatro homens havia gays e não gays, então todo mundo se sentiu agredido. Foi como aquele caso do pai e filho que foram atacados porque foram confundidos com um casal", explica. "A lâmpada fluoresente virou símbolo de repressão, não só para os gays, mas para todo mundo que se comporta diferente. A revolta não é só dos gays, é da comunidade LGBT, de grupos feministas, de movimentos negros. Não somos nenhum partido político, só estamos querendo ter voz e tornar público o nosso manifesto. É um mopvimento de corpos plurais, e não de gêneros." 

A intenção é engrossar o coro a favor de muitas questões dos direitos humanos: criminalização da homofobia, aprovação da lei de identidade de gênero nacional, efetivação do casamento igualitário. Veja no quadro à esquerda a pauta completa de reivindicações.






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