Quem já está fora do armário fica com um pé atrás de pensar em passar por tudo de novo: aceitação da família e dos amigos, se entender com suas próprias questões pessoais. Vale a pena?

Todo mundo sabe que sair do armário não é tarefa fácil. Primeiro, passamos pelo processo interno de auto-aceitação, depois temos de enfrentar o mundo lá fora e lidar com reações da família, dos amigos e dos colegas de trabalho, para só então conseguir curtir a vida sem ter de nos esconder.

É tão libertador ter tantas novas possibilidades - programas, estilo de vida, visual, paqueras, paixões - que tem gente que se empolga demais e acaba encontrando uma pedra no caminho: gays assumidos não têm interesse de se envolver com você. Os motivos são muitos: medo de ser traído, medo de ser usado para o gay de primeira viagem se enquadrar, ou mesmo por não achar graça nessa fase de deslumbramento. 

Daniel Cavalcanti, de 31 anos, namorou um recém-assumido e a relação durou oito anos
Arquivo pessoal
Daniel Cavalcanti, de 31 anos, namorou um recém-assumido e a relação durou oito anos

Um gay em fase de experimentação sai atirando para todos os lados e é muito difícil acertar na primeira. Mas será que namorar um homossexual que acabou de se assumir nunca dá certo?

Para Daniel Cavalcanti , de 31 anos, a história foi diferente do que reza a lenda. Assumido desde os 16 anos, Daniel conheceu Carlos*, com quem teve um relacionamento de 8 anos, quando ele ainda dizia ser heterossexual e estava inclusive noivo de uma mulher. Por conta disso tudo, os dois eram apenas amigos. Até o dia em que Carlos terminou o noivado.

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“Fomos jogar vídeo-game na casa de um amigo e a gente ficou. Na semana seguinte ele já tinha contado pra família e amigos”, diz o administrador. “Não tive problema quanto a ele sair do armário. Só tive de explicar muita coisa, que o mundo não era tão lindo como ele achava.”

Apesar da tranquilidade com que se deu o processo, Daniel confessa que no início sentia medo de que o novato Carlos tivesse vontade de ter novas experiências e terminasse o namoro. “Fui o primeiro cara dele, então pinta sim uma insegurança. Mas ele estava comigo e queria continuar comigo, acho que vai da índole de cada um. Se você nasceu para flertar com o mundo, está fadado a ser um Don Juan, independente de quando saiu do armário”, considera.

Pude ajudá-lo com algumas inseguranças que rolaram. Ter alguém ao seu lado nessa hora faz muita diferença, queria eu ter tido alguém que não fosse passageiro na época em que me assumi" (Daniel Cavalcanti)

Para o administrador, mesmo a parte de servir como um guia para inserir o namorado no mundo LGBT não foi ruim, muito pelo contrário. “Achei super benéfico, porque eu podia ajudá-lo com algumas inseguranças que rolaram. Ter alguém ao seu lado nessa hora faz muita diferença, queria eu ter tido alguém que não fosse passageiro na época em que me assumi”, conta.

Karen Moreira, de 22 anos, não quer mais saber de pessoas que acabaram de sair do armário
Arquivo pessoal
Karen Moreira, de 22 anos, não quer mais saber de pessoas que acabaram de sair do armário

“Era um inferno”

Quem não teve uma parceira tão compreensiva assim quando se assumiu lésbica foi Karen Moreira , de 22 anos. Quando ela contou sobre sua orientação sexual para a família, estava namorando Larissa*, em sua segunda experiência com mulheres. E depois disso, o relacionamento não resistiu.

A namorada, além de sentir ciúmes de Karen e achar que ela poderia voltar a ser heterossexual, também não conseguia lidar com o fato de que a família de Karen não aceitou bem a nova realidade. “Ela era assumida, aceita em casa, e achava que pra mim também seria assim. Mas não foi. Ela brigava muito comigo, porque me levava nas festas de família e eu não podia levá-la. Eu queria, mas não podia. Ela chegou a dizer que eu tinha de criar vergonha na cara e enfrentar meu pai. Era um inferno.”

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As pessoas sentem medo do recém-assumido voltar atrás, ou se empolgar demais e sair ‘passando o rodo’. É complicado, porque sentimos atração. É tanta novidade que acabei traindo." (Karen Moreira)

Depois disso, a estudante não aconselha ninguém a namorar um recém-assumido, a não ser que esteja bem consciente do que vai encarar. Ela mesma confessa que quando saiu do armário teve dúvidas de que era aquilo o que queria e que também era difícil resistir às novas tentações. “As pessoas sentem medo do recém-assumido voltar atrás, ou se empolgar demais e sair ‘passando o rodo’. É complicado, porque sentimos atração. É tanta novidade que acabei traindo”, diz.

Felipe Macedo, de 21 anos, passou por uma experiência ruim com um recém-assumido, mas nem por isso descarta se relacionar com alguém assim de novo
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Felipe Macedo, de 21 anos, passou por uma experiência ruim com um recém-assumido, mas nem por isso descarta se relacionar com alguém assim de novo

Não podemos generalizar

Mesmo também tendo passado por uma experiência ruim, Felipe Macedo , de 21 anos, já não é tão radical quando o assunto é namorar um gay novato. O universitário, que mora em Belém, manteve um namoro à distância com Pedro*, do Rio de Janeiro, por dois anos. O relacionamento estava tão bom que Felipe decidiu mudar de cidade para ficar mais perto do seu amor. Até que o namorado se assumiu para a família.

“Seus pais me reprovaram, porque além de homem eu era negro e pobre, e o proibiram de me ver. O plano era eu ficar na casa dele, mas acabei ficando na rua, em uma cidade totalmente desconhecida”, relembra.

O relacionamento entre os dois não resistiu à pressão da família de Pedro e eles terminaram. No entanto, Felipe não descarta a possibilidade de se apaixonar novamente por alguém que está começando sua experiência no mundo gay. Segundo ele, a insegurança e o medo que as pessoas têm de namorar um recém-assumido é consequência das experiências próprias.

“Se elas dizem que ao assumir estamos no momento de experimentar, é porque provavelmente para elas foi assim. Mas acredito que não podemos falar pelo outro. Nem todo mundo é igual”, diz ele. 

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O conselho de Felipe para quem está passando por essa situação é livrar-se dos preconceitos e se jogar na relação de coração aberto, sem medo de se surpreender. "Não crie expectativas nem boas nem ruins, apenas se permita."

*Os nomes foram alterados para manter a privacidade das pessoas citadas

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