Duas coisas que é melhor ser na Costa Rica do que no Brasil: gay e torcedor da seleção nacional de futebol. Os gays de lá há tempos não ouvem falar em crimes de ódio - os fãs da bola estão bem satisfeitos com o resultado da Copa do Mundo

Se você é gay, gosta de natureza, praia, surf, clima tropical, natureza exuberante, um lugar relaxado para curtir e dar risada, talvez seja o caso de pensar em conhecer a Costa Rica nas próximas férias. Fui convidada, em nome do iGay , para fazer a viagem junto com um grupo de jornalistas gays do continente. A intenção era mostrar que o pequeno país da América Central é um ótimo destino para o turismo gay.

Os outros convidados eram Kenny Porpora, de NY, editor da revista virtual de viagens Man About World , Christine Kearney, australiana a serviço da revista lésbica americana  Curve , Francisco Robledo, mexicano, editor da  eNeHache , Filiberto Ruíz, editor da versão mexicana da G Magazine e Guillermo Tejo, editor de fotografia da revista Betún . De dia os passeios eram parques nacionais, floresta tropical, observação da natureza por terra e mar, esportes radicais. De noite, bares gays ou simpatizantes.

Voltei com a sensação de que ser gay na Costa Rica é uma estrada sem grandes tropeços. Claro que a impressão de turista é parcial, ainda mais numa viagem curta e guiada como foi a nossa, mas conversei com vários gays pelo caminho e todos eles repetiram que crescer gay na Costa Rica traz os mesmos questionamentos pessoais de crescer gay em qualquer lugar do mundo. Mas nenhum deles é causado por medo, violência, fundamentalismo religioso ou discriminação.

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Eu e o mexicano Francisco Robledo, o Paco, éramos representantes dos dois países que mais matam homossexuais no mundo. O Brasil em primeiro lugar, com 313 assassinatos contabilizados em 2013. O México em segundo, com 200. Na Costa Rica ninguém tinha ouvido falar em crimes de ódio praticados contra gays recentemente.

BLOG : "Descobri que o Brasil de verdade existe, só que ele fica... na Costa Rica!"

O atual Ministro do Turismo da Costa Rica, Wilhelm von Breyman , 52 anos, é o primeiro Ministro declaradamente gay do país. Ele contou que quando os gays são vítimas de violência na Costa Rica, os casos envolvem basicamente assaltos. E para evitar assaltos ele dá o mesmo conselho para todo mundo, seja gay, hetero, mulher ou homem: “É bom tomar um pouco de cuidado.”

MIGUEL ANTONIO

Michael Carmone é dono do único bar gay na praia de Manuel Antonio, o Karma Lounge. É um bar rústico, com pistinha de dança e área externa para os fumantes (as regras contra o cigarro são muito rígidas na Costa Rica – está cheio de lugar ao ar livre onde fumar é proibido).

“Nasci e cresci aqui e nunca tive problema algum por ser gay”, diz ele sobre Manuel Antonio, cidade que fica na província de Quepos. “Todo mundo se mistura e não tem discriminação.” O Karma é um bar recente, que o ex-barman Carmone abriu com o companheiro, um americano aposentado que foi morar ali e proporcionou a ele realizar o sonho de ter o próprio bar. No andar de cima do imóvel funciona uma pizzaria, que faz entregas no bar se alguém tem vontade de comer uma pizza.

Manuel Antonio é o principal point gay entre as praias da Costa Rica. Antigamente um trecho conhecido como Playita era voltado exclusivamente aos gays, e o nudismo era permitido. Depois que um hotel foi construído ali, os gays perderam a exclusividade, mas continuam frequentando a praia. Todos os hotéis da cidade são simpatizantes, mas há um especificamente gay, o Villa Roca.

O oceano que banha Manuel Antonio é o Pacífico, mas a Costa Rica tem praias na costa do Atlântico também, conhecida como o lado caribenho da Costa Rica. “É outra parte do país, tem outro tipo de comida, as praias têm areia dourada e água cristalina”, diz Wilhelm von Breyman. Em Manuel Antônio as praias são mais selvagens. Alguns trechos estão literalmente dentro do Parque Nacional Manuel Antonio, e o acesso é uma caminhada pelo meio do parque, onde você vê macacos, araras, tucanos, veados e outros animais que eventualmente mostram a cara na areia. Eu encontrei um texugo.

SE ADIANTE NA PAQUERA

San Jose, a capital, também tem uma noite gay animada e cerca de 15 bares gays. O bar sugerido pela #LoveTravels, a campanha gay-friendly que a rede de hotéis Marriott criou para divulgar seus hotéis e a própria Costa Rica, foi o La Avispa, um dos mais badalados e cheios da cidade. É o bar que Cesar Sanchez, gerente do spa do Costa Rica Marriott, frequenta. “Foi muito simples crescer como um homem gay em San Jose. Nunca enfrentei problemas na escola, na universidade (Relações Internacionais) e trabalhando na rede Marriott. Foi meu primeiro emprego e já trabalhei aqui 12 anos ao todo, estou há 9 anos direto”, disse ele. “Não faz diferença se você é gay ou não, você tem o mesmo tratamento e os mesmos benefícios.”

Cesar conta mais: “Na contratação, você tem de assinar um documento dizendo que não vai tratar de maneira diferente ninguém que tenha uma orientação diferente da sua, seja um hóspede ou um colega de trabalho. Se você não concorda com essa condição, nem consegue o emprego.”

Cesar dá uma dica para quem for a um bar gay na Costa Rica: se estiver interessado em alguém, tome a iniciativa de ir conversar. Ficar fazendo carão não funciona. “É difícil conhecer gente nova na Costa Rica, por conta de nossa cultura sempre esperamos que a pessoa venha falar com a gente primeiro. Se você vai a um bar com os amigos e começa a falar com todo mundo, vai ser julgado. Vai ser considerado um prostituto.”

Cesar diz que encontra muitos turistas nos bares de San Jose, principalmente americanos (vem dos EUA o maior contingente de turistas na Costa Rica), mexicanos, canadenses, europeus e mesmo dos outros países da América Central. “Se o turista quiser se aproximar de alguém, tem de vir conversar. Pode mandar um drink antes e aí chegar”, aconselha ele. O clima, segundo Cesar, é de respeito. Brigas são raríssimas.

A VIAGEM

A Costa Rica fica a mais ou menos 8 horas de vôo do Brasil. A Avianca tem um vôo via Bogotá, na Colômbia. São 6 horas o primeiro trecho (São Paulo-Bogotá) e 2 horas o segundo (Bogotá-San Jose). A mesma companhia tem volta via Peru. Três horas e 40 o primeiro trecho (San Jose-Lima) e 4h45 o trecho final (Lima-São Paulo).

A moeda é o Colone. 2 dólares valem 1.000 colones.

O país inteiro tem menos de 5 milhões de habitantes.

O exército foi abolido em 1948. O custo do exército foi repassado para a Educação, e atualmente 96% dos habitantes são alfabetizados. Cerca de 70% falam inglês.

A escola é pública, e obrigatória, até a 6ª série.

A alta temporada, durante a estação seca, vai de dezembro a março. A estação "verde" (eles evitam usar a palavra molhada para não afugentar os turistas) vai de agosto a novembro.

O esporte nacional é o futebol, e eles ficaram bem satisfeitos com o resultado da Costa Rica na Copa do Mundo (aquela lá). O país foi desclassificado nas quartas de final, eliminada pela Holanda, depois de ganhar de gigantes como Itália e Uruguai.

O casamento gay ainda não é permitido no país. 


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