A noite era de festa para a menina que completava 18 anos. De madrugada, encontro não marcado com um estranho resultou na história que a chef de cozinha Diana Tavares contou ao iGay

Dez anos. Faz dez anos que fui apresentada à violência que a covardia é capaz de provocar em um corpo de menina, um fim de adolescência, uma família, um amor.

Era meu aniversário de 18 anos. A festa aconteceu em uma casa noturna e durante a noite toda a vida foi possível. Havia muito amor entre eu e minha namorada. Horas mais tarde meu presente chegaria sem dentes e ensanguentado.

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Saímos da festa juntas, felizes, cometendo esse terrível crime que é andar de mãos dadas e nos amar. O encontro que não tínhamos marcado foi com um sujeito que se sentiu agredido por nossas mãos entrelaçadas e nos atacou, chutou minha cara, quebrando dentes e mandíbula e deixando marcas que tempo nenhum vai apagar.

Ele estava sozinho. Me deu um soco na nuca, me derrubou no chão e chutou meu rosto diversas vezes. Não fui socorrida. Ele só parou na hora em que desmaiei e me esvaía em sangue

Ele estava sozinho. Me deu um soco na nuca, me derrubou no chão e chutou meu rosto diversas vezes. Bateu em minha namorada também, mas menos. Não fui socorrida. Cerca de 20 pessoas viram tudo, mas ninguém se aproximou. Ele só parou na hora em que desmaiei e me esvaía em sangue.

UMA VERSÃO MAIS PALATÁVEL

Faz dez anos que sobrevivi à ideia de não fazer mais parte da vida da minha avó, que aos 90 anos não teria resistido a ouvir essa história. Perdi a chance de pedir colo para ela mais uma vez e não pude contar que não foi um acidente que me deixou tão machucada. Ela se foi, eu morri um pedaço, e hoje que está lá na nuvem minha avó deve ter ficado sabendo a verdade.

Faz dez anos que minha mãe me abraça sem saber de fato o que aconteceu naquela noite, porque também não aguentaria saber. Algumas pessoas pensam que minhas cicatrizes são de um acidente, porque ainda me envergonha dizer que apanhei sem ter feito nada. Apanhei porque um dia fui viver o que era (e ainda é) a verdade para mim: é por meninas que meus olhos brilham mais. Apanhei porque andar de mãos dadas com meu amor é violento para boa parte das pessoas inseguras com sua própria sexualidade e que por isso buscam refúgio na covardia.

Um dia, remoendo fotos, encaixotando a vida de um casamento que terminava - uma outra forma de violência, embalada como desamor -, me dei conta de que minhas caixas estão repletas de imagens da bandeira do arco-íris. Sempre tiro fotos da bandeira no Dia do Orgulho Gay. Vivo em São Paulo e morei algum tempo em um apartamento com vista para a Rua da Consolação. No dia da Parada Gay, na hora em que aquele aglomerado de pessoas descia empunhando metros de tecido com a mistura simbólica das cores... eu me emocionava. Não sei o que é, mas acho bonito, só isso mesmo, bonito. Não penso na bandeira como símbolo de nada, mas acho bonito.

8 pinos de titânio, 4 placas de platina, enxerto de cartilagem, 3 cirurgias plásticas, 7 intervenções estéticas corretivas, 2 anos de fisioterapia facial, 10 anos olhando para trás quando ando na rua, 10 anos sem poder comer nada crocante, 10 anos lembrando que meu corpo quase não resistiu

A bandeira é grande, mas não o bastante para esconder a imensa violência que marcou a vida de duas meninas apaixonadas que estavam no meio da rua, dez anos atrás, madrugada adentro, levando o seu amor para passear.

Pensando melhor, desempoeirando a vida e as fotos, o dia da Parada Gay é bonito porque é importante, mas para mim é bonito sobretudo porque toco essa importância no meu rosto: 8 pinos de titânio, 4 placas de platina, enxerto de cartilagem, 3 cirurgias plásticas, 7 intervenções estéticas corretivas pequenas, 2 anos de fisioterapia facial, 10 anos olhando para trás quando ando na rua, 10 anos sempre alerta, 10 anos sem poder comer nada muito crocante, 10 anos sentindo muita dor quando faz frio, 10 anos passando pela rua Frei Caneca olhando aquela árvore que foi testemunha de tudo e que ainda está lá e lembrando que foi ali que meu corpo quase não resistiu.

Ver a bandeira do arco-íris ser aberta em qualquer lugar é sempre um afago na minha memória arranhada por essa brutalidade. Me dá esperança de que um dia essa movimentação colorida não seja só um dia de festa e celebração e sim um ato cotidiano de respeito profundo e verdadeiro.

Vou permanecer aqui na fé de que o mesmo amor que me fez apanhar será o que levará para a rua o que só o amor espalha: empatia e respeito pela ideia de que “gente é para brilhar” e não para apanhar por ser quem é.

UMA NOVA MEMÓRIA E ALEGRIA PARA ESTA DATA

Acima de tudo, tenho fé e esperança porque me deparei com a minha mais nova lembrança desse dia. Esse dia agora é menos dor porque o universo me deu esse presente: criei uma nova memória e alegria para esta data. Faz um ano que amadrinhei, assinei e testemunhei o amor de duas pessoas. Faz um ano que abracei a união de duas lindas mulheres que reforçaram minha certeza de que a melhor escolha é sim, o amor. Elas se casaram e agora estão no processo de aumentar a família e espalhar ainda mais amor. Obrigada por, sem saber, terem mudado a minha história. O amor salva a memória da gente, realiza o presente e faz crer num futuro diferente para todos nós.

Quero usar minha história não para me lamentar, mas para ter uma puta esperança de que o filho delas nascerá num país diferente. Onde amar seja quem for não terá a menor importância, não causará violência alguma e a diferença será vista só como um detalhe... Só isso. Simples assim.

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