Participantes e organizadores comemoraram o fato de o ato, que chegou ao Rio pela Praia de Copacabana, estar sendo replicado em favelas no subúrbio e na Baixada Fluminense

Agência Brasil

Paradas do Orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) ocorreram na tarde deste domingo (28) em dois dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro, o Alemão e a Maré. Participantes e organizadores comemoraram o fato de o ato, que chegou ao Rio pela Praia de Copacabana, estar sendo replicado em favelas, bairros do subúrbio e cidades da Baixada Fluminense.

"É importante quebrar esse preconceito também dentro das comunidades. Fomos os realizadores da primeira e este ano já estamos na sétima edição, e com muita luta, porque não tem patrocínio como em Copacabana", disse Alberto Araújo Duarte, um dos organzadores da Parada LGBT da Maré.

O açogueiro Rayanderson Ferreira, de 19 anos, aproveitou a proximidade de casa para ir a sua primeira parada, no Complexo da Maré, e destacou o que acha importante no evento. "Acho que todo mundo tem preconceito, mas aqui dentro é maior. Lá fora, as pessoas olham atravessado, mas aqui é mais comum mexerem e xingarem a gente", explicou, causando discordância na amiga, a padeira Joseane Silva, também de 19 anos. "Mas lá fora a gente vê muito caso de gente sendo agredida [fisicamente]. Aqui, eles podem até mexer mais, mas não batem".

Com carro de som, drag queens e público animado, a festa na Maré contou também com a Feira da Saúde, para conscientização e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST), tuberculose e dengue, além de saúde da mulher, saúde bucal, controle do tabagismo e outras drogas. Entre as 12h e as 16h, a organização não governamental Grupo Pela Vida fez testes de HIV gratuitos por amostra de fluído oral no Posto de Saúde da Vila do João e cerca de 30 mil preservativos foram distribuídos.

Para Márcio Villard, coordenador-geral do grupo, a importância da ação é dar visibilidade à prevenção, principalmente na população jovem LGBT. "Diferentemente do nosso evento principal, que é a parada de Copacabana, que já é praticamente um evento turístico, o fenômeno das paradas nas comunidades é algo específico do Rio de Janeiro, e é voltada mesmo para os moradores", disse. "O morador de comunidade é excluído de muitas coisas e vive em uma situação de vulnerabilidade em que nem sempre é fácil e possível fazer a prevenção", acrescentou.

Após tiroteios na noite do último sábado (27) que mataram um menor de idade, os organizadores da Parada LGBT do Complexo do Alemão, que já estava marcada para a Praça 24 de Outubro, no bairro vizinho de Inhaúma, preferiram que o ato ocorresse na própria praça, em vez de percorrer ruas em direção à favela. Mayke Machado, um dos organizadores da parada, explicou: "Vamos percorrer só um quilômetro, mas vamos ficar em torno da praça mesmo, para evitar conflito. Já estávamos fazendo fora da comunidade para dar mais segurança [aos participantes]."

O militante acredita que, nos últimos anos, os grupos LGBTs têm se mobilizado mais nas comunidades, principalmente quando aumenta a presença do Estado: "Posso dizer que há uns dois anos existia muito mais homofobia nas favelas. As pessoas não podiam nem se assumir".

Com 19 anos, o jovem Wellington da Conceição discorda parcialmente: "Fora da comunidade, se a gente anda de mão dada, muitas vezes as pessoas preconceituosas não têm coragem de falar nada. Mas aqui, sempre tem um que xinga e critica", conta o morador do Complexo do Alemão, que foi com cinco amigas heterossexuais para a parada. "Sou hétero e sempre gostei dos gays. São amigos de verdade e muito divertidos. Cada um vive a vida que quer e a gente não tem nada com isso", defendeu a diarista Ione Rodrigues, de 41 anos.

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