Jorge Forbes não vê "Império". Nada contra, ele só não chega em casa a tempo do consultório. Mas ele vê, como diz citando Nelson Rodrigues, "a vida como ela é". O iGay o consultou para fazer uso de sua experiência com o comportamento humano

Explicamos para ele a questão do momento na novela das 9: o pacto do casal Claudio ( José Mayer ) e Beatriz ( Suzy Rêgo ), que durava 20 anos e que fazia os dois principais envolvidos perfeitamente felizes, veio à tona. O que eles devem fazer agora? Como aplacar a fúria do filho Enrico ( Joaquim Lopes )?

"Eles não vão ter que dar satisfação para ninguém", diz ele. "'Todas as cartas de amor são ridículas'. Por que Fernando Pessoa eternizou essa frase? Porque através dela ele captou um aspecto essencial da relação amorosa humana, que sempre excede os limites da civilização. Para os outros, e muitas vezes para as próprias pessoas, o relacionamento de um casal aparece como algo ridículo."

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O ridículo aqui, ele ressalva, não é aplicado no sentido de que é bobagem, mas sim estranho ou incompreensível. "Amantes falam coisas no momento do orgasmo que não repetem nem entre si na hora do jantar", continua ele. "Isso mostra que a relação afetiva sempre guarda um quê de ridículo ou de incivilizado. Mas vamos lembrar também como Pessoa termina o poema: 'Ridículos são aqueles que nunca escreveram uma carta de amor.' Ou seja, cada um de nós tem que suportar o seu ridículo. Não estou querendo ridicularizar o amor: estou elevando o amor acima da civilização." 

iGay: Não foi o casal que decidiu abrir a história para ninguém. Foi um jornalista inescrupuloso que publicou uma foto de Claudio beijando o seu jovem amante, Leonardo. Assim a história ficou pública.

Jorge Forbes: Por muito tempo, sempre se respeitou a conversa de alcova. Até a geração dos atuais pais, abrir uma gaveta de alguém era uma imoralidade, uma obscenidade, era impensável que o homem abrisse a bolsa de uma mulher. Isso é muito diferente do mundo de hoje, em que há uma bisbilhotagem generalizada. A cena que você me relata me lembra Lacan, que disse: "Além da cena não existe uma verdade, existe o obsceno." A novela faz muito mais uma crítica ao tudo querer saber de hoje em dia do que supostamente às preferências sexuais de pais ou de mães.

Os pais devem responder o seguinte aos filhos: 'Quando vocês tiverem suas mulheres, seus companheiros, vocês resolvam o que fazer.' O filho vai querer uma justificativa, mas o pai não tem que dar satisfação. O filho tem de saber que não faz parte do casal.

iGay: O filho deles ficou furioso de saber que os pais viviam essa situação, que ele classificou como 'nojenta'. Que o casamento deles era uma farsa.

Jorge Forbes: Vocês são meus pais e têm que ficar no local dos pais e não de amantes, certo? Só que os pais devem responder o seguinte aos seus filhos: 'Quando vocês tiverem suas mulheres, seus companheiros, vocês resolvam o que fazer.' O filho vai querer uma justificativa do pai, mas o pai não tem que dar satisfação. E o filho tem que saber que ele não faz parte do casal.

iGay: O senhor acha que o filho pode cobrar dos pais clareza com relação a tudo o que acontecia no casamento?

Jorge Forbes: Atingir a esfera da intimidade de um casal supostamente fazendo com que tudo seja transparente é um mito, de que eu devo ter acesso pleno à verdade. O acesso que acabo tendo não é à verdade, mas à obscenidade. Não acho que o caminho do mundo seja mais verdade, o mundo pós-moderno não é um mundo de verdade, é um mundo de certezas. Certezas são verdades que se testemunham. A pessoa não consegue ser verdadeira nem com ela mesma. Quem a gente ama não cabe em nenhuma verdade.

iGay: Então como o pai deve fazer para restabelecer a relação com o filho agora?

Jorge Forbes: A resposta a isso é: 'Não se explique, não se justifique.' Mais que nunca, o recado de (Benjamin) Disraeli, primeiro ministro da rainha Vitoria, se aplica. Não deve haver nenhuma expectativa de compreensão. Ninguém entende o ridículo do outro, todos somos ridículos.

iGay: Não vale nenhuma explicação?

Jorge Forbes: A loucura de informação que a gente tem hoje em dia evidenciou mais do que nunca que não nos encaixamos em nenhuma explicação, portanto a verdade sempre nos escapa. A ideia de que o ser humano seja codificável, o eterno sonho para acabar com as nossas dúvidas, vai continuar sendo um sonho. Continuamos frente às mesmas indagações do homem pré-histórico: quem eu sou, o que eu quero, quem eu amo.


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