Mau Couti, autor do blog "Papai Gay", começou em 2006 com post em que relata como foi abrir sua sexualidade para o filho de 8 anos. Hoje morando nos EUA, onde foi se refugiar da violência contra gays no Brasil, comenta a novela "Império"

Mau Couti decidiu se mudar para os Estados Unidos depois de passar por duas situações ameaçadoras no Rio de Janeiro, em plena Farme de Amoedo, endereço conhecido como a rua gay do Rio.

A experiência dele teria feito a fama do endereço mudar para "a rua onde os gays são perseguidos no Rio". Por uma coincidência infeliz, foi ali mesmo, no coração de Ipanema, que Mau passou por dois sustos. "Um deles foi com meu primeiro namorado, 10 anos atrás, o outro há pouco tempo, com o atual. Nas duas vezes tivemos que correr para não ser linchados por grupos intolerantes. Fiquei com medo", diz ele.

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"Na primeira vez eu estava usando uma camisa do Flamengo e ouvi: 'Na minha época viado não usava isso'. Eu parei e confrontei, e logo vi que ele não era homem suficiente para sair na mão comigo sozinho. Só que apareceram mais seis, ele quebrou uma garrafa e veio para cima junto com os comparsas. Tive que fugir com meu namorado deixando pra trás meu cachorro, que andava sem coleira", lembra Mau. O cachorro foi resgatado mais tarde, quando ele voltou à rua com um policial e encontrou o animal assustado em uma padaria da região. "A segunda cena aconteceu há dois anos, no carnaval. Estava discutindo com meu namorado e escutei: 'Viado tem que apanhar.' Dessa vez não deu nem pra enfrentar, eram uns 10. Saímos correndo debaixo de uma chuva de pedras portuguesas voando em cima da gente."

Eu tenho certeza que saber a verdade fez de meu filho um homem heterosexual totalmente bem resolvido e respeitoso das diferenças

Mau se mudou para Utah, um estado conservador americano, que abriga grande população de mormons. Se sente mais seguro lá. "Eles não são como os evangélicos, não ficam na TV pregando o ódio. Têm lá a fé deles, mas não se metem com a minha falta de religião." A mudança foi definida quando seu filho Bryan, 23, recebeu uma oferta de emprego lá. Ele é americano, nasceu quando Mau era casado com a mãe dele e os dois estudavam juntos na universidade de San Diego, na Califórnia. "Moramos em Park City, uma estação de esqui linda."

Ter um pai gay dá ibope

Bryan é o filho para quem Mau contou que era gay quando o menino tinha 8 anos . Ele acha que fez certo, que isso os aproximou e fez de Bryan um cara tolerante. "Eu tenho certeza que fez dele um homem heterosexual totalmente bem resolvido e respeitoso das diferenças", diz Mau. "Fora isso, essa história dá muito ibope positivo pra ele entre as meninas. Ter um pai gay pega muito bem. Eu ia às vezes a um lugar que ele frequentava com os amigos do Rio e me sentia até um popstar. Todos queriam me conhecer. Muito fofa a juventude de hoje. Pelo menos foi assim com os amigos dele. Não sei se tem a ver com a Zona Sul (do Rio) ou se é geral, mas comigo foi assim."

Mau está há 7 anos com um brasileiro que ainda não se mudou para os Estados Unidos, mas eles planejam fazer tudo como manda o figurino: casamento, papel passado, green card, a que ele tem direito por ser pai de um americano. "Vai ser um estouro. Vou caprichar", disse ele, que já deixou o iGay contar  tudo sobre o casamento, mesmo eu tendo adiantado para ele o que vai acontecer num próximo capítulo da novela "Império" que ele está acompanhando à distância e ainda não tinha visto. (Desculpa estragar a surpresa, Mau!)

Acredito em arrancar pra fora do armário pessoas que prejudicam os gays de alguma forma. Mas alguém que só está cuidando da sua vida pode ficar no armário a vida toda que não muda em nada a nossa vida. Né?

Aqui vai o conselho de Mau para Claudio Bolgari lidar com a reação agressiva do filho à descoberta da sexualidade do pai. "A mulher dele aceita perfeitamente e sabe muito bem onde se meteu. Na verdade sempre soube. Ele nunca a enganou. Partindo desse princípio, acho que ele não errou em não ter contado nada para ninguém antes. Foi uma escolha entre adultos. Não vejo necessidade dele se retratar ou se explicar para o filho, muito menos dar satisfação. A vida sexual do casal só diz respeito ao casal. Ele não vai pra cama com o filho e sim com a mulher dele, que está bem a par da situação", diz ele. "Nunca pensei que defenderia alguém ficar no armário, mas não acho que é o caso de as pessoas se meterem na sexualidade do personagem. Eu acredito em arrancar pra fora do armário pessoas que prejudicam os gays de alguma forma. Mas alguém que só está cuidando da sua vida pode ficar no armário a vida toda que não muda em nada a nossa vida. Né?"

Reprodução
"Papai é gay": post relata como foi contar para seu filho, então com 8 anos, que é gay

Baseado em sua própria história, Mau sugere que os pais gays contem a verdade a seus filhos quando ainda forem crianças, já que "na adolescência o preconceito pode já ter corroído a pureza necessária para um filho entender isso de um pai". Quanto ao caso Claudio Bolgari, não dá mais tempo de fazer nada. "Deixar a poeira baixar, dar tempo pro filho digerir isso tudo, esperar. Mas sem se justificar tanto. O filho não é mais criança, gente!"


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