Da TV para a vida: especialistas dizem que casamento de Claudio e Beatriz não é coisa de novela e que o maior conflito de Claudio é não se entender com sua própria sexualidade

E a novela "Império" está pegando fogo. Téo Pereira ( Paulo Betti ) cumpriu seu vaticínio e publicou em seu blog uma foto de Claudio Bolgari ( José Mayer ) beijando Leonardo ( Klebber Toledo ). Diante de prova inconteste como esta, Enrico ( Joaquim Lopes ) confronta o pai, querendo uma resposta simples, sim ou não, à pergunta: "É verdade?". Acontece que a resposta não é tão simples quanto parece. Quais serão as cenas dos próximos capítulos?

O psicólogo e psicoterapeuta Klecius Borges, especialista em terapia homoafetiva, conversou com o iGay . "Diante da situação criada na novela, o pai só tinha uma coisa a dizer ao filho: 'Sim'", declara. "Ele foi exposto, tem que contar a verdade. A família vai ter de lidar com uma nova realidade."

A realidade da novela é bem complexa, já que Claudio é casado há muitos anos com Beatriz ( Suzy Rêgo ). Tem a cumplicidade da mulher, mas para os filhos sua vida dupla permanecia até agora um segredo. Com uma única foto, o blogueiro deflagrou a situação para a família, os dois filhos e o resto do mundo ao redor de Claudio Bolgari.

Maya Foigel, psicanalista e especialista em sexualidade do Hospital das Clínicas, faz uma observação. "O primeiro desafio dele é com ele mesmo, já que Claudio não quer assumir nem para ele mesmo. Esse é o grande conflito: não conseguir assumir uma preferência sexual dele, uma orientação dele, não sei se a única, mas uma delas. Ele não consegue aceitar ou explicar sua sexualidade nem para ele mesmo." 

Só existe farsa quando se engana os outros. E quem é que está sendo enganado aqui? A relação afetiva entre eu e a sua mãe só diz respeito a nós mesmos. Quem é que pode dizer que está errado? (Claudio Bolgari)

O primeiro grande desafio está lançado: Claudio tem de vencer sua própria rejeição. Em seguida enfrentar a fúria do filho, que vem dando indícios de homofobia a novela inteira e agora teve a reação mais agressiva possível diante da revelação. "Você é uma coisa que eu detesto. Não me chama de filho", gritou Enrico, ao ouvir do pai e da mãe que eles dois viviam essa situação de comum acordo. "Você está louca! Como é que você se sentiu ao ver o seu marido aos beijos com outros homem?", se indigna Enrico. "Eu sempre soube!", grita a mãe. "Eu sempre soube que seu pai tinha outras necessidades e preferências que não passavam por mim." "Isso é nojento", reaje Enrico. "O que vocês viveram até hoje não é nada, é uma farsa." "Onde é que está a farsa aqui?", briga o pai. "Só existe farsa quando se engana os outros. E quem é que está sendo enganado aqui? A relação afetiva entre eu e a sua mãe só diz respeito a nós mesmos. Quem é que pode dizer que está errado?"  

As situações expostas na novela não são atípicas hoje, são perfeitamente possíveis. As pessoas têm o direito de escolher como ficam casadas. Os outros vão julgar, claro, mas é uma escolha (Maya Foigel)

"As situações expostas na novela não são atípicas hoje, são perfeitamente possíveis. As pessoas têm o direito de escolher como ficam casadas. Os outros vão julgar, claro, mas é uma escolha", diz Maya, que percebe que a relação de Claudio, Beatriz e Leonardo evoluiu praticamente para um triângulo amoroso.

"Desde o começo da novela o autor quis deixar claro o quanto Beatriz estava de acordo com tudo. Nesses últimos tempos, ela tentou resolver até o problema amoroso do marido com o amante. É quase um triângulo mesmo." E mais: na visão de Maya, a mulher é mais tolerante com a sexualidade do marido do que ele mesmo. "Ela consegue compreender formas dele que nem ele mesmo compreende." E quanto ao filho? "O filho é um adulto que vai ter de enfrentar essa situação."

Klecius acredita que, com o tempo e muita conversa, talvez Enrico chegue a aceitar a bissexualidade do pai. A questão complica com a anuência da mãe, já que o filho pode se sentir enganado e traído pelos dois. "Não tem um aparelhinho para medir o que vai provocar o sentimento de traição, mas a vida dupla do pai ser sustentada pela mãe certamente vai confundir o filho", diz Klecius. 

O casal tem o direito de não compartilhar esse acordo, já que ele interessa diretamente aos dois e a mais ninguém. Mas não tem um único jeito de lidar com isso, e qualquer decisão tomada tem consequências com as quais você tem de lidar" (Klecius Borges)

O terapeuta considera que manter segredos não é bom para nenhuma família, porque causam tensão. Mas aqui, no caso específico de Claudio e Beatriz, do casal em que o marido está envolvido em uma relação homossexual aceita pela mulher, eles não teriam obrigação moral de contar nada para o filho, pois não afeta a vida dele. "Falando de maneira muito hipotética, o casal tem o direito de não compartilhar esse acordo, já que ele interessa diretamente aos dois e a mais ninguém." Mas, de novo, todas essas questões são muito pessoais. "Não tem um jeito único de lidar com isso, e qualquer decisão que você toma na sua vida tem consequências com as quais você vai lidar."

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SUZY RÊGO: "Conheço casais felizes que se relacionam com outras pessoas"

Klecius acredita que o conflito criado na novela vai gerar muitas discussões interessantes, já que há ao menos quatro lados envolvidos: o pai, a mãe, os filhos e a sociedade. Por que o pai não contou antes? Como a mulher fica com ele, já que ele é gay? Por que o filho, criado num ambiente em que o pai é bissexual e a mãe uma mulher liberada, tem uma homofobia tão furiosa? Por que a filha conseguiu superar tão rápido o escândalo provocado pela divulgação da foto do pai com o amante? E que tipo de preconceito eles vão sofrer como família?

Klecius explica que, caso a decisão do casal tivesse sido repartir a história com os filhos, o melhor seria ter contado o quanto antes, e a partir daí conversar muito. "Na vida real é muito complicado, mas o melhor é que a informação seja dada para os filhos o quanto antes. Tem que explicar que há diferentes formas de amor, que o papai ama a mamãe e também tem desejo por um homem. Uma criança criada em um ambiente com outra visão da homoafetividade cresce para entender melhor vários tipos de situação. Quanto mais tarde o filho souber é mais complexo, pois ele estará mais contaminado por uma visão preconceituosa da sociedade", diz Klecius. "É um processo difícil, mas na minha história do consultório os finais são mais felizes do que não."

Seria interessante que Claudio encarasse suas escolhas e seus desejos sem que eles desencadeassem tanta aflição. Esse é um grande conflito para muitas pessoas por aí." (Maya)

Para Maya, um final feliz seria Claudio poder viver o prazer dele sem tanta angústia, alimentar os desejos dele pelo Leonardo sem tantos conflitos. "Seria interessante que ele encarasse suas escolhas e seus desejos sem que eles desencadeassem tanta aflição." Mas ela também está de olho em "Império": "Esse é um grande conflito para muitas pessoas por aí, acho extremamente importante as novelas contribuirem para enriquecer o debate sobre orientação sexual a partir desse caso."





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