Ele se sentia envergonhado pelo fato de que a garota lidava melhor com sua sexualidade do que ele, que tentou até se casar e ter filhos para esconder que era gay

A vida de Bonnie Kaye daria um livro - e deu vários . Assim como acontece na família Bolgari de "Império", a americana se casou com um homem que tem desejo por outros homens. Porém, diferente da novela, ela não tinha ideia da sexualidade do merido quando se casou. Ele se revelou gay mais tarde, quando ela era mãe de um bebê e estava grávida de outro. Ao se separar dele, teve de reconstruir a vida e entender que os fatos nem sempre são o que parecem ser - e mesmo o que nós suportaríamos que fossem.

Bonnie Kaye, consultora de casais
Reprodução
Bonnie Kaye, consultora de casais

O casamento desfeito não foi a maior dificuldade de Bonnie. Pouco antes de completar 19 anos, sua filha Jennifer foi internada em uma clínica de reabilitação para tratar um vício em heroína. Essa foi a primeira de uma dúzia de internações por que passaria até morrer, aos 22 anos.

No entanto, também foi nesse período difícil que Bonnie começou a estreitar sua relação com a filha. “Durante esta primeira temporada eu soube que Jennifer era lésbica. Ela não revelou esta informação para mim, fiquei sabendo por alguns de seus amigos quando ela fugiu da clínica com outra jovem em seu segundo mês lá”, conta.

Eu era muito enfática em dizer que os gays não tinham escolha sobre homossexualidade, eles nasceram assim. Sempre fui capaz de separar minha raiva em relação à irresponsabilidade do meu ex-marido da homossexualidade

Jennifer não contou que era lésbica para sua mãe por medo de machucá-la, mesmo sendo ensinada desde criança a ser tolerante e compreensiva com a homossexualidade, e ainda mais tendo um pai gay. “Eu era muito enfática em dizer que os gays não tinham escolha sobre homossexualidade, eles nasceram assim. Sempre fui capaz de separar minha raiva em relação à irresponsabilidade do meu ex-marido da homossexualidade”, diz.

Jennifer Kaye aos 17 anos. A garota se assumiu lésbica aos 19 anos, depois de ser descoberta pela mãe
Arquivo pessoal
Jennifer Kaye aos 17 anos. A garota se assumiu lésbica aos 19 anos, depois de ser descoberta pela mãe

Para Bonnie, o único problema da filha era ser viciada em drogas. Muitas pessoas, inclusive, chegavam a perguntar se a homossexualidade era o motivo de Jennifer se drogar, mas, segundo ela, esta não era a razão. A garota tinha até uma tatuagem com a palavra “orgulho” no seu braço, com todas as cores do arco-íris, e chegou a lutar ativamente pelos direitos gays e desfilou na Parada Gay da Filadélfia.

O pai gay não aceitou a filha lésbica

A maior surpresa quando Jennifer saiu do armário veio justamente de quem menos deveria se esperar. O pai da garota ficou horrorizado com a revelação da filha. “Ele ficou tão irritado que até eu fiquei chocada. Ele começou a gritar: ‘Como ela pôde fazer isso?’. Ele tinha certeza de que eram as drogas que estavam tornando ela gay ‘temporariamente’”, conta.

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Ele ficou tão irritado que até eu fiquei chocada. Ele começou a gritar: ‘Como ela pôde fazer isso?’. Ele tinha certeza de que eram as drogas que a estavam tornando gay ‘temporariamente'

Ao longo dos anos, ele criou inúmeras teorias sobre a homossexualidade de Jennifer e até tentou convencê-la de que era apenas uma "fase passageira" que mudaria se ela superasse o vício. A realidade é que ele estava envergonhado pelo fato de que a garota lidava melhor com sua sexualidade do que ele, que tentou até se casar e ter filhos para esconder que era gay.

A loucura e homofobia do pai eram tão grandes que ele chegou a acreditar que era a aparência da menina que fazia com que ela achasse que só teria chance de se relacionar com lésbicas em vez de homens heteros.

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“Acredito que ele temia que as pessoas pudessem questionar sua sexualidade escondida se soubessem que ela era gay. Ele fez questão de me dizer em várias ocasiões: ‘Não tente me culpar. Não tem nada a ver comigo. Afinal de contas, eu não nasci gay’”, comenta Bonnie.

Jennifer Kaye aos 6 anos de idade. O pai, que é gay, não gostou nada de saber que a filha era lésbica
Arquivo pessoal
Jennifer Kaye aos 6 anos de idade. O pai, que é gay, não gostou nada de saber que a filha era lésbica

Luta contra as drogas

Mesmo com todo o apoio da mãe, Jennifer não se livrou do vício em heroína. Em seu programa de reabilitação, a garota se envolveu com uma de suas colegas, Raina, e engataram um namoro de 11 meses. Nesse meio tempo, as duas tiveram uma recaída. Ela desenvolveu hepatite, asma crônica e uma obstrução intestinal. Jennifer morreu no dia 14 de abril de 2002

Apesar do luto e da dor de perder uma filha de forma tão trágica, Bonnie se conforta em saber que, pelo menos nos últimos três anos de sua vida, Jennifer foi quem ela realmente era, sem nunca ter sua sexualidade reprimida pela mãe.

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Jennifer e Bonnie Kaye
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Jennifer e Bonnie Kaye

“Eu nunca a fiz esconder sua tatuagem ou dei qualquer indicação de que eu a amava menos ou de forma diferente por ela ser lésbica. Abracei suas amigas e nunca a fiz se sentir como se eu a julgasse, porque eu nunca julguei. Eu estava orgulhosa de que minha filha se sentiu confortável com quem ela era, pelo menos sexualmente”, avalia.

Amem seus filhos pelo que eles são. Por ter sido capaz de aceitar a homossexualidade de Jennifer, eu tenho memórias maravilhosas para me confortar"

Recado da Bonnie para as leitoras

“Para todas as mães que estão lendo isso, por favor, amem seus filhos e não deixem a sexualidade ser um problema. A vida é tão preciosa e frágil. Ame seus filhos pelo que eles são. Por ter sido capaz de aceitar a homossexualidade de Jennifer, eu tenho memórias maravilhosas para me confortar a ao longo dos anos, embora eu já não a tenha comigo. E eu sempre me sinto orgulhosa de que eu era o tipo de mãe que Jennifer tinha orgulho de ter”, conclui.

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