A investigação conduzida pelo delegado de Inhumas (GO) foi a mais rápida do oeste. Também, eu mesma teria descoberto tudo: o assassino deixou cair seu documento no local do crime

A ação da polícia de Inhumas, região metropolitana de Goiânia, foi impecável: quando o caso do assassinato de João Antônio Donati , 18 anos, começou a ganhar vulto internacional, tudo foi esclarecido em tempo recorde. E olha só: não era nada do que todo mundo estava pensando.

O crime não foi homofóbico, foi passional. O autor, um trabalhador rural de 20 anos da região, confessou tudo e disse que os dois fizeram sexo antes de se desentenderem e ele matar João, mais por nervoso do que por intenção. Na confissão, o assassino fez várias afirmações que abrandam a sua pena: não foi crime de ódio, não foi premeditado, não foi intencional.

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A solução tão rápida do caso, e o fato de que não era nada daquilo que os 'militantes gays' tiveram pressa em divulgar, esvaziou os protestos marcados pelo Brasil para o fim de semana. Em São Paulo, de 10 mil confirmados, apareceram 500.

A mãe de João Antônio, Maria Divina Barbosa:
Reprodução
A mãe de João Antônio, Maria Divina Barbosa: "Eu quero justiça e que ninguém esqueça"

Em Inhumas, durante o protesto na Praça Belarmino Essado, a mãe do rapaz morto, Maria Divina Barbosa, fez um apelo: "Eu quero justiça e que ninguém esqueça o que aconteceu." Puxa, Maria Divina, entendemos a dor de uma mãe nesse momento, mas veja: crimes passionais acontecem todo dia, nas melhores famílias. O do seu filho será apenas mais um.

João foi encontrado morto por asfixia em um terreno baldio com a boca cheia de papéis de picolé e sacolas plásticas. Vítima e assassino tiveram relações sexuais, se desentenderam, partiram para a briga e um matou o outro. Poderia ter sido o contrário. E foi sem ódio algum que o criminoso encheu a boca do João Antônio de papéis e sacolas plásticas. Depois da confissão do autor do crime, o delegado responsável pela investigação, Humberto Teófilo, descartou que ele tenha agido motivado por homofobia. Afinal, o criminoso não é homossexual, mas às vezes tem relações com homens.

Se o crime fosse homofóbico, ainda que a homofobia não tenha sido criminalizada, poderiam ser alegados motivo torpe e incapacidade de defesa da vítima, o que aumentaria a pena do assassino. Mas, se foi crime passional, o criminoso agiu motivado por forte emoção, talvez por chantagem (já que ele não é homossexual), todas considerações que podem atenuar a pena, já que a vítima teria certa responsabilidade por sua morte, o que tende a diminuir a responsabilidade do assassino. 

Para a presidente da Comissão de Direito Homoafetivo da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Goiás (OAB-GO), Cynthia Barcellos, a conclusão da avaliação do caso não é bem essa. Que o crime teve sinais de crueldade que poderiam caracterizá-lo como homofobia. Além disso, segundo disse Cynthia, "os amigos disseram que acreditam pouco que ele tenha saído para manter relação sexual com esse rapaz [suspeito]. Todos acreditam que (o crime) tenha sido de cunho homofóbico”, afirmou a advogada.

E tudo volta para o mesmo ponto de sempre: a urgência da criminalização da homofobia, e a necessidade de uma legislação específica para crimes homofóbicos. “A falta de uma lei permite a descaracterização do crime", afirmou.

Será que o crime passional que levou João Antônio vai entrar para a mesma lista de acontecimentos a que pertence o suicídio de Kaique Augusto ?

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