Ele ainda não sabia que era gay, ou ao menos não tinha certeza. Seu irmão mais velho, sim. A relação se quebrou lá atrás e nunca mais voltou ao normal. E eles dormem no mesmo quarto

Meu irmão sabia que eu era gay antes mesmo de eu entender o que era isso
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Meu irmão sabia que eu era gay antes mesmo de eu entender o que era isso

Quando entro no nosso quarto, ele está lá. Não trocamos olhares, não falamos boa noite e nem dividimos os problemas e alegrias do dia. Esse é o único momento em que ficamos no mesmo cômodo da casa e é sempre constrangedor. Durante o fim de semana, se estou na sala, ele passa reto. Se ele está na cozinha, espero ele terminar para fazer meu prato. É como se um fosse o elefante branco do outro: fingimos que não existimos e ignoramos qualquer movimento. Por dentro, os dois estão a ponto de explodir e dizer tudo o que pensam sobre o outro.

É como se um fosse o elefante branco do outro: fingimos que não existimos e ignoramos qualquer movimento. Por dentro, os dois estão a ponto de explodir." (Murilo Aguiar)

Eu me declarei homossexual em 2006, aos 18 anos, mas lembro de cortar relações com meu irmão já em 2001. Até os meus 6 ou 7 anos, éramos bem próximos e brincávamos juntos, como a maioria dos irmãos. Com o passar do tempo, porém, a relação foi esfriando e ele começou a ficar agressivo. Eu não entendia o motivo de tantas brigas e xingamentos, mas hoje vejo que ele, mais velho, já enxergava em mim coisas que não tolerava. Os trejeitos, a sensibilidade ou até o gosto por moda e outras coisas 'de menina'. Ou seja, ele já desconfiava: eu ia crescer e virar um ‘veadinho’, como ele gostava de me atacar.

O fato de eu ser gay nunca foi um problema para mim, para os meus pais ou minha irmã mais nova. Para meu irmão, porém, deve ter sido completamente diferente. Ele, machista, vendo o próprio irmão assumir que é gay? Apesar das ameaças, xingamentos e de ouvir ele dizer, quando soube que fui agredido no ano passado, que ‘quem quer ser diferente tem o que merece. Como vai querer ser respeitado se não se dá o respeito?’, eu nunca me choquei. As atitudes dele condizem com o discurso de intolerância e conservadorismo pregado por grande parte da população.

Sem conhecer outras pessoas na mesma situação que a minha para escrever essa matéria, pedi ajuda nas redes sociais para encontrar outros homossexuais que também têm histórias para contar sobre irmãos homofóbicos. Foi assim que eu vi que a discriminação dentro da própria família pode resultar em rompimentos definitivos, como no caso de Juliana Luvizaro , de 34 anos.

Juliana Luvizaro (dir.) junto com sua mulher, Cristiana Serra
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Juliana Luvizaro (dir.) junto com sua mulher, Cristiana Serra

Crescendo em uma família extremamente machista, ela sempre ouviu piadas de sua mãe e de seu irmão sobre a possibilidade de ser lésbica. “Aos 28 anos conheci minha mulher e saí de casa para morar com ela. Ela tinha então 35 anos. No fim de semana em que saí de casa, reuni a família toda e disse que, pra quem não tinha certeza, eu era mesmo gay e ia morar com uma mulher”, conta. “Levei cinco peças de roupa e o decreto de que jamais poderia voltar. Minha mãe desfez meu quarto e doou minhas coisas, como se eu tivesse morrido.”

Levei cinco peças de roupa e o decreto de que jamais poderia voltar. Minha mãe desfez meu quarto e doou minhas coisas, como se eu tivesse morrido." (Juliana Luvizaro)

Para ela, o fato de ser sempre excluída de tudo referente à sua família é uma imposição do irmão mais velho, que sempre foi o homem da casa. “Há 3 meses nasceu o filho dele e eu nem sequer fui avisada. É como se eu não existisse mais. Ele é uma pessoa tão profundamente homofóbica e machista que, nas raras ocasiões em que nos encontramos, arranjou uma maneira de ir embora e sempre ignorou minha mulher”, observa.

Sem o apoio de sua família, Juliana se considera uma sobrevivente. “Sobrevivi ao machismo nojento que foi agravado pelo fato de eu não ter reproduzido o padrão de me casar e ser uma dona de casa. Sobrevivi à homofobia do meu irmão, que fez com que todas as mulheres de casa me esquecessem. Hoje, vivo minha família de verdade: minha mulher, Cristiana Serra , psicóloga, 40 anos - e eu. E somos uma família normal que se ama”, conclui.

Finais felizes

Diferente do que aconteceu com Juliana, o caso de Justo Favaretto Neto , de 53 anos, mostra que a reconciliação é possível e que você pode até descobrir um grande apoio naquele que se mostrou homofóbico no início.

Justo Favaretto Neto, de 53 anos
Arquivo pessoal
Justo Favaretto Neto, de 53 anos

Justo nunca comentou sobre sua sexualidade com a família até 2008, quando ganhou um processo contra um sujeito que o havia chamado de veado. Esta foi a primeira decisão judicial em que a multa foi aplicada contra o homofóbico, a partir da lei paulista 10948/01, relativa à prática de discriminação em razão da orientação sexual. A ação ganhou os noticiários e, assim, todos ficaram sabendo que ele era homossexual.

Sua mãe e seus irmãos aceitaram a situação e não mudaram de nenhuma maneira o tratamento com ele, com exceção de um, que deixou de falar com ele por um tempo. “Fiquei muito entristecido, porque este irmão era justamente o que se declarava mais comprometido com o amor ao próximo. Eu tinha certeza de que seria justamente com ele que eu mais poderia contar, porém foi ele que me virou as costas em um momento delicado da minha vida.”

Este irmão era justamente o que se declarava mais comprometido com o amor ao próximo. Eu tinha certeza de que seria justamente com ele que eu mais poderia contar." (Justo Favaretto)

Passado esse período, partiu do próprio irmão a iniciativa de tentarem se reconciliar e se entender. “Ele voltou atrás, se reaproximou, falamos sobre o ocorrido e, desde então, passou a ser o maior defensor da minha causa - a luta contra a homofobia”, diz Justo.

Respeito ao próximo

De acordo com a psicoterapeuta Silvana Rangel , que faz o acompanhamento de um caso semelhante, a terapia pode ser uma saída para a reconciliação entre os irmãos. Para ela, o primeiro passo é fazer a pessoa com atitudes homofóbicas entender que ela deve respeito ao próximo, independente de ser da família ou não.

Por trás dessa atitude tem muita coisa. Medo de virar alvo de piadas, medo do desrespeito, medo do que as outras pessoas vão falar." (Silvana Rangel, terapeuta)

Depois disso, é preciso criar a consciência de que o gay tem o direito de fazer o que ele quiser com a vida dele, e tentar entender quais são os verdadeiros motivos que fazem a pessoa ser homofóbica. “Por trás de tanta ignorância tem muita coisa. É o medo de virar alvo de piadas, é o medo do desrespeito, é o medo do que as outras pessoas vão falar”, avalia.

Mas como levar o seu irmão para a terapia se vocês não se falam? Silvana dá a dica: peça para outro parente conversar com ele e indicar, sem dizer que o problema é a homofobia dele, mas sim para tentar melhorar o ambiente familiar. “Normalmente, quem é homofóbico não assume abertamente que é. Mas, quando a gente aborda no sentido de conflito familiar, a situação muda”, comenta.

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