Para homossexuais ouvidos pelo iGay, não há maldade extra nos comentários dos gays com relação aos dos heteros, mas revela desunião entre a comunidade LGBT

Téo Pereira (Paulo Betti) em
Reprodução
Téo Pereira (Paulo Betti) em "Império"

Com o sucesso do blogueiro gay Téo Pereira ( Paulo Betti ) da novela "Império", um estereótipo antigo volta à tona: o da "bicha fofoqueira". Não é de hoje que algumas pessoas falam que não se pode confiar segredos a homossexuais, que eles são traíras e que, quando você menos esperar, eles te apunhalam pelas costas. Esses comentários surgem, inclusive, entre os próprios LGBTs, que não percebem a homofobia internalizada contida nesse discurso. Porém, basta acessar o aplicativo 'Secret', usado para compartilhar segredos anonimamente, para ver que existem fofoqueiros tanto entre os gays quanto entre os heteros.

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Para Pedro Henrique Gama , de 26 anos, a fofoca no meio LGBT revela uma desunião que não deveria existir na comunidade. No início do mês de agosto, o produtor de eventos foi vítima de comentários maldosos no aplicativo. Ele chegou a ser citado em quatro postagens que afirmavam que ele era portador do vírus HIV. Para se defender, está movendo um processo contra o Secret por difamação.

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"Acho lamentável [existir fofoca entre os próprios gays], pois já sofrem pressão de todos os lados, já são julgados, apontados e discriminados, então seria prudente ter mais união, não fofocas e difamação, disseminando ainda mais ódio. Os gays são uma 'tribo' muito desunida", afirma. "As pessoas não têm ideia do quanto uma difamação pode acabar com a vida da pessoa, seja moral ou profissionalmente".

Mônica Saldanha:
Arquivo pessoal
Mônica Saldanha: "Falta no movimento LGBT um conceito semelhante à sororidade feminista"

Para a especialista em educação sexual Mônica Saldanha , de 25 anos, não existe diferença entre um homossexual e um heterossexual fazendo uma fofoca, mas concorda que é preciso haver mais união entre a minoria. “A pessoa que foge da heteronormatividade sofre com comentários maldosos a vida toda, então poderia ter um pouco mais de consciência na hora de fazer o mesmo com os outros. Falta no movimento LGBT um conceito semelhante à sororidade feminista, esse compromisso de proteger uns aos outros das agressões”, diz.

Fazer fofoca é uma prática socialmente encarada como feminina e o gay acaba recebendo essa carga de estereótipo normalmente direcionada à mulher." (Monica Saldanha)

De acordo com ela, que é lésbica assumida, a imagem do gay fofoqueiro é herança do machismo. "Fazer fofoca é uma prática socialmente encarada como feminina e, como as pessoas têm muita dificuldade em separar gênero (homem/mulher) de orientação sexual, o gay acaba recebendo essa carga de estereótipo normalmente direcionada à mulher. Prova disso é que se fala em 'bicha fofoqueira', mas dificilmente em 'sapatão fofoqueira'", aponta.


Fofoca nossa de cada dia

Mônica conta que também foi vítima de fofoca, e que a mais pesada foi quando uma amiga contou para sua ex-namorada que ela conversava sobre a vida sexual das duas enquanto ainda namoravam. Depois disso, a ex nunca mais falou com ela.

Ainda assim, ela acredita que fazer fofoca é uma coisa normal em todos os ambientes, por dois motivos: primeiro porque é natural sentir curiosidade sobre a vida alheia e, segundo, porque falta um pouco de empatia para pensar que não gostaríamos que a vida exposta fosse a nossa. “Juntando as duas coisas, está aí todo mundo falando da vida de todo mundo, mas reclamando quando falam da sua”, comenta.

Bruno Gianoto, de 28 anos, também já foi vítima de comentários maldosos
Arquivo pessoal
Bruno Gianoto, de 28 anos, também já foi vítima de comentários maldosos

Para o analista de importação Bruno Gianoto , de 28 anos, que também já sofreu com comentários maldosos feitos sobre ele no meio LGBT, isso nunca vai acabar, mas a melhor saída para lidar com esse tipo de situação é evitar ao máximo falar mal de alguém e não se envolver em difamações.

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Pedro também não acredita no fim da fofoca, mas acha que tudo tem um limite. “É preciso traçar uma linha tênue entre as coisas. A partir do momento que você não gostaria que fizessem aquilo com você, então não faça com o próximo. Na teoria é lindo, mas na prática são outros quinhentos”, conclui.

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