O iGay preparou uma seleção de filmes que abordam romance, solidão, belezas e angústias das mulheres que amam mulheres

Muito antes dos casais de lésbicas baterem ponto nas novelas da Globo, o cinema já era um espaço para retratar o cotidiano, as delícias e as dificuldades da vida dessas mulheres. “Desejo Proibido” (EUA, 2000), por exemplo, mostra três gerações de mulheres lésbicas às voltas com problemas que dão o tom das mudanças sociais. Em 1961, Vanessa Redgrave vive uma mulher que vê a família de sua parceira não reconhecer a relação e tirar-lhe todos os bens após a morte dela. Na década de 70, na esteira do movimento hippie, acompanhamos o envolvimento amoroso entre duas mulheres de hábitos extremamente distintos. Nos anos 2000, na mais fraca das três histórias, um casal de lésbicas tenta ter um filho. Interpretadas por Ellen DeGeneres e Sharon Stone , as duas lésbicas são caricatas e sua busca para concretizar a gravidez de uma delas parece uma perseguição a la "Os Três Patetas".

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A mesma ideia do conflito geracional pauta “As Horas” (EUA, 2002). Na década de 20, a escritora Virginia Woolf sofre de depressão enquanto escreve e descobre sua sexualidade. Nos anos 50, uma mulher ( Julianne Moore ) questiona sua aparente felicidade numa família convencional (ela é casada, mora numa casa bonita, tem um filho) ao se descobrir desejando mulheres. Nos anos 2000, uma lésbica bem resolvida reflete sobre como seria sua vida se tivesse ficado com aquele que julga ser seu grande amor, no caso, um homem.

Em 'Infâmia', Audrey Hepburn e Shirley Maclaine são amigas muito íntimas
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Em 'Infâmia', Audrey Hepburn e Shirley Maclaine são amigas muito íntimas

Ainda nesse hiato geracional, é possível enquadrar “Infâmia” (EUA, 1961), em que uma problemática aluna acusa duas professoras de terem um relacionamento lésbico. A questão levantada pelo filme não é se as professoras têm ou não um romance, mas por que algo dessa natureza desperta consternação tão grande.

“Almas Gêmeas” (EUA, 1994), estreia no cinema do diretor Peter Jackson , também se resolve como uma alegoria desse preconceito exacerbado. O filme traz uma jovensíssima  Kate Winslet , também em sua estreia no cinema, e Melanie Lynskey como duas adolescentes que se aproximam por ter problemas parecidos com seus pais. A afinidade dá vez a uma arrebatadora paixão. Quando o pai de uma delas descobre a homossexualidade da filha, obriga o afastamento e desencadeia reações violentas e imprevisíveis do casal.

Essa força da natureza chamada amor

Se você estava no planeta Terra no último ano, já ouviu falar de “Azul é a cor mais quente” (França, 2013). Taí um filme que nunca mais vai ficar de fora de nenhuma lista de filmes lésbicos. Não viu? Precisa ver para entender o porquê dele ser recorrente no iGay. Nenhum outro filme cumpriu com a mesma competência o propósito de aferir visibilidade ao universo lésbico. Paixão à primeira vista, descoberta da sexualidade, tórridas cenas de sexo e uma bela história de amadurecimento emocional temperam a fita francesa. Ah, sim: e duas atrizes lindas de morrer. Vem também da França o poderoso “Segredos Íntimos” (França/Israel 2007), em que duas mulheres descobrem-se atraídas uma pela outra em meio à machista e ortodoxa cultura judaica.

'Imagine eu e você': a noiva que se apaixona pela florista que faz os arranjos do seu casamento
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'Imagine eu e você': a noiva que se apaixona pela florista que faz os arranjos do seu casamento

Contrastando com os dramas lésbicos e o tom pesado dos filmes comuns às produções deste tema, “Imagine Eu e Você” (Ing/Ale, 2005) é uma comédia romântica lésbica, que brinca com o estranhamento da descoberta da atração por outra mulher quando menos se espera. Às vésperas de se casar, Rachel ( Piper Perabo ) faz amizade com Luce ( Lena Headey ), a florista lésbica que está cuidando dos arranjos do casamento. Aos poucos, Rachel começa a questionar seus sentimentos.

A mesma Piper Perabo, que não é lésbica na vida real, está no mais tenro e complexo “Assunto de Meninas” (EUA, 2001), que também aborda o limite entre experimentação e definição da identidade sexual ao destacar três garotas - as outras são Mischa Barton e Jessica Paré -, que estudam num colégio interno feminino e enfrentam dilemas da descoberta do desejo e do sexo com um misto de hesitação, culpa e entrega.

Voltamos à França com “Lírios d´Água” (2008), que versa sobre três adolescentes que juntas descobrem a sexualidade em paralelo com o forte sentimento de rivalidade que norteia qualquer relação entre garotas com menos de 18 anos. O desejo, em sua faceta mais desestabilizadora, constitui o eixo central de filmes como “Cidade dos Sonhos” (EUA, 2001) e “Ligadas pelo Desejo” (EUA, 1996), em que mulheres que não necessariamente se reconhecem como lésbicas são flagradas fazendo sexo com outras mulheres por força de um magnetismo muito particular.

Perdidas entre dois mundos

Em 'Meninos não Choram', Hilary Swank faz o transexual Brandon Teena, que enfrenta a ignorância de uma cidade no Nebraska
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Em 'Meninos não Choram', Hilary Swank faz o transexual Brandon Teena, que enfrenta a ignorância de uma cidade no Nebraska

Para além da questão de gênero, “Meninos não Choram” (EUA, 1999) conta uma história real, com toda a tristeza, violência e ignorância envolvidas. Nascida Teena Brandon em Lincoln, Nebraska, Brandon Teena (1972-1993) é um garoto transexual que esconde seu segredo por trás da identidade masculina em um ambiente rude e ignóbil. Enquanto Brandon é vítima da violência daqueles que não entendem a sua identidade sexual, o filme “Monster, Desejo Assassino” (EUA, 2003), também baseado em uma história real, conta a história da prostituta lésbica Aileen Wuornos, executada na Flórida em 2002 por praticar crimes em série contra homens. Pelos papeis de Brandon e de Aileen, Hilary Swank , masculinizada pelos cabelos curtíssimos e corpo enrolado em faixas para esconder as curvas, e Charlize Theron , enfeiada até o limite do possível, ganharam o Oscar de melhor atriz.  

Na categoria histórias reais, selecionamos também “Garotas do Rock – The Runaways” (EUA, 2010), que mostra o relacionamento entre as integrantes de uma banda de rock feminino nos Estados Unidos dos anos 70. 

Um cenário menos libertário pauta “Uma Cama para Três” (França, 1994) e “Flores Raras” (Brasil, 2013), que observam a vida dupla que muitas lésbicas impõem para si mesmas. Esta ambiguidade pode ser emocional, como no filme de época estrelado por Gloria Pires - este também baseado em fatos reais, o romance entre a escritora americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares nos anos 50 e 60 no Rio de Janeiro -, ou por infidelidade conjugal, como no caso da produção francesa.

Para terminar, nossa lista inclui também “Páginas de Menina” (Brasil, 2008), “Todas as Cores do Amor” (Irlanda, 2003), o curta “Encontrando Kate" (EUA, 2006) e !Clube de Garotas" (EUA, 1994). A multiplicidade de tons e conflitos expostos nestes filmes indicam que o lesbianismo está sendo tateado pelo cinema com doçura, inquietação e curiosidade. Qualidades que não só dão visibilidade ao universo em questão, como o reveste de propriedade e familiaridade não só para lésbicas.


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