Eles viajam e não voltam: cidades como NY e Londres atraem imigração LGBT por serem abertas à diversidade

Viver em uma sociedade em que ser gay, lésbica, bissexual, transexual, travesti ou qualquer outra minoria é tão aceito como ser heterossexual. Esse é o sonho que muitos brasileiros buscam quando vão morar no exterior, em cidades como Londres, Nova York, São Francisco ou Barcelona. Deixam os amigos e famílias para trás e começam uma vida do zero, com a confiança de que lá eles alcançarão a igualdade que tanto desejam. A realidade, é claro, não é um paraíso, mas muitos que foram nem pensam em voltar.

Anderson Vieira em Nova York: assumido desde os 16 anos, o brasileiro foi passar férias nos EUA e não voltou mais
Arquivo Pessoal/ Facebook
Anderson Vieira em Nova York: assumido desde os 16 anos, o brasileiro foi passar férias nos EUA e não voltou mais

Quando Anderson Vieira , de 31 anos, viajou para Nova York no início de 2013, sua intenção era apenas passar férias na Big Apple. Não demorou muito, porém, para ele abandonar a ideia de voltar para o Rio de Janeiro e retomar seu emprego de professor. “Quando eu cheguei aqui, reparei que é muito diferente do Brasil. Todo mundo é muito ligado à própria vida, ninguém se importa se eu estou beijando um cara ou não”, conta.

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Se eu não tivesse me casado com certeza voltaria, mas porque sinto saudade dos meus amigos e da minha família, não por nenhum outro motivo

Para ele, o fato de os fundamentos religiosos não estarem tão presentes na cultura nova iorquina é um dos pontos que mais influenciou a sua decisão de se mudar de vez para a cidade. “Esses dias mesmo no trem tinha duas lésbicas se beijando e ninguém estava olhando. Se fosse no Brasil, estaria todo mundo olhando, apontando e tirando foto. Aqui é cada um na sua”, diz ele, que hoje está casado com um americano. “Se eu não tivesse casado com certeza voltaria, mas porque sinto muita saudade dos meus amigos e da minha família, não por nenhum outro motivo.”

Anderson Vieira em frente ao bar
Arquivo Pessoal/ Facebook
Anderson Vieira em frente ao bar "The Stonewall Inn", palco de um dos maiores confrontos entre militantes LGBTs e a polícia nova iorquina no final dos anos 1960

Quem também não se arrepende de ter deixado o País e pretende não voltar é Diego Moraes*, de 32 anos. Em 2006, ele e alguns amigos viajaram para Londres, no Reino Unido, para assistir a um show da Madonna. Logo de primeira, o fotógrafo já sentiu que a cidade transmitia mais segurança para os homossexuais viverem uma vida normal. Gostou tanto do que viu por lá que decidiu voltar, seis meses depois, para estudar inglês durante um ano.

“Na verdade, hoje eu olho para trás e vejo que a minha motivação de voltar não era sinceramente estudar. 50% era mais para eu sentir como era viver em uma sociedade mais aberta, sem ter que passar o tempo inteiro fazendo linha”, comenta ele, que é de Jundiaí, interior de São Paulo.

Assim que chegou, Diego conta que a cidade lhe surpreendeu para melhor. Segundo o paulista, a aceitação da comunidade LGBT pelos londrinos está anos luz à frente da aceitação pelos brasileiros, e que ser homofóbico na terra da Rainha é encarado como um sinônimo de atraso por grande parte da população.

Para o paranaense Brian de Paula , que conheceu o seu marido na capital inglesa, onde mora desde 2011, a despreocupação em fazer gestos simples, como andar de mãos dadas com outro homem na rua, é o que faz da cidade tão especial e o que o motiva a ficar por lá. “Eu nunca poderia andar de mãos dadas com o meu marido no Brasil. Saímos para jantar, para eventos, lugares e não temos que ficar nos preocupando com o que as pessoas que estão em volta vão pensar. No trabalho também, a primeira coisa que eu falo quando perguntam se eu sou casado é: ‘Sim, sou casado e tenho marido’. No Brasil, eu tentaria esconder”, diz.

Eu nunca poderia andar de mãos dadas com meu marido no Brasil. Em Londres saímos para jantar, para eventos, e não temos que nos preocupar com o que as pessoas em volta vão pensar." (Brian de Paula)

Apesar da nítida liberdade para a comunidade LGBT em alguns lugares do mundo, ainda é difícil afirmar que exista um lugar totalmente livre de preconceitos. Mesmo em Londres, Diego diz que há sim homofobia. “Homofobia tem em todo lugar e tem aqui também, mas sinto muito mais de pessoas que percebo que são de outras nacionalidades, não do povo londrino. Quando converso com pessoas do leste europeu ou da África, por exemplo, sei que tenho de filtrar um pouco mais o que eu falo”, aponta.

A comunidade não pode parar de lutar

Julio Moreira, diretor Sócio-Cultural do Grupo Arco-Íris e secretário regional da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
Arquivo Pessoal/ Facebook
Julio Moreira, diretor Sócio-Cultural do Grupo Arco-Íris e secretário regional da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)

Para Julio Moreira , diretor sócio-cultural do Grupo Arco-Íris e secretário regional da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), não se pode dizer que quem vai morar fora do País está fugindo da luta pelos seus direitos. Ele lembra, porém, que cidades como São Francisco e Nova York são palcos constantes da militância LGBT, mesmo que as condições de vida dessa comunidade já sejam melhores que em muitos lugares do mundo.

“Se você pegar a questão de qualidade de vida econômica e de bem estar, até eu preferiria morar lá fora. Mas do ponto de vista de militância, acho que a gente tem avançado bastante aqui. Existe sim um setor reacionário e conservador, mas que é fruto das nossas conquistas. Em qualquer comunidade lá fora há esse antagonismo”, observa. “Nos EUA, por exemplo, você tem setores conservadores e que fazem política contrária à comunidade LGBT, mas ao mesmo tempo você tem um ativismo forte. É importante que a comunidade entenda que ela tem um papel fundamental nessa mudança”, observa.

Júlio aponta também que, mesmo em cidades populares por ser “gay friendly”, como Amsterdã, a homofobia ainda existe, mas de forma diferente que no Brasil, com discriminações inclusive dentro da própria comunidade gay, e lembra que a democracia brasileira ainda é recente. “A gente precisa ter outras reformas no campo político para ter mudanças mais rápidas. O primeiro passo é a educação de uma forma ampla, não só a questão LGBT. Se a gente consegue trabalhar nesse patamar, constrói uma sociedade melhor”, conclui.

*O nome do entrevistado foi alterado para garantir o seu anonimato

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