Aos 16 anos ele escreveu o roteiro de "Eu matei minha mãe", filme com forte tom autobiográfico que o lançou. Saiba mais sobre o prodígio canadense com a cabeça cheia de ideias

Alguns dizem que arte é uma forma de terapia. Para Fernando Pessoa , “A arte é a autoexpressão lutando para ser absoluta”. Leonardo Da Vinci cravou que “Arte diz o indizível; exprime o inexprimível; traduz o intraduzível”. Xavier Dolan , o prodígio canadense que assombra o público a cada nova produção, mostrou o que pensa fazendo filmes, já que desde criança está envolvido com o universo do cinema.

Nascido em março de 1989 em Québec, já em 1994 Dolan estava em um set de filmagens. Atuou na série de TV “Miséricorde de Jean Beuadin”. A precocidade é uma de suas características mais notáveis. Em 2009, lançou no festival internacional de cinema de Cannes seu primeiro filme como diretor, roteirista e protagonista, “Eu Matei minha Mãe”. Sob o impacto desse forte nome, Dolan admitiu que a obra continha muitos elementos autobiográficos e que escreveu o roteiro quando tinha apenas 16 anos.

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Ele faz o adolescente Hubert, que vive às turras com sua mãe. As discussões são incessantes e ele aparenta suportá-la cada vez menos à medida que o tempo passa. A situação piora quando ele conhece a mãe de seu namorado, mulher liberal que leva homens mais jovens para sua casa, não vê problema na homossexualidade do filho e até fuma maconha com ele. 

"Eu Matei minha Mãe" trouxe um novo expoente para o cinema gay. Foi indicado a mais de 30 prêmios e ganhou boa parte deles, inclusive alguns exclusivos para filmes com temática LGBT. Depois de dar indícios da relação com sua mãe no primeiro filme, no segundo Dolan falava dos enlaces entre paixão e amizade. Em “Amores Imaginários” (2010), uma menina e seu melhor amigo gay se apaixonam pelo mesmo rapaz, um tipo enigmático que ora flerta com um ora com outro. A paixão acaba atrapalhando a amizade. Dolan admitiu novamente ter feito concessões à realidade na confecção do roteiro. Nessa altura, Dolan já havia instituído um estilo próprio não só de dramaturgia, mas estético também.

“Minha geração está preparada para isso”

Como os dois primeiros, o terceiro filme do canadense também debutou no prestigiado festival de Cannes, com dose garantida de expectativa nos círculos da cinefilia e da crítica. Não se tratava apenas de um diretor em busca de terapia, mas de um jovem cineasta com formulações muito interessantes a apresentar. “Laurence Anyways” (2012) era a prova definitiva de que Dolan e suas proposições sobre sexualidade e sentimentos mereciam não só crédito como toda atenção.

Em seu aniversário de 30 anos, Laurence revela à namorada que deseja fazer uma cirurgia para se tornar uma mulher, mas que a ama e quer continuar com ela. O filme acompanha os conflitos inerentes à decisão de Laurence e como essa mudança era necessária para que ele se sentisse em harmonia com seu próprio corpo. A trama atravessa dez anos, de 1989, ano do nascimento de Dolan, até 1999.

Em entrevista no festival de Toronto em 2012, Dolan disse que a geração dos personagens não estava preparada para aquela situação. Mas que a geração dele está. “Eu acho que a minha geração está pronta para isso. Uma geração pode estar preparada, mas a sociedade é composta de várias gerações”, observou indicando que a mudança tende a ser gradual. “Eu acho que a minha geração está pronta para parar de falar sobre casamento gay porque é tão óbvio para todos nós que pessoas do mesmo sexo deveriam ser felizes e se casar... Não há questões a serem feitas sobre quais ações deveriam ser tomadas, mas algumas gerações ainda estão fazendo perguntas”.

Não custa lembrar que “Laurence Anyways” saiu de Cannes em 2012 com, entre outros prêmios, com a Palma Queer, entregue ao melhor filme com temática gay do festival.

O quarto filme do cineasta não estreou em Cannes, mas em outro prestigiado festival de cinema europeu. Para Veneza, Dolan levou “Tom na Fazenda” (2013), filme que permanece inédito no Brasil, mas esteve na programação da mostra internacional de cinema de São Paulo no ano passado.

Com ele, Dolan experimenta o gênero do suspense. Ele interpreta Tom, que viaja para a fazenda do ex-namorado para seu funeral. Lá descobre que não só ninguém sabia de sua existência, como ninguém sabia da homossexualidade do morto. No entanto, o irmão de Guillaume, aparentemente um tipo machista, estabelece um jogo doentio com Tom. Aqui Dolan fala primordialmente de homofobia, da mais velada àquela mais nociva de quem tem medo de descobrir-se diferente.

Prolífico, Dolan voltou à Cannes com seu quinto filme. “Mommy”, que ainda não tem data de estreia no Brasil, também caracteriza um retorno ao tema do relacionamento entre mãe e filho. Aqui, no entanto, é a perspectiva da mãe que interessa ao cineasta.

Narcisista Fashionista

Xavier Dolan atualmente não está namorando. Mas está experimentando. Desde que virou referência no cinema cult, nunca protagonizou um filme que não assinasse. Em 2014, vai avançar nesse departamento. Ele é o protagonista de “The Elephant Song”, em que faz um jovem que pode ou não ter matado um colega e desenvolve um jogo mental com seu terapeuta.

Dolan é acusado por fatia da crítica especializada de ser um narcisista fashionista. Já admitiu ser hispter e gostar de sê-lo. Posta freneticamente nas redes sociais e é fã confesso de Lena Dunhan, a criadora da série “Girls”, outra hipster de carteirinha.

Há pouco tempo, indagado pela revista Slant sobre o que o motivou a contar histórias, ele disse que foi o filme “Titanic”. “Assisti 35 vezes”, disse ele. “’Laurence Anyways’ é a minha versão de ‘Titanic’”. Quando se tem “Titanic”, para que terapia, não é mesmo?

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