No projeto "Eu e eu", Tomoko Kikushi fotografou drag queens, explorou o modo de vida delas e como as gerações mais jovens superaram as amarras sexuais do "período negro"

A drag queen chinesa Meimei era determinada: aproveitava cada chance de se apresentar como se estivesse diante da platéia perfeita. Mesmo que no bar de lésbicas duas mulheres estivessem brigando e se ameaçando com garrafas. Ela é personagem do projeto fotográfico "Eu e eu", da japonesa Tomoko Kikuchi , que explora a história de pessoas que confrontam sua sexualidade na China. Mais: pessoas que confrontam a si mesmas. Meimei nasceu com genitália ambígua, mas foi criada como um menino.

"Elas fazem um grande esforço", disse Kikuchi. "Superam seus problemas de família, de amor e de trabalho. Tentam se encontrar e se enfrentar."

O projeto de Kikuchi foca a mudança de atitude em relação à sexualidade na China. Ela tentou ilustrar o movimento a partir do que chama de "período negro" até a liberdade pessoal que vê hoje. Kikuchi se mudou do Japão para Hong Kong em 1997. Viveu lá por dois anos até se mudar para Pequim. Ao longo dos anos percebeu, com alguma surpresa, uma mudança de percepção sobre a sexualidade na China.

Meimei aceitou participar do projeto, mas outras drag queens em seu círculo não se sentiram imediatamente à vontade. Kikuchi teve dificuldade até ganhar a confiança delas, em parte porque é japonesa. Outro obstáculo era sua orientação sexual: Kikuchi é hetero.

Mas aos poucos foi conseguindo adeptas. Muitas das mulheres que fotografou fugiram da China rural para Pequim, buscando uma vida longe do conservadorismo do campo e um lugar onde poderiam ganhar a vida.

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"A consciência mudou completamente", disse ela, sugerindo que os avanços na tecnologia têm desempenhado grande papel. O que antes não podia ser publicado em livros começou a aparecer online - incluindo a própria noção de que existem diferentes maneiras de expressar a sexualidade. As pessoas também começaram a se conectar em plataformas de redes sociais. 

Em 2008 Kikuchi passou uma temporada em Chongqing, cidade no rio Yangtze. "Foi completamente diferente de Pequim", disse Kikuchi. "As drag queens em Chongqing não escondem a sua sexualidade em tudo. Usam roupas de mulher e saem à tarde." Inspirada pela mudança na atmosfera, ela se mudou para lá, "só para ver o que estava acontecendo."

Kikuchi vê uma divisão entre a população mais jovem que ela fotografou em Chongqing e as drags mais velhas de Pequim. Os nascidos após a década de 1980 têm noções mais fluidas da sexualidade. Eles também tendem a ser mais confiantes em expressar sua sexualidade.

"Minha investigação não é realmente sobre as questões de gênero", disse Kikuchi. "É sobre como, enquanto seres humanos, elas tentam encontrar o seu espaço e como vivem."

A sobrevivência parecia muito difícil para a maioria das drag queens em Pequim. O dia começava quando o sol se punha. A concorrência era feroz, por isso era difícil encontrar emprego. Algumas se voltaram para a prostituição. Moravam em apartamentos baratos, muitas vezes dividindo o espaço. Normalmente havia pouca luz no interior e o ar fresco limitado.


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