O assunto é menos complexo do que parece. Quando os gays fazem parte da vida dos casais hetero, as crianças têm um entendimento natural da questão e não é preciso explicar nada

Algumas mães têm tanta tranquilidade para tratar do assunto que os filhos como que herdam essa indistinção entre gays e heteros. "Lá em casa o tema é tão natural que nem falamos disso", diz Alessandra Nálio , mãe de João Luiz , de 2 anos. "A madrinha dele é gay e até o mês passado era casada. Então, pra ele, não exite Anna sem Tati . Quando vê uma, automaticamente pergunta da outra."

Um painel de fotos com a família de Silvia Carone: as filhas Helena, Ana e Laura
Reprodução
Um painel de fotos com a família de Silvia Carone: as filhas Helena, Ana e Laura

É assim também na casa de Silvia Carone , que é mãe de três meninas, de 13, 10 e 5 anos. "Acho que elas encaram homossexualidade como uma coisa da vida como outra qualquer, algo que não faz diferença alguma. Mais ou menos como eu também encaro, mas talvez até com mais naturalidade", diz ela, que acha que as filhas levam vantagem sobre ela na percepção do assunto. "Eu não era assim na idade delas, entre outras coisas porque na minha geração ainda era uma coisa meio velada, mesmo entre gente mais 'moderna' e 'esclarecida'".

Silvia conta que nunca houve aquele momento de "sentar pra conversar" sobre isso com nenhuma delas, simplesmente porque não foi preciso. "Meu melhor amigo e padrinho da Helena (13) é gay, ela sempre viu o Renato junto com o namorado. Um dia, aos 7 anos, ela me disse: 'Mãe, o Re é gay, né?' e eu respondi que sim. Ela perguntou: 'Mas por quê?', eu disse alguma coisa como: 'Ué, ele namora um homem, cada um namora quem quiser' e ela se deu por satisfeita. Com a Ana (10) nunca houve uma conversa." Alguém duvida de que vai ser ainda mais simples quando for a vez da menorzinha, Laura

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Um dia, aos 7 anos, a Helena me perguntou: 'Mãe, o Re é gay, né? Mas por que?'. Eu disse que cada um namora quem quiser e ela se deu por satisfeita." (Silvia)

O ambiente em que as crianças crescem, e como os pais se sentem sobre esse assunto, faz toda a diferença. Para Quezia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, os pais precisam introduzir desde cedo o respeito à diversidade, não apenas no que se refere à homossexualidade, mas também às diferenças de raça, religião, estilo de vida. "Quanto mais cedo se coloca a questão da homossexualidade como realidade do outro, mais fácil será a criança não ter preconceito", diz ela, que reforça que a fala vazia não engana ninguém. "O exemplo que os pais dão é maior do que o discurso. Não adianta pregar que os filhos têm de respeitar a diversidade e quando passa um casal gay ter reação e fazer comentários homofóbicos."


"Meu sobrinho de seis anos perguntou: 'O André vai usar roupa de flor?' Meu irmão respondeu que não, que ele ia ser o mesmo Dé de sempre. E ele disse: 'Então pra mim tá tudo certo'" (Maju Giorgi)

Para Maju Giorgi , colunista do iGay e mãe do fotógrafo André , vencer o preconceito foi uma batalha que começou dentro de casa. "Quando o Dé se assumiu, meu sobrinho tinha uns seis anos. Meu irmão disse para ele que o Dé era um menino que gostava de meninos e não de meninas, e ele perguntou: 'Ele vai usar roupa de flor?' Meu irmão respondeu: 'Não, ele vai continuar o mesmo Dé!' E meu sobrinho disse: 'Então pra mim tá tudo certo'."

Leonardo com os filhos Teodoro e Eduardo
Arquivo pessoal
Leonardo com os filhos Teodoro e Eduardo

O ator e escritor Leonardo Alkmin defende falar sempre o mais abertamente possível com seus filhos Teodoro (12) e Eduardo (11), sem aprofundar detalhes se eles não perguntam. Quando perguntam, ele responde com simplicidade. "Tentar esconder qualquer assunto é burrice, pois as crianças são ligadas em tudo, percebem tudo, principalmente que seus pais mentem."  

Tentar esconder qualquer assunto é burrice. As crianças estão ligadas em tudo, percebem tudo, principalmente que seus pais mentem." (Leonardo Alkmin)

E NO DIA DAS MÃES?

Quando os pais não têm preconceito, os filhos muito provavelmente não terão também. Em outros casos, as mães estão aprendendo ao mesmo tempo que os filhos a dividir espaço com os gays assumidos. "Tenho um menino de 11 anos, Thomaz , e uma menina de 8, Alice , que estudam em colégio de freira", diz Renata Campos . "Quando vêem um casal homossexual, eles não acham estranho. Até chamam minha atenção: 'Olha, mamãe, são gays.'" Mesmo quando um casal gay da novela vira assunto nacional, não é o sobre o relacionamento que as crianças têm dúvidas. "Eles têm algumas questões no que refere aos filhos", lembra Renata. "Na novela ("Em Família") do Félix ( Mateus Solano ), o Nico ( Thiago Fragoso ) adota um filho. O que eles quiseram saber era como fazia no dia das mães com o presentinho na escola."

Laura Simões e o irmão
Arquivo pessoal
Laura Simões e o irmão

Liége Simões é mãe de Laura , que tinha cinco anos na primeira vez que viu um casal gay se beijando. "Ela arregalou os olhos e disse: 'Mãe! Tem um menino beijando outro!' Foi no metrô, pegamos o final da parada gay sem saber. Eu falei pra ela, com toda a naturalidade do mundo: 'Filha, tem menino que gosta de menino, menina que gosta de menina e menino que gosta de menina. O que importa é que eles se gostam e que a gente respeite o jeito deles gostarem", lembra Liège. "Não houve problema algum. Ela entendeu, não tem nenhum preconceito e também não virou gay por causa disso. O que é natural para os pais, fica natural para os filhos."

UM ÓVULO E UM ESPERMATOZÓIDE

Quezia Bombonatto diz que quando a criança começa a despertar para a sua sexualidade, a primeira dúvida é: "De onde eu vim?" E já nessa hora, em vez de explicar que os bebês são gerados do encontro de uma mulher com um homem, é bom os pais dizerem que o que gera a vida é o encontro de um óvulo e um espermatozóide. Isso já permite explorar várias alternativas: barriga de aluguel, casais gays que têm filhos, mulheres lésbicas que engravidam. "O que a gente aborda de forma diferente é a questão dos gêneros masculino e feminino, e todas as diferentes orientações."

O que vale para um casal hetero vale para um homo. O que faz a adequação pública de um beijo não é a sexualidade do casal, mas o lugar, o tipo de beijo e o tipo de público." (Adriana Ancona)

A advogada Adriana Ancona de Faria , mãe de Marília (18) e Martim (20), esperou eles se interessarem por falar de sexo para discutí-lo. "Eu deixei que eles pautassem o tema da sexualidade, assim respeitamos seu tempo para o assunto." Quando eles começaram a fazer perguntas, ela tratou da homossexualidade ao mesmo tempo que da sexualidade. "Deve ser igual para um e para outro. A questão do beijo público, por exemplo, é a mesma para os dois tipos de casal. O que faz a adequação pública de um beijo não é a sexualidade do casal, mas o lugar, o tipo de beijo, o tipo de público." Adriana acredita que o fato de as novelas levarem para a TV casais e cenas de afetividade homoerótica ajuda a naturalizar a relação homossexual e a propiciar um bom diálogo sobre o tema. 

Quezia concorda. Ela sugere que pais, e mesmo os filhos, aproveitem uma cena da novela para introduzir o assunto em família. "E então, o que você pensa da homossexualidade?" 

As irmãs Consuelo e Alessandra Blocker
Arquivo pessoal
As irmãs Consuelo e Alessandra Blocker

Às vezes, as crianças surpreendem os pais (ou tias) tendo já as respostas para o que nem mesmo perguntaram. Alessandra Blocker é tia de Allegra e Cosimo , filhos de sua irmã, Consuelo , que mora na Itália. "Uma vez estávamos assistindo a um capítulo de 'Law & Order' e minha sobrinha devia ter uns 10 anos. Aí, em meio às investigações do caso, surgiu a hipótese de uma das suspeitas ser amante da vítima. A Allegra gritou: 'Por que?' Eu fiquei meio que não sabendo responder e ela emendou: 'São gays?' Acho que as crianças já sabem de tudo."

No outro extremo, há as mães que se envolvem ativamente na causa e levam seus filhos junto. A produtora cultural Tina Tigre , mãe de Theodoro (14) e Lourenço (13), escolheu o deputado federal e colunista do iGay Jean Wyllys  como padrinho dos meninos. "O amor e o respeito que as crianças sentem por ele são incríveis e belos", diz ela. "Desde pequenos sempre ensinei a eles que chamar as pessoas de gay, bicha, veado e sapatão são ofensas que magoam muito."

Tina Tigre e os filhos Theodoro e Lourenço: militância em família
Arquivo pessoal
Tina Tigre e os filhos Theodoro e Lourenço: militância em família


QUANDO A VIDA COMPLICA

Claro que nem todas as famílias são resolvidas com relação ao próprio preconceito. Tem a questão religiosa (sempre ela!) e quem segue uma religião que condena a homossexualidade não quer aceitar o mundo como ele é. "Famílias que têm crença tão arraigada não aceitam a exposição na mídia da homossexualidade e da bissexualidade, condenam as passeatas gays, as demonstração de afeto e até as novelas com temática gay. Tem gente que deixa de ver as novelas que têm casais gays", diz Quezia

Tem de deixar as crianças abertas para o mundo. Não dá para negar a realidade." (Quezia Bombonatto)

A presidente da Associação de Psicopedagogia lembra que para muitas mães é difícil falar com os filhos de sexualidade pura e simples. Masturbação, conhecer seu próprio corpo, se permitir ter prazer, todos são assuntos tabu. "A sexualidade feminina especialmente é punida. Uma mulher que gosta de sentir prazer é condenada."

Ela acha que as crenças são legítimas, mas as famílias não podem criar seus filhos de forma que só os seus conceitos estão certos. "Tem de deixar a criança aberta para o mundo. Não dá para negar a realidade."

Ela contou uma história ao contrário: um cliente seu, de 18 anos, está numa relação homossexual e não tem coragem de contar para os pais. "Estamos trabalhando como ele vai assumir dentro da família. Ele disse para os pais que está namorando e a mãe automaticamente concluiu que ele tem uma namorada. Fica pedindo para conhecer a menina."


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