A fala é da tricampeã mundial de surf Cori Schumacher no documentário "Out in the line-up", do australiano Thomas Castets, que mostra como um site tirou os surfistas gays do isolamento

Até quatro anos atrás, os surfistas gays estavam pegando onda misturados à imensa maioria de surfistas "machos", sendo oprimidos por eles ou escondendo a homossexualidade de tudo e de todos. Cada um deles, separadamente, se considerava uma "avis rara" no mar e se fazia a mesma pergunta: "Será que eu sou o único surfista gay do mundo?"

O australiano Thomas Castets era um deles. A cada vez que fazia uma pesquisa na internet combinando as palavras "gay" e "surfista", só encontrava pornô de má qualidade. Webdesigner, decidiu fazer uma página na internet e lançou essa pergunta para o mundo: "Tem algum surfista gay por aí?" O primeiro a responder foi o ex-campeão estadual de surfe David Wakefield . Também australiano, da cidade praiana de Byron Bay (772 quilômetros ao norte de Sidney, onde mora Thomas), David seria o primeiro adepto do site GaySurfers.net, que hoje tem 6.000 participantes.

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E foram aparecendo outros, dos EUA, da Austrália, França, Espanha. "De repente tinha um cara de Angola, outro do Senegal", conta Thomas no documentário "Out in the Line-Up", de 2014, em que ele viaja o mundo entrevistando surfistas gays. "Encontrei todas essas pessoas que tinham a mesma história que eu."

Thomas começou a influenciar e reunir tanta gente que, muito mais do que um site para aproximar surfistas que queriam pertencer a um grupo e ter companhia para surfar, o GaySurfers se transformou numa missão social. "Estávamos tendo um impacto global", diz ele. Em busca de visibilidade, Thomas sugeriu reunir uma turma para desfilar na parada gay de Sidney para representar a classe. E assim foi.

David, que até então não tinha se assumido publicamente, deu entrevista para a TV e apareceu na primeira página do jornal "Morning Herald". E então o cara tranquilo da cidade de Byron, que tinha dois empregos, tocava piano na igreja e surfava com os mesmos amigos (heteros) de sempre, decidiu largar tudo e viajar pelo mundo para surfar. Foi primeiro para o Havaí, depois encontrou Thomas em San Diego, na Califórnia, depois foi para o México, onde surfou com Jesse Jimenez, de quem viria a ficar muito amigo, e esteve com Cori Schumacher, a primeira campeã mundial gay de surfe, em Carlsbad, na Califórnia. Tirada do armário por uma matéria de capa do caderno de esportes do "New York Times", ela passou por todo tipo de conflito entre o esporte em que ela era a melhor do mundo e sua sexualidade. Depois de ganhar o segundo campeonato mundial, se afastou do esporte por 7 anos para explorar a sua sexualidade longe dos holofotes.

O documentário, um filme bem conduzido que mistura road movie com filme de surfe e depoimentos contundentes, nos apresenta uma série de histórias e de pessoas incríveis. (Conheça alguns personagens do filme na galeria acima). Um que vale destaque é Matt "Branno" Branson, ex-surfista profissional tatuado, roqueiro, cabeludo, com visual mais para motoqueiro do que para surfista, amigo do Igor, do "Sepultura", que saiu do armário porque não suportava mais guardar o segredo. Foi uma atitude ousada, que poderia ter destruído tudo de uma vez: sua carreira, os patrocínios, sua imagem.

Outra que também fez muito pela causa foi a havaiana Keala Kennely. Ela começou competindo com os meninos e tentando namorar um deles, porque, por mais que sentisse uma força magnética que a atraía para as mulheres, queria ser hetero porque sabia que era isso o que esperavam dela. "Eu já sabia que era gay, mas estava me esforçando para ser o que eles queriam", diz ela. "Era uma tortura."

Ela também foi expulsa do armário por um jornalista, desta vez Matt George, da revista Surfer Magazine, que escreveu o artigo "A história que nenhum homem quer ouvir". Ela virou musa das surfistas jovens, aquela de quem as meninas penduravam pôsteres na parede.  

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