Na novela "Império", é Beatriz Bolgari, mulher de Claudio, quem defende o segredo do marido de tudo e de todos. Na vida real, Kelly Preston, mulher de John Travolta, vive a mesma situação

Quem diria que John Travolta e Claudio Bolgari, personagem de José Mayer na novela "Império", iam dividir o mesmo segredo? Enquanto Travolta está lidando mais uma vez com um antigo amante querendo tirá-lo do armário à força, o bissexual Bolgari encontra na mulher a maior cúmplice do seu silêncio.

A sexualidade de John Travolta sempre foi questionada. Vários eventos foram noticiados ao longo dos anos: acusações de assédio por parte de massagistas (três, exatamente), insinuações de seu ex-secretário particular Joan Edwards . Se ainda faltavam provas de que ele tem uma queda pelos homens, o piloto  Doug Gotterba decidiu contar detalhes do relacionamento que alega ter tido com o ator durante seis anos, antes de Travolta se casar com Kelly Preston , em 1992. Gotterba está escrevendo um livro sobre o caso e adiantou alguns trechos ao tablóide americano "National Enquirer".

John Travolta e Kelly Preston: casamento sobrevive a muitas histórias de casos gays do marido
Reprodução
John Travolta e Kelly Preston: casamento sobrevive a muitas histórias de casos gays do marido

Segundo Gotterba, tudo começou em 1981, quando foi contratado para o posto de piloto particular do astro. Passaram a primeira noite juntos num quarto de hotel na Califórnia. "John era gentil e muito apaixonado", contou Doug, que se beneficiava da sua posição para disfarçar o relacionamento. "Eu ficava no quarto vizinho ao dele em hotéis luxuosos. Às vezes ele trazia mulheres como álibis, mas sempre me pedia para passarmos a noite juntos. Era nosso pequeno segredo."

CURTA O IGAY NO FACEBOOK

Em 2012, a mesma "National Enquirer" anunciou que o casamento de Travolta e Preston tinha chegado ao fim. Que Kelly teria se cansado do acordo que tinha com o marido depois que as acusações de assédio se tornaram públicas. "Ela aguentou a vida dupla de Jonh por décadas, enquanto seu comportamento permaneceu na sombra. Mas tudo isso veio a público e ela está se sentindo humilhada", disse uma fonte à revista na ocasião. Mas o fato é que eles seguem casados e têm dois filhos, Ella , de 14 anos, e Benjamin , de 3 anos e meio. Jett morreu em 2009, aos 16.


Claudio (José Mayer) e Beatriz (Suzy Rêgo): um casamento em que a mulher é cúmplice do segredo do marido
Divulgação/TV Globo
Claudio (José Mayer) e Beatriz (Suzy Rêgo): um casamento em que a mulher é cúmplice do segredo do marido

Na novela "Império", o segredo do empresário Claudio Bolgari ( José Mayer ), casado com Beatriz ( Suzy Rêgo ), permanece bem guardado - pela própria mulher. No capítulo de quarta (6), o casal se lembra de quando se conheceu e ela diz que foi amor à primeira vista. Assim que o viu ela soube que o queria para a vida toda, e nada mudou mesmo quando conheceu o segredo dele. Ele, aflito, quer saber se a promessa dela de não revelar para ninguém está de pé. Ela garante que sim e que fica ao seu lado para o que der e vier, mesmo que tenha de enfrentar o mundo.

O quase beijo gay entre Leonardo e Claudio, personagens de Klebber Toledo e José Mayer
Divulgação/TV Globo
O quase beijo gay entre Leonardo e Claudio, personagens de Klebber Toledo e José Mayer


O PECADO MORA AO LADO

Por que algumas mulheres ficam casadas com homens que têm relacionamentos homossexuais fora do casamento? Muitas, certamente, não têm ideia do que seus maridos fazem quando não estão com elas. O músico Lucas * conta que teve uma história de seis meses com um empresário casado. "Conheci um casal hétero e ficamos amigos. Pouco depois me mudei para o prédio deles. O marido era loiro, bonito e muito simpático. Ria sempre das minhas piadas e me mandava mensagens quase diariamente. Tudo era motivo para ele se lembrar de mim, deixar um bilhete na minha porta: um CD novo, o lançamento de um filme. Um dia, disse que a mulher tinha ido para os Estados Unidos e que ele queria companhia para abrir uma garrafa de vinho especial. Fui até a casa dele e, depois do segundo copo, nos tornamos amantes por 6 meses. O problema é que fui me aproximando da mulher também e gostando muito dela, então sentia culpa. Ele garantia que ela não desconfiava de nada e que ele não podia dizer não à nossa paixão. No fim, acabei achando ele um idiota e ela uma mulher incrível, batalhadora e que não merecia aquela situação. Me afastei deles por um tempo. Hoje somos amigos e nunca mais falamos no passado."

Um dia, ele disse que queria companhia para abrir uma garrafa de vinho especial. Fui até a casa dele e, depois do segundo copo, nos tornamos amantes por seis meses." (Lucas*, músico)

O que será que teria acontecido se ela soubesse do relacionamento gay do marido? Apenas uma minoria aceitaria esse acordo que na novela funciona (até agora) muito bem, diz o terapeuta homoafetivo Klecius Borges . Ele avalia que as mulheres teriam diversos motivos para aceitar viver essa situação: "Por insegurança e medo de enfrentar a vida sozinhas; para preservar o casamento e os filhos; por amor ou por acreditar que se trata apenas de uma fase", diz ele, e continua: "Por pensarem que se trata de um mal menor, pois o marido não irá trocar a família convencional por um relacionamento homossexual; por conveniência, financeira ou social; e em alguns casos porque não vêem motivos para interromper um relacionamento que consideram satisfatório, apesar da vida dupla do companheiro."


UM CASAL, MUITOS ARRANJOS

É fato que todo casal tem o seu pacto, e Klecius atesta que existem muitos arranjos possíveis. "Para algumas mulheres, isso pode não ser um problema, desde que se sintam seguras, emocional e financeiramente", diz ele, que imagina ser mais simples para a mulher aceitar a bissexualidade do marido se ele tiver vários parceiros. "Algumas podem enxergar a bissexualidade como uma fraqueza do marido, mas nada que a impeça de seguir com o casamento e os projetos familiares. Já outras aceitam, desde que não haja um relacionamento estável que as faça se sentir ameaçadas. E outras até acham bom que não tenham de se relacionar sexualmente com o marido. Tercerizam o sexo com um outro homem, que entre outras coisas não pode engravidar e, até bem pouco tempo, não podia se casar."

Outras mulheres até acham bom que não tenham de se relacionar sexualmente com o marido. Tercerizam o sexo com um outro homem, que entre outras coisas não pode engravidar e, até bem pouco tempo, não podia se casar (Klecius Borges)

EQUILÍBRIO FRÁGIL

Toda convivência tem as suas complexidades, e um segredo no meio do casamento aumenta a fragilidade do equilíbrio da relação. "Acontece com todo tipo de segredo, sejam informações sobre negócios ou sobre a vida privada", diz Klecius. "Casamentos não convencionais supõem o estabelecimento de acordos e a negociação permanente entre as partes. Conflitos podem surgir quando uma das partes começa a se sentir incomodada com o acordado ou percebe que a outra parte não esta cumprindo o combinado. E isso é impossível de se evitar, já que as pessoas mudam e mudam seus desejos ao longo do tempo. O que funciona bem hoje, pode não funcionar bem amanhã. Não há garantias de que tudo fique bem, sempre."

PROCESSO E PERSEGUIÇÃO

O advogado Dimitri Sales , colunista do iGay e especializado em causas LGBT, não conhece nenhum caso de mulher que conviva pacificamente com a bissexualidade do marido. O que ele conhece bem é o contrário: mulheres que descobrem as escapadas gays do marido e ficam furiosas. "Perseguem, processam, difamam", diz ele. "Acompanhei um caso em que a ex-esposa entrou na Justiça para tirar todos os direitos de paternidade dele: visitas ao menino, convivência com o pai. Ela foi artimanhosa: não entrou com ação para alegar que a homossexualidade dele seria um problema. O que ela fez foi, sabendo que ele estava desempregado e não poderia assumir, entrou com pedido de pagamento de pensão alimentícia. Ela conseguiu a prisão dele por falta do pagamento. Para puni-lo em razão da homossexualidade, ela o manteve preso por dois meses."    

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.