Em “Libélula”, psicanalista usa repertório adquirido em 21 anos de clínica para construir história do jovem seminarista gay José

Marcos Lacerda usou experiência no consultório para elaborar o personagem José
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Marcos Lacerda usou experiência no consultório para elaborar o personagem José

Em 21 anos clinicando, o psicanalista paraibano Marcos Lacerda se deparou com diversos casos de padres e freiras homossexuais, que buscam em seu consultório ajuda para lidar com o fato de habitarem um ambiente extremamente conflitante com suas sexualidades.

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A experiência foi a base para o seu novo romance, “Libélula” (Editora Pontes), com lançamento marcado para a segunda-feira (9). O livro conta a história do jovem seminarista José, que se percebe gay após o inicio de sua vida religiosa.

“Durante todos os anos de consultório percebi que as religiões e a religiosidade como um todo afetam muito a vida afetiva e psicológica das pessoas. As trajetórias que acompanhei de padres, freiras e até indivíduos que têm relação próxima com a igreja, foram subsídio para ‘Libélula’”, conta.

Passado na década de 50, o livro aborda diversas questões que abrangem a sexualidade. “Assim como José, muitos religiosos se percebem homossexuais dentro da igreja e começa então um questionamento, não só em relação ao amor mas aos dogmas da igreja. Nas instituições religiosas existe também a maldade, as disputas, abusos sexuais, como em qualquer aglomeração humana”, relata.

Para Larcerda, a questão é bastante delicada e é preciso analisar os efeitos dos conflitos. “O religioso que se percebe homossexual se sente vivendo em pecado, e é algo absurdo, como se fosse conflitante ter os olhos azuis. Leva tempo até que a pessoa entenda isso e principalmente que ela é dona de seu próprio corpo”.

As pessoas devem entender que uma coisa são as religiões e outra é você ser uma pessoa religiosa. A instituição religiosa tem função de controle social por meio da culpa, afinal nada controla mais o ser humano do que culpa

CONTROLE PELA CULPA

O psicanalista tem opiniões fortes e enfáticas sobre a igreja: “Para começar, as pessoas devem entender que uma coisa são as religiões e outra é ser uma pessoa religiosa. A instituição religiosa tem função de controle social por meio da culpa, afinal nada controla mais o ser humano do que culpa”, dispara.

Lacerda entendeu também que a ligação dos homossexuais com a igreja têm características diferentes em cada faixa etária, onde os mais velhos não se assumem por uma questão de religiosidade enquanto os jovens temem a perda do grupo. “Se assumir significa arriscar ser excluído de um grupo que ajudou a formar sua identidade. Se for excluído desse grupo, o que sobra? Há também um medo da perda do amor do pai e da mãe, algo muito comum, em especial aqui no nordeste”.

'Libélula' conta a história do jovem padre gay José
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'Libélula' conta a história do jovem padre gay José

Tema de debate dentro e fora da comunidade LGBT, as igrejas inclusivas são para o psicanalista um caminho de transição, mas não algo totalmente positivo. “Elas ajudam pessoas muito religiosas a encontrar um aconchego espiritual. É uma transição interna, onde ele pode se soltar dentro do ambiente, mas vai seguir respeitando valores religiosos. Temo porém que essas igrejas mantenham questões opressivas das instituições religiosas tradicionais. Não deixa de existir controle sobre o corpo do outro, e espera que os próprios homossexuais tenham um padrão heteronormativo.”

Tento romper com o atrelamento da literatura homoerótica ao sexo. O sexo é só uma parte

Para finalizar, Lacerda explica que com seu livro pretende também contribuir com a literatura LGBT. “Tento romper com o atrelamento da literatura homoerótica ao sexo. É preciso começar a entender que o sexo é só uma parte. É preciso trazer para a cultura LGBT qualidade literária, personagens profundos, conflitos internos e não ser apenas pessoas transando loucamente. Apesar de não ter nada contra esse tipo de literatura, precisamos amadurecer outras frentes também.”

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