Entenda porque o termo “opção sexual”, que ainda se usa no noticiário, na novela e até nos programas de políticas públicas do governo, é incorreto. Especialistas e gays explicam

O tempo passa, a visibilidade aumenta, as leis avançam, o beijo gay já é obrigatório na novela e uma coisa não muda na vida de gays, lésbicas e bissexuais: ouvir com frequência que sua "opção sexual" é ser gay, ou seja, que escolheu ser gay. Para terminar de vez com o equívoco: “opção sexual” é um termo incorreto. O certo é “orientação sexual”.

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Partindo da premissa de que ser gay é uma condição e não uma opção, fomos ouvir especialistas e gays para entender porque ainda se comete esse erro tão comum, mesmo nas cada vez mais "gay friendly" novelas da Globo. O psicólogo e sexólogo Claudio Marcos Picazio , autor do livro “Diferentes Desejos” (Edições GLS, 1998), explica. “O correto é orientação, porque opção implica que você optou por se sentir atraído e desejar o mesmo sexo, ou ambos, no caso do bissexual. Você não opta em nenhum momento por sentir o desejo erótico. O tesão é o que na verdade se descobre, se percebe.”

Picazio explica que o termo orientação é o correto, indicado por todos os órgãos internacionais. "Seguimos todos os manuais internacionais de psicologia, que ultilizam o termo 'orientação', por ele representar a orientação interna que nos rege, a orientação particular do desejo, que descobrimos com o passar do tempo”, finaliza.

'Ninguém optaria por ser uma minoria e sofrer preconceito'
Arquivo pessoal
'Ninguém optaria por ser uma minoria e sofrer preconceito'

Pedro Hcm , roteirista do canal "Põe na Roda", desabafa: “Perguntar por que a pessoa virou gay faz tanto sentido quanto perguntar quando ela virou hetero. Qualquer gay bem resolvido sabe que desde criança ou adolescente já se sentia diferente e atraído pelo mesmo sexo. E mais: ninguém optaria por ser uma minoria e sofrer preconceito.”

Picazio concorda com Pedro, e explica que o pensamento de opção pode ser extremamente danoso para os próprios LGBT. “Muitas pessoas quando percebem (que são gays), prefeririam não ser. É difícil se descobrir uma coisa que a sociedade considera ruim, negativa. E se essa pessoa acredita que é uma opção, ela pode querer fazer de tudo para reverter algo que não precisa ser revertido.”

O psicólogo relata ainda que esse é um erro frequentemente cometido também pela mídia e pelas religiões. “Jornalistas, apresentadores, colunistas e líderes religiosos costumam usar o termo 'opção', o que dificulta muito a disseminação do termo correto”, aponta.

Na novela "Em Família", que acabou de terminar na Globo, a lésbica Clara ( Giovanna Antonelli ) cometeu o erro diversas vezes, inclusive quando foi à escola do filho contar que estava se relacionando com outra mulher, evidenciando o despreparo, ou no mínimo desatenção, dos autores e diretores da trama.

DESAUTORIDADES

Quem também parece desconhecer o uso correto do termo é o governo. O escritor e diplomata Alexandre Vidal Porto , mestre em direito pela universidade Harvard, aponta que no programa de governo para o próximo mandato protocolado pelo PT no Tribunal Superior Eleitoral , os LGBT são identificados apenas uma vez, e com o termo “opção sexual”.

“Na minha opinião, a falta de posicionamento claro do governo agrava problemas como a discriminação e a violência, porque dá a impressão de que os LGBT não têm quem os protejam. As autoridades devem dar o exemplo e assumir sua responsabilidade de combater o desrespeito criminoso contra as minorias sexuais”, explica Porto.

O escritor acredita que é preciso união e insistência, numa prática que leve a comunidade a ganhar voz. “Acho que a comunidade LGBT tem de protestar e se fazer ouvir mais. Denunciar discriminação, exigir direitos, reclamar insistentemente. Tem de se tornar um problema político para o governo. O descaso do governo com os LGBT tem de lhe custar votos”, pontua.

Picazio engrossa o coro e explica que o descaso do governo é mesmo um problema a ser encarado de frente. “Para você entender sobre questões de orientação e identidade sexuais, a primeira coisa que deve saber são as nomenclaturas. Um governo deve saber como se referir a essa comunidade.”

Ainda que não seja uma escolha, hoje, se eu pudesse, escolheria ser gay, por tudo que aprendi, por ter tido a obrigação de me questionar sobre o que me faz feliz." (Pedro Hcm)

Para o psicólogo, tem de reclamar. “O apoio das entidades e núcleos de defesa de causas LGBT deve ser no sentido de ensinar, dar cursos. A mídia tem de fazer uma capacitação específica. As pessoas têm que começar a ter conhecimento cientifico dessas questões. Reclamar é uma boa atitude.”

Em relação à questão da opção, quem encerra é Pedro: “ Ainda que não seja uma escolha, hoje, se eu pudesse, escolheria ser gay, por tudo que aprendi, por ter tido a obrigação de me questionar sobre o que me faz feliz ou o que mandaram eu fazer. Por poder ver o mundo fora da caixa.”

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