Estreando em São Paulo, musical "Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz" encena conversa do jornalista com o cantor: "Pode escrever aí que eu estou com 'a maldita'!". Em texto para o iGay, Zeca conta como o episódio ficou guardado na sua memória

Depois de temporada no Rio de Janeiro e turnê por 12 cidades pelo Brasil, o musical "Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz" estreia na noite desta sexta-feira (18) em São Paulo. Uma das cenas do espetáculo lembra o momento em que o cantor, recebendo Zeca Camargo para entrevista em Nova York, onde o jornalista tinha acabado de assumir o posto de correspondente da Folha de S. Paulo , decide contar que estava com aids.

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Em texto especial para o iGay , Zeca faz seu relato deste momento importante - e triste - em sua carreira jornalística.

"Foi minha primeira "primeira página", no dia 13 de fevereiro de 1989. E eu sempre me senti ligeiramente desconfortável de ter alcançado, com uma notícia triste, aquilo com que todo jornalista em começo de carreira sonha. Cazuza tinha finalmente declarado que tinha o vírus da aids para mim, numa entrevista que era para ser apenas "protocolar". Mais de um jornalista já havia questionado o ídolo sobre seu estado de saúde (notoriamente, Marília Gabriela , numa entrevista para a TV), sem sucesso. Só que, naquele dia, ele resolveu dividir seu "segredo" para o grande público. E era eu que estava lá para escrever tudo.

Cazuza, o musical, lembra a vida, o sucesso e a morte precoce de um dos grandes ídolos da MPB
Acervo Cazuza
Cazuza, o musical, lembra a vida, o sucesso e a morte precoce de um dos grandes ídolos da MPB


Foi, sem dúvida, um dos episódios mais importantes de toda minha carreira, especialmente pela espontaneidade com que tudo aconteceu. Aparentemente Cazuza já havia tomado a decisão, junto com sua família, de que estava na hora de contar toda a verdade. Tive a sorte de ter essa oportunidade de entrevista exatamente nesse momento. Sorte e, eu diria, um pouco de habilidade.

Já passei por essa história nem sei quantas vezes na minha memória. A mais marcante de todas, com a própria mãe de cantor, Lucinha Araujo , com quem conversei novamente (ao lado da jornalista Regina Echeverria ) quando ela estava escrevendo seu livro "Cazuza - só as mães são felizes". Ela queria relembrar de todo o episódio para inclui-lo na biografia - e foi emocionante constatar que minha memória daquela tarde gelada em Nova York estava intacta.

Escrevo este texto sem ainda ter tido a chance de ver a história no palco. Mas mais de um relato - de amigos e mesmo desconhecidos - me dão conta de que esse é um momento importante de "Cazuza - pro dia nascer feliz". Pelo que sei, ele está bem resumido no texto do espetáculo, mas sua essência está lá. Para quem quiser um relato completo, está tudo lá no meu livro de "de A-ha a U2" (Editora Globo) - uma coletânea de bastidores com grandes nomes do pop e do rock que entrevistei.

INFOGRÁFICO: CAZUZA: A VIDA LOUCA E BREVE DO POETA E ÍCONE GAY

Mas agora, para marcar a estreia do musical em São Paulo - onde espero, então, poder conferi-lo -, vale lembrar que tudo aconteceu da maneira mais natural possível. Cazuza tirou fotos na Park Avenue, em frente ao hotel onde estava hospedado. Subimos até seu quarto, sempre acompanhados por sua mãe. Antes de a entrevista começar, ele me ofereceu um vinho - e sugeriu que eu bebesse do mesmo copo que ele. Aceitei. Logo em seguida começamos com as perguntas e respostas, e logo ele disse: "Pode escrever aí que eu estou com 'a maldita'!".


Antes de a entrevista começar, ele me ofereceu um vinho - e sugeriu que eu bebesse do mesmo copo que ele. Aceitei."

Sempre menciono esse detalhe do vinho porque ele tem óbvias conotações de rejeição - sobretudo para quem é portador de uma doença como a aids. Se hoje, em pleno 2014, as pessoas que são soropositivo ainda carregam um estigma, imagine 25 anos atrás. Eu estava ciente de que não existe risco nenhum de contágio ao dividir um copo com alguém soropositivo - imaginei que Cazuza viu nisso um voto de confiança. E resolveu contar tudo.

Em cartaz em SP,
Divulgação
Em cartaz em SP, "Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz" tem Emílio Dantas, brilhante, no papel principal

Estaria mentindo se dissesse que não fiquei nervoso logo depois da entrevista. Tudo que eu tinha como "prova" daquele "furo" jornalístico era meu caderninho de anotações - e a lembrança de que sua mãe estava no quarto, testemunhando tudo. Corri para mandar o texto por telex (telex!), e escrevi com o cuidado de quem sabia que estava lidando não só com um ídolo, mas também com sua legião de fãs.

Nunca mais encontraria Cazuza (também nunca o havia encontrado antes). Só soube que ele tinha ficado satisfeito com o resultado final anos depois."

Nunca mais encontraria Cazuza (também nunca o havia encontrado antes). Só soube que ele tinha ficado satisfeito com o resultado final anos depois, naquele encontro com Lucinha Araujo. Com o musical, mais pessoas - novas gerações na verdade - vão conhecer essa história. Que é, pelas nuances de coragem e preconceito que a definem, muito humana. E essa gente toda vai poder ter certeza então de que Cazuza era não só o poeta inspirador que suas músicas sugerem, mas também, simplesmente, um cara legal."

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Serviço:
"Cazuza Pro Dia Nascer Feliz" - Teatro Procópio Ferreira
Quinta e Sexta às 21h/Sábado às 17h30 e 21h30/Domingo às 18h
Rua Augusta, 2.823 - Cerqueira César - São Paulo
Informações: 3083-4475. Reservas e grupos: (11) 3064-7500


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