Fãs de uma das vertentes mais fechadas do rock, com público basicamente heterossexual, eles contam o que os atrai no gênero e como fazem para manter relacionamentos afetivos

Em 13 de julho é celebrado o Dia Mundial do Rock , ritmo que reina desde os anos 50 e segue ganhando novos adeptos. Apesar de ter diversos representantes da comunidade LGBT, como Freddy Mercury  e  Rob Halford , da banda Judas Priest, algumas vertentes do gênero roqueiro não parecem muito abertas para os coloridos. Talvez a mais refratária delas seja o heavy metal.

Antonio Francisco Cordova Leal Filho é gay e fã de heavy metal
Arquivo pessoal
Antonio Francisco Cordova Leal Filho é gay e fã de heavy metal

Apesar do ambiente claramente mais fechado, alguns gays se renderam à paixão pelo rock pesado. É o caso do estudante de administração Antonio Francisco Cordova Leal Filho , 22. “Desde criança eu já escutava algumas coisas tipo 'Metallica', misturado com coisas de criança, como Avril Lavigne . Com 11 anos entrei na onda do New Metal”, conta ele, se referindo ao gênero que mescla o metal com outras vertentes musicais, como Hip Hop e música industrial.

A partir daí Antonio evoluiu musicalmente, e passou a desvendar o rock. “Em 2006 comecei no metalcore", lembra ele. "Depois descobri o metal e o hardcore, e dai o hardcore punk, grindcore, powerviolence”, descreve o jovem, com conhecimento de causa.

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Apesar da grande intimidade com o gênero, o estudante avalia, também com base na própria experiência, que o meio é realmente muito fechado. “O heavy metal não é muito pró-diversidade. Muitas bandas têm rixas completamente desnecessárias, mas eu nunca tive problema com isso. Claro que não posso beijar um cara num show de metal, mas em outros espaços é até possível, como em um show de Queercore, uma versão gay do Hardcore”, explica.

Claro que não posso beijar um cara num show de metal, mas em outros espaços é possível, como num show de Queercore, a versão gay do Hardcore." (Antonio Leal Filho)

DEFESA DO HEAVY METAL

Mas o que o heavy metal tem de tão bom? Segundo Antonio, sem dúvida é a energia. “O metal traz uma intensidade fenomenal, dá pra curtir a música, sentir a adrenalina, empurrar, extravasar tudo de ruim do dia”, explica.

Will explica que algumas vertentes do rock são super abertas para os gays
Arquivo pessoal
Will explica que algumas vertentes do rock são super abertas para os gays

O ilustrador Will Oliveira , 29, é outro defensor do gênero com que teve contato desde a infância. E, também para ele, o grande atrativo do metal é a energia. “Adoro ouvir música pesada enquanto desenho, é uma energia única, sem contar que as bandas de heavy metal apelam bastante pra uma pegada épica, um som grandioso. São músicos que prezam mais pela técnica do que pela expressão artística", detalha ele, que aponta também um defeito no meio do heavy metal: "O lado ruim é que a cena não se renova muito.”

Will conta que costumava dar preferência aos lugares em que podia exercer a sexualidade, e que em alguns momentos o rock o ajudou. “Me descobri gay bem na época que frequentava ambientes de gothic, um segmento que aceitava muito bem a androginia, a homo e a bissexualidade. Não era nada difícil paquerar”, lembra ele, se divertindo.

Quando em sua trilha sonora passou a tocar heavy metal, o ilustrador conta que algumas dificuldades surgiram com relação aos parceiros. “Eu vi muitos meninos se descobrindo gays e indo atrás das referências da chamada ‘cultura gay’, mas eu fui me descobrindo gay dentro do meu próprio repertório. Sempre rolava um estranhamento porque eu nunca me sentia à vontade em baladas exclusivamente LGBT, principalmente por causa da musica pop”, explica.

Vi muitos meninos se descobrindo gays e indo atrás das referências da chamada cultura gay. Eu fui me descobrindo gay dentro do meu próprio repertório. (Will Oliveira)

Para resolver o problema, Will passou a frequentar baladas em que o público é um misto de gays e héteros e de diferentes tipos de som.

Já o estudante Yuri Botello , 23, acabou encontrando seu oásis na Alemanha, onde foi aprender outras línguas. “Aqui na Alemanha há muitos gays assumidíssimos que curtem heavy metal, chega a impressionar”, conta ele.

Com seu cabelão, Yuri é um autentico roqueiro
Arquivo pessoal
Com seu cabelão, Yuri é um autentico roqueiro

SOLIDÃO METALEIRA

Yuri teve contato com o rock por volta dos 11 anos e depois de três anos descobriu o heavy metal. “Aos 14 anos me interessei por metal e não parei mais”. A paixão causou alguns contratempos na vida afetiva. “Me sentia muito sozinho às vezes, porque o heavy metal tem um público basicamente heterossexual”, explica.

O problema do estudante é exatamente este: a música institui uma distância entre ele e os gays. “Com meus amigos gays é tudo lindo e maravilhoso, mas somente a amizade é o que nos une. Nos gostamos muito, mas eu não tenho nada a ver com eles, não gostamos do mesmo tipo de música, não frequentamos o mesmo tipo de lugar, não nos identificamos na hora de nos vestir. Antigamente eu ia com eles a festas gays que tocavam música pop e me sentia super deslocado, mas como estava em boa companhia, me divertia bastante. Mas rolava um julgamento”, aponta.

É uma maldição e uma bênção. Os caras curtem esse negócio do bad boy do rock, mas eles são ignorantes sobre isso. Acham que todos são iguais e só gritam." (Yuri Botello)

Antonio conta que acaba tendo alguns problemas, mas que também tem sucesso. “Eu sempre digo que é uma maldição e uma benção, os caras curtem esse negocio de 'bad boy do rock', mas eles são completamente ignorantes sobre isso. Acham que todos são iguais e só gritam. Mas tudo bem.”


Confira os roqueiros gays mais importantes da música:

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