Disfarçados de brincadeiras, cantadas ou elogios, comentários e perguntas revelam preconceito e incompreensão sobre a orientação sexual das homossexuais

No último sábado (06), a novela “Em Família” (Globo) representou em uma cena algo que faz parte do cotidiano de muitas lésbicas, infelizmente. Durante um jantar romântico num restaurante sofisticado, o casal Clara ( Giovanna Antonelli ) e Marina ( Tainá Müller ) foi obrigado a ouvir uma pergunta desagradável de um desconhecido. "É você o homem da relação?”, questionou o tal homem à personagem de Tainá. Incomodada com a grosseria dirigida à parceira, a namorada dela respondeu jogando espumante na cara do mal-educado.

Carolina Dalge ouviu a frase: 'Pode até ser lésbica, mas não pode virar machinho’
Arquivo pessoal
Carolina Dalge ouviu a frase: 'Pode até ser lésbica, mas não pode virar machinho’

A assistente de arte Carolina Dalge , 23, precisaria de um adega de restaurante se fosse copiar a atitude de Clara todas as vezes que ouviu algo deste tipo. A situação vivida pelas personagens da novela já se repetiu muitas vezes em seu cotidiano. De maneira geral, as frases fazem referências ao sexo ou reforçam estereótipos.

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“‘Pode até ser lésbica, mas não pode virar machinho’ e ‘Na hora do sexo, não fica faltando algo?’ são frases que ouço de colegas e mulheres conhecidas”, exemplifica Carolina, que costuma ouvir de homens grosserias disfarçadas de cantadas. ‘Você é muito linda para ser lésbica’, ‘Você é lésbica porque nunca transou com um homem’ e o clássico ‘Acho lindo duas mulheres juntas, posso participar?”, prossegue a assistente de arte.

Calejada em ouvir estas frases, Carolina acabou desenvolvendo um comportamento padrão para rebatê-las. “Evito prolongar a discussão. Quando são mulheres ou conhecidos, tento explicar de forma direta. Já com homens desconhecidos ou pessoas em balada, apenas digo não e ignoro”, conta.

A DJ Janaina Duarte , 21, diz que a sua bissexualidade faz os comentários serem ainda mais invasivos. “Além das perguntas de sempre, acabam me perguntando o que eu prefiro. Uns chegam a dizer que eu só pego meninas porque é moda”, desabafa a jovem. Nas primeiras vezes que ouviu este tipo de frase, Janaina se irritou bastante. Hoje, ela prefere ignorá-las, na maioria das vezes, mas em alguns momentos a reação é inevitável.

“Já passei por uma situação tensa quando estava com uma menina e acabamos encontrando, por acaso, um ex meu. Ele veio tomar satisfação e me disse: ‘Quando você estava comigo, você era mulher’”, relata a DJ, criticando a falta de sentido no comentário. “Não é porque eu gosto da companhia de uma menina que eu vou deixar de ser mulher. Isso não tem o menor nexo”.

O casal Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), de
Divulgação/TV Globo
O casal Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), de "Em Família", ouviu uma pergunta desagradável de um desconhecido: "É você o homem da relação?”

O fato de ter tido um relacionamento longo com um homem antes de se assumir homossexual, fez a psicóloga Isabel Amora , 36, passar por saias justas. “Sempre aparece a pergunta ‘Quando você mudou de opção? ’. Muitas pessoas acham que sou lésbica porque tive decepção com os homens”, relata Isabel, revelando ainda um incômodo quando os comentários vêm travestidos de elogios à beleza dela.

Não gosto quando algumas pessoas dizem ‘mas ela é tão bonita’, quando descobrem que alguém é lésbica. Então, lésbica é só mulher feia e mal amada que não arranjou um homem? (Isabel Amora)

“Não gosto quando algumas pessoas dizem ‘mas ela é tão bonita’, quando descobrem que alguém é lésbica. Então, lésbica é só mulher feia e mal amada que não arranjou um homem?”, questiona Isabel.

Recém-casada, a psicóloga foi bastante questionada antes do casamento sobre quem ia se vestir de noiva, se ela ou a parceira. “Respondi tudo naturalmente. Neste caso, disse que ambas usamos o vestido.”

As entrevistadas apontam que o preconceito se manifesta de maneira distinta para os homossexuais masculinos e femininos. “Quando um homem se diz gay, ele não precisa provar que é gay. Simplesmente é. As meninas não ficam dizendo que eles são assim porque ‘nunca ficaram com meninas’ ou que ‘vão fazê-los homens’ se fizerem sexo com eles”, distingue Carolina.

COMENTÁRIO VIRA ASSÉDIO E AGRESSÃO

A educadora social Cinthia Abreu , 34, realiza um trabalho com uma organização de combate ao machismo e ao preconceito, a Marcha Mundial das Mulheres, que coordena a Caminhada Lésbica de São Paulo. Cinthia ressalta que muitos comentários deste tipo são prenúncios de uma situação de assédio sexual e até de agressão.

“Não podemos ficar em silencio, precisamos dar visibilidade ao problema da violência e do assédio nas ruas”, defende Cinthia, lembrando uma agressão que ela própria sofreu em São Paulo, há três anos. Ela estava no Vale do Anhangabaú com a namorada, quando foi cercada por um grupo de homens.

“Alguns rapazes ficaram em volta da gente e começaram a cuspir no chão. Eles diziam que estavam com nojo. Quando íamos saindo, dizendo que não estávamos fazendo nada contra eles, um deles me deu um murro na cara, cai e fui chutada. Minha companheira também levou socos. No fim, quebrei alguns dedos do pé e tive varias escoriações”, relata Cinthia

Cinthia vê os comentários dirigidos às lésbicas como reflexos de uma sociedade machista. “É uma total falta de respeito. Nenhum cara pergunta para um casal hétero se está faltando um homem no meio.”

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