Durante o namoro com a radialista Marina Tomelli, estudante Thomas Tomihero deixou identidade de mulher lésbica para se assumir como homem transexual e teve apoio da namorada

“Sou uma pessoa incompleta, ela nunca vai me querer.” Foi esse o pensamento que assombrou a cabeça do estudante de farmácia Thomas Carrilho Tomihero quando se sentiu atraído pela radialista Marina Tonelli  assim que a viu na fila do show da banda My Chemical Romance, em São Paulo, em 2008.

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Quatro anos e meio depois dessa primeira impressão, o jovem transexual descobriu que estava enganado: iniciou um namoro com Marina que já dura um ano e meio. A relação não balançou - eles consideram inclusive que tenha se fortalecido - quando Thomas deixou sua identidade de mulher lésbica para se assumir como transhomem.

“Não nos falávamos há um bom tempo quando nos encontramos em um show da banda Fresno, no parque do Ibirapuera, e mesmo assim a Marina veio me dar oi” , recorda Thomas. “Desde aquele momento não nos separamos mais”, acrescenta Marina. Os dois, ambos com 22 anos, dividem um apartamento em São Paulo.

A decoração de sua casa mistura retratos do escritor Edgard Alan Poe e do pensador Friedrich Nietzsche  a um boneco do  Mickey de pelúcia. Adesivos do My Chemical Romance, por motivos óbvios, também compõem o ambiente.

FALTANDO UM PEDAÇO

Para a felicidade do casal estar completa, ainda falta uma mudança muito importante na vida de Thomas. Nascido biologicamente no corpo de uma mulher, o estudante quer assumir completamente sua identidade masculina fazendo tratamento hormonal e uma cirurgia para retirar os seios.

Com nove anos, comecei a me desenvolver. Desde então, ninguém nunca mais me viu sem blusa. Passei a usar sempre um casaco de moletom, não importando se estava sol e calor." (Thomas)
Com nove anos, comecei a me desenvolver. Desde então, ninguém mais me viu sem blusa. Passe a usar sempre um casaco de moletom, não importando se estava sol e calor (Thomas)

“Com nove anos, comecei a me desenvolver. Desde então, ninguém nunca mais me viu sem blusa. Passei a usar sempre um casaco de moletom, não importando se estava sol e calor”, admite Thomas, que apela também para uma cinta modeladora para esconder os seios.

AVAL DA NAMORADA

Apoiando totalmente as mudanças que Thomas planeja fazer em seu corpo, Marina diz que o namorado se sente profundamente incomodado por ainda ter formas femininas. “Ele repara em coisas nele mesmo que ninguém mais percebe. Até uma curvinha no quadril o incomoda”, explica a radialista.

Marina e Thomas enfrentam preconceitos todo os dias, mas não se deixam abater
Edu Cesar
Marina e Thomas enfrentam preconceitos todo os dias, mas não se deixam abater


Thomas só entendeu que era um homem transexual aos 16 anos, quando começou a pesquisar sobre o tema na internet e em livros. Mas ele só conseguiu se aceitar por completo no ano passado. “O primeiro passo foi conversar com a Marina, algo que não acontecia com as minhas outras namoradas”, relata o estudante.

Num relacionamento anterior, quando ainda tinha identidade feminina, o estudante ficou traumatizado quando sua namorada na ocasião o deixou para namorar um homem. “Isso me destruiu, deixei de sair de casa”, confessa Thomas.

"ELE ME TOCAVA COMO HOMEM"

Marina conta que percebeu desde o início do relacionamento que o estudante tinha um conflito interno, e hoje Thomas reconhece a sorte de viver ao lado de alguém que o entende. “Quando a gente ficou, senti uma coisa diferente. Já namorei homens e mulheres, notei que ele me beijava como homem, me tocava como homem. Até dei uma forçada para ele se abrir comigo”, conta a radialista, que viu seu relacionamento fortalecido depois da conversa.

Não vou dizer que o amo mais por ele ser trans. Na verdade, eu o amo mais pelo fato de ele ter confiado em mim (Marina)

“Não vou dizer que o amo mais por ele ser trans. Na verdade, eu o amo mais pelo fato de ele ter confiado em mim. Por dialogar, por todas as nossas pequenas vitórias”, pondera Marina, dizendo que o namorado aos poucos está ficando mais confiante e menos introvertido. “Uma dançadinha mínima dele me faz pular”, afirma a radialista.

Thomas está passando por um processo de adequação de gênero no Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, localizado no centro de São Paulo. Mas se ressente com o trâmite lento do atendimento. “Sei que demora anos. Tem gente que esperou 10 anos para fazer a cirurgia nos seios. Mesmo que eu consiga o dinheiro para fazer a mastectomia, é muito difícil conseguir psicólogos e psiquiatras que me deem o laudo autorizando”, lamenta Thomas, que critica a falta de preparo de muitos profissionais da saúde no atendimento aos homossexuais.

O casal num porta-retrato que decora a casa deles no centro de São Paulo
Edu Cesar
O casal num porta-retrato que decora a casa deles no centro de São Paulo


PRONOME FEMININO

“No CRT, eles são treinados para lidar com travestis e transexuais, e mesmo assim insistiram em me tratar pelos pronomes femininos quando fui fazer o exame. Por convicção religiosa, alguns outros médicos que consultei deram opiniões contrárias ao tratamento hormonal”, desabafa Thomas, reafirmando a importância fundamental que a operação de remoção dos seios tem para ele. “Se não fizer a cirurgia, serei infeliz para o resto da vida."

Já combinamos que vamos nos casar assim que ele completar a adequação. Porque é algo que só podemos fazer quando ele se sentir confortável com ele mesmo (Marina)

Marina também não escapa ilesa do preconceito, especialmente quando homens não transexuais descobrem que ela namora um transgênero. “É péssimo. Eles falam que eu preciso conhecer um homem de verdade.”

O casal faz o possível para evitar que os percalços do dia a dia interfiram na sua vida. “Já disse para ele que até os 23 anos quero estar noiva. Já combinamos que vamos nos casar assim que ele completar a adequação. Porque é algo que só podemos fazer quando ele se sentir confortável com ele mesmo”, conclui Marina.

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