Casais gays revelam as vantagens e desvantagens de viver sob o mesmo teto. Comprometimento, diálogo e a consciência de que estar num relacionamento é fazer concessões são condições fundamentais

Quando se conheceram numa balada paulistana, em 2009, a advogada Patrícia Brasil , 34, e a jornalista Mariana Lemos , 29, não imaginavam que dois anos depois estariam dividindo o mesmo teto. Mas com a evolução da relação, o desejo de acordar e viver com a parceira no mesmo lugar foi ficando cada vez mais forte. As questões práticas do cotidiano também influíram na decisão.

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O primeiro e mais importante motivo era a vontade de dividir a vida mesmo, construir um lar. Um lugar que representasse e materializasse a união que já sentíamos (Mariana Lemos)

“O primeiro e mais importante motivo era a vontade de dividir a vida mesmo, construir um lar. Um lugar que representasse e materializasse a união que já sentíamos. Dormíamos uma na casa da outra com frequência, levando coisas para lá, coisas para cá. Então, acabou sendo mais prático morarmos juntas”, explica Mariana, que no ano passado casou oficialmente com Patrícia.

Patrícia Brasil e Mariana Lemos foram morar juntas depois de dois anos de namoro
Arquivo pessoal
Patrícia Brasil e Mariana Lemos foram morar juntas depois de dois anos de namoro

Para Mariana, a melhor parte de partilhar um lar com alguém é poder dividir bons momentos, assim como as responsabilidades e tarefas do dia a dia.

“Construir a vida ao lado dela, ser companheira e parceira. Compartilhar sonhos e projetos, estar perto e ajudar a resolver os problemas. Dividir mesmo os problemas, sem falar das contas, claro. Todas essas coisas são importantes”, admite a jornalista.

Ao definir a experiência de morar junto com a mulher, Patrícia ressalta tanto o lado romântico quanto o prático da questão. “É ter a certeza que vou voltar para casa e ter o aconchego dela. Além das minhas coisas todas numa casa só”, brinca a advogada.

Listando os fatores que devem ser pesados na hora decidir sobre viver como o (a) parceiro (a), a especialista em relacionamentos Regina Vaz mostra que Mariana e Patrícia foram morar sob o mesmo teto pelos motivos corretos.

“Você percebe que está na hora de morar na mesma casa quando passa mais tempo junto do que separado da pessoa. Sem esquecer o fato de que quem tem duas casas tem duas despesas. Além disso, é necessário também não se levar pela paixão e pelo tesão. Mas sim pelo amor, o companheirismo. Porque na hora da paixão, tudo é muito intenso, muito perfeito ”, pondera a Regina, que é autora do livro “Vamos Discutir a Relação” (Editora Planeta).

A CASA DELE (A) PODE SER UM RISCO 

Moradoras de Fortaleza, dividindo a mesmo teto há nove meses, as professoras Elisa de Azevedo Zavam , 25, e Yuka Araujo de Lima , 23, se conheceram quando cursavam a faculdade de Artes Visuais. Depois de um ano, Elisa convidou a namorada para viver com ela em sua casa. Hoje, as duas já pensam em ter filhos e programam o casamento civil para agosto deste ano.

Elisa de Azevedo Zavam convidou Yuka Araujo de Lima para viver na casa dela
Arquivo pessoal
Elisa de Azevedo Zavam convidou Yuka Araujo de Lima para viver na casa dela

"Eu chamei, ela veio. Gosto de estar com ela, nós nos ajudamos. Agora tenho mais tempo para percebê-la. Todo dia descubro um olhar, um sorriso. É como conhecer alguém novo todos os dias. Assim, tenho a cada dia a certeza de que ela é 'a pessoa'", constata Elisa, se emocionando ao falar.

De acordo com Regina, a atitude de mudar para a casa do outro e não para uma nova nem sempre dá certo. Muitas vezes o parceiro que se muda não consegue tomar posse de verdade do ambiente do outro, nunca perdendo o status de visita.

“No mundo ideal, seria preciso alugar ou comprar uma nova casa. Quando se vai para casa do outro, há o risco de na primeira briga ele te mandar embora. A sensação de ‘nossa casa’ pode nunca acontecer”, pontua a terapeuta de relacionamentos.

Regina aponta ainda três fatores fundamentais para a relação de um casal que vive na mesma casa funcionar: comprometimento, diálogo e a consciência de que estar num relacionamento é fazer concessões.

Quando se vai para casa do outro, há o risco de na primeira briga ele te mandar embora. A sensação de ‘nossa casa’ pode nunca acontecer (Regina Vaz)

“Sempre é preciso se perguntar: 'Estou disposto a ceder?' Temos que lembrar que a convivência traz à tona várias questões, como: 'Será que todas as brigas durante o namoro foram realmente perdoadas?' Além disso, é preciso diálogo, estabelecer os termos de despesas e as tarefas domésticas”, recomenda Regina.

Especificamente no caso dos casais gays, que não têm os tradicionais papéis de gênero definidos como as parcerias heterossexuais costumam ter, é preciso identificar as disponibilidade ou mesmo a predileção de cada um em relação às tarefas do dia a dia.

Foi justamente assim que Mariana e Patrícia escolheram o que cada um faz em casa. “Percebo que a realização das tarefas se organizam de acordo com a disponibilidade e perfil de cada uma. Por exemplo, eu sou mais organizada com as datas de vencimento das contas, então acabei naturalmente assumindo isso para mim. Já as compras no supermercado ficam mais com a Pati porque ela fica com o carro”, conta a jornalista.

JUNTOS, MAS EM CASAS SEPARADAS

Porém, algumas vezes, o melhor para o casal pode ser viver em casas separadas, como constaram o estudante de direito Luis Eduardo Uepcoski D'Moura , 23, e o advogado Leonardo Vaz , 30 , depois de viverem por mais de três anos juntos.

Depois de mais de três anos na mesma casa, Luis Eduardo Uepcoski D'Moura e Leonardo Vaz perceberam que era melhor viver em casas separadas
Arquivo pessoal
Depois de mais de três anos na mesma casa, Luis Eduardo Uepcoski D'Moura e Leonardo Vaz perceberam que era melhor viver em casas separadas


“Por um período foi bom, mas depois de um tempo, começaram as discussões e as brigas corriqueiras, típicas de casais. O stress do cotidiano vai consumindo muito tempo e a gente deixa de apreciar”, reconhece Luis.

A vida em casas separadas fez bem para a relação, os dois inclusive planejam um contrato de união estável. “Nos vemos e nos falamos quase todos os dias. Pensamos em voltar a morar juntos algum dia, em um apartamento maior, com melhores condições”, projeta Luis.

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