Homossexuais contam o que sofreram nos tratamentos de 'reversão da homossexualidade': “Eu tinha que dizer que queria casar com mulher, ter filhos e assim por diante”

O enfadonho tema ‘cura gay’ voltou à tona na última semana com a cassação do registro da psicóloga Marisa Lobo pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP) do Paraná. Com a decisão, o órgão deixou claro que homossexuais não podem receber tratamentos e terapias que busquem ‘reverter’ a homossexualidade. O hoteleiro paulistano Edilson , 40, sabe, por experiência própria, que esta determinação deve ser comemorada.

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Edilson, que prefere não revelar o sobrenome, tinha 15 anos quando passou por um tratamento de ‘cura gay’. O peso desta experiência desagradável o acompanha até hoje. Na adolescência, ele foi levado pelos pais a um psicólogo que usou hipnose para tentar ‘reverter’ sua homossexualidade.

Minha família me achava esquisito, afeminado. Então, me levaram até esse psicólogo que trabalhava com hipnose. Na primeira sessão, ele me falou que eu poderia levar uma ‘vida normal’ e que ele iria me curar” (Edilson)

“Minha família me achava esquisito, afeminado. Então, me levaram até esse psicólogo que trabalhava com hipnose. Na primeira sessão, ele me falou que eu poderia levar uma ‘vida normal’ e que ele iria me curar”, relata Edilson. Nas sessões de terapia, o hoteleiro tinha que repetir diversas vezes afirmações relativas a uma vida heterossexual. “Eu tinha que dizer que queria casar com mulher, ter filhos e assim por diante.”

Edilson tinha que ouvir diariamente antes de dormir as gravações com as afirmações. Depois de algumas semanas, o então adolescente decidiu dar um basta na situação, se recusando a fazer os exercícios e a ir ao tal psicólogo.

“Hoje, faço análise com um psicanalista para trabalhar e resolver a culpa que ficou internalizada em mim pelo tratamento e também pela família, Igreja e sociedade”, conta o hoteleiro.

Na época em que Edilson sofreu o processo de ‘cura gay’, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda não tinha tirado a homossexualidade da lista de transtornos e doenças, algo que só ocorreu em 1990. No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria tinha tomado esta decisão cinco anos antes, em 1985. O Conselho Federal de Psicologia só fez isso em 1999, dizendo que “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”.

Daniele foi proibida de sair de casa e forçada a ir a cultos evangélicos para ser
Arquivo pessoal
Daniele foi proibida de sair de casa e forçada a ir a cultos evangélicos para ser "curada"

CONDUTA CERTA DO PROFISSIONAL

Diretor do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, Luis Fernando de Oliveira Saraiva explica que a conduta do psicólogo deve ser oposta a do profissional que atendeu Edilson. O terapeuta deve, na verdade, ajudar o paciente homossexual a lidar com as questões que surgem com a descoberta da orientação sexual.

“Quando alguém procura ajuda psicológica, é importante identificar o que fez essa pessoa ir até o consultório, o que está por trás. É papel do profissional ajudar no entendimento de que a vivencia fora da heteronormatividade pode gerar sofrimento e preconceito, mas também que esta etapa pode ser superada, para que o sujeito possa, posteriormente, experimentar seus desejos e exercer sua sexualidade de forma saudável”, afirma Oliveira .

Integrante da Comissão dos Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Marco Aurélio Prado diz que a chamada “cura gay” ainda é muito comum, infelizmente. “Quem continua a praticar esses processos, mesmo usando outro nome, pode ser denunciado e levado à investigação nos conselhos regionais”, adverte Prado.

Além de profissionais equivocados, muitos homossexuais são vítimas do fundamentalismo religioso, como foi o caso da vendedora Daniele Messias Caetano , 31, Aos 23 anos, ela foi trancada em casa por um tio e uma prima. “Não podia ter contato com ninguém, muito menos usar celular, internet. Saia apenas três vezes por semana para ir à igreja”, descreve Daniele, que passou por duas sessões de ‘cura interior’ nos oito meses em que ficou confinada.

“Todos falavam que eu estava com demônio no corpo, que não era algo de Deus.”, lembra a vendedora, que acabou cedendo e se relacionando com um homem. “Acabei me relacionando com um rapaz e, por pressão, fui pra cama com ele e engravidei. Hoje, tenho uma filha linda de seis anos, que assumi de forma independente quando fui morar com uma tia menos rígida.”

PASTOR EX-GAY E AMANTE

Vivendo hoje em Milão, o equatoriano Freddy Obaco Velastegui , 46, também sofreu com o fundamentalismo religioso na juventude, numa temporada na cidade paulista de Piracicaba. “Nasci no Equador, mas aos 21 anos fui enviado pelos meus pais evangélicos para uma clinica no interior de São Paulo, que prometia a ‘recuperação de homossexuais’”, conta.

Custando por volta de US$ 100 aos pais dele, a clínica confiscou todos os documentos e as roupas consideradas indecorosas, como jeans e camisetas. “Era uma fazenda com casas coloniais, nos banheiros só havias fossas. Descobri depois que os internos estavam ali para se desintoxicar de drogas e álcool”, relata Freddy.

Quem comandava a clínica era um pastor que havia passado por tratamento para deixar de ser gay. Foi ele quem designou um religioso para seguir Freddy 24 horas por dia. Durante sete meses, o equatoriano foi submetido a uma rotina rígida que incluía longos períodos de oração e de trabalho no campo, capinando lavouras.

Freddy passou sete meses em uma clinica evangélica para ser
Arquivo pessoal
Freddy passou sete meses em uma clinica evangélica para ser "curado"

O tratamento acabou sendo interrompido quando Freddy começou a ter um caso com um aspirante a pastor, que era também amante do diretor do local. “O proprietário da clinica não queria me deixar ir embora porque eu era o único que pagava. Então, ele afastou o administrador pastor ‘ex-gay’. Mas logo depois, eu fugi e me mudei para o Rio de Janeiro”, recorda o equatoriano.

Profissionais da Psicologia de o todo mundo têm se debruçado sobre os impactos causados na vida das pessoas que passam pela ‘cura gay’, segundo Prado, que deixa claro os limites dos terapeutas. “Nenhum psicólogo pode ou deve emitir julgamentos em relação à orientação sexual ou identidade de gênero na hora do atendimento” , conclui o conselheiro do CFP.

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