“Viado tem que morrer”: na véspera do Dia Internacional Contra a Homofobia, 17 de maio, LGBTs expõem as frases que os homofóbicos usam cruelmente para ofendê-los

Aos 17 anos, o estudante Vinícius De Vita Cavalheiro , 20, sentiu o peso da homofobia, por meio de palavras altamente agressivas. Ele estava namorando o parceiro no Parque da Juventude, na Zona Norte de São Paulo, quando um grupo de jovens começou a gritar ofensas para os dois. A situação piorou quando os agressores partiram para a violência física, atirando pedras, que não acertaram o casal, felizmente. Hoje, três anos depois, Vinícius ainda tem fresco na memória o que ouviu na ocasião.

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Esta situação pela qual Vinícius passou representa o cotidiano de muitos brasileiros. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, que ao ouvir agressões verbais totalmente gratuitas, entram nas estatísticas que fazem o Brasil um país de alarmante HomoLesboBiTransfobia, termo usado para definir o preconceito dirigido a todas as populações reunidas na comunidade LGBT.

“Viado tem que morrer... Pedestres falam, pessoas dentro de carros também passam e gritam. É uma frase que ficou desagradavelmente comum” (Vinícius De Vita Cavalheiro)

Segundo o “Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil”, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, publicado em 2012, 44% do total de mortes por homofobia do mundo acontecem no Brasil. Apenas no ano de publicação do documento, foram registradas 3.084 denúncias relativas às agressões verbais e físicas, 116% a mais que o ano anterior. 310 foram os assassinatos comunicados. 

“Viado tem que morrer” é uma frase que Vinícius teve que ouvir muitas vezes em sua vida, assim como outras tão agressivas quanto esta. “Pedestres falam, pessoas dentro de carros também passam e gritam. É uma frase que ficou desagradavelmente comum”, lamenta o estudante.

Como era de se esperar, esses xingamentos acabam por gerar medo e insegurança constantes para quem os ouve. O também estudante Sean Farinha , 18, passou a viver esse temor quando foi ameaçado ao parar num ponto para esperar um ônibus depois de sair da faculdade. “Passaram de carro e gritaram: ‘Olha, esse tem cara de viado’, dando a entender que desceriam para me bater. Na hora, fiquei aterrorizado, me senti vulnerável.”

Um ano antes, ele já havia passado por situação semelhante. “Voltando da escola, na rua de casa, pararam o carro e gritaram viado, bicha e tudo que puderam. Mas o que eu vou fazer? Magrelo assim, posso ser atacado a qualquer momento”, se resigna Sean.

Da mesma forma que homens gays, mulheres também passam por este constrangimento recorrente, como é o caso da universitária Camila Smid Rodrigues , 21. “Eu estava perto de casa, no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, quando um cara me confundiu com um menino e me mandou parar de olhar pra ele. Na hora, eu saí correndo, mas ele veio atrás de mim. Achei que ia apanhar, foi a primeira vez que senti medo de verdade”, admite.

“No Parque Ibirapuera, a responsável pelo banheiro não me deixou entrar. Tive vontade de levantar a camiseta para provar que eu era mulher. Em restaurantes, também é muito comum ficarem me chamando de senhor, mesmo comigo usando pronomes femininos. Não sei se fazem de propósito ou por desatenção, mas mesmo assim é desagradável”, explica Camila, que vê as agressões assumirem um caráter de assédio sexual quando está ao lado da parceira, com quem namora há sete meses.

“É bem comum mexerem porque somos duas mulheres. Um dia desses no metrô, gritaram: ‘Se uma já é boa, imagina duas’. Já teve senhora de idade que disse para gente que íamos queimar no inferno, que se ela pudesse, dava um soco na nossa cara”, relata Camila, dizendo que por medo de ser agredida, prefere não reagir.

HOMOFOBIA NA SALA DE AULA

O figurinista Paulo Castello , 24, começou a ouvir as ofensas ainda no ensino fundamental. “Já na primeira série, me chamavam de bicha. Eu nem sabia o que era isso. Por ser afeminado, me falavam que eu estava no banheiro errado, na fila errada”, conta Paulo, que só viu a situação melhorar quando trocou de colégio aos 15 anos.

Já na primeira série, me chamavam de bicha. Eu nem sabia o que era isso. Por ser afeminado, me falavam que eu estava no banheiro errado, na fila errada (Paulo Castello)

Atualmente, Paulo se dedica a fazer ações e reflexões que propõem a desconstrução dos papéis. “Comecei a me montar, usar maquiagem, cabelão, vestido e salto. Tudo isso de barba. Nunca fiquei com medo, mas com uma vontade muito grande de quebrar as barreiras de gênero, tirar as coisas da caixinha. Gosto de acreditar que as coisas vão ser menos rígidas.”

Estudante de Terapia Ocupacional, Daniele Lima , 26, administra uma página de combate à homofobia na internet. Lá, ela recebeu uma ameaça que a marcou. “’Você tem que tomar barra de ferro na cara até morrer’. Mandaram essa frase pra mim diversas vezes. Infelizmente, é uma frase que tem muita força, é de uma violência tamanha que é até difícil digeri-la. É preciso muito trabalho, pensamento, desconstrução, para perceber o mecanismo de violência que a rege”, avalia Daniele, se emocionando ao falar.

Mesmo sendo um ambiente onde os ataques anônimos proliferam, a internet também gera conforto para Daniele. “O lado bom é que ali tem muita gente que se dispõe a discutir, a pensar, não só homofobia, mas preconceito em geral”.

Daniele e outros quatro entrevistados também escreveram frases positivas, que os ajudaram a superar o preconceito
Edu Cesar
Daniele e outros quatro entrevistados também escreveram frases positivas, que os ajudaram a superar o preconceito

Daniele, Paulo, Camila, Sean e Vinícius aceitaram o convite do iGay para contar suas histórias e também para participar da sessão de fotos que ilustra esta reportagem. Na Avenida Paulista, eles foram retratados segurando cartazes com as frases homofóbicas que ouviram.

“É nosso papel como militante puxar o debate. É importante contar certas histórias, mostrar que há gente diferente no mundo, que elas estão refletindo sobre o que acontece com elas”, conclui Daniele.

Se você, como os entrevistados, ouviu ofensas homofóbicas, participe da campanha do iGay no Mês Internacional Contra Homofobia. Mande sua história e foto segurando um cartaz com uma frase negativa ou positiva que ouviu ao email: siteigay@ig.com.br . Também use nas redes sociais a hashtag #iGayContraHomofobia.

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