Ao conquistar o primeiro lugar na competição musical Eurovision , drag queen Conchita Wurst evidenciou o racha latente entre conservadores e liberais europeus

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A vitória da drag queen barbada austríaca Conchita Wurst no Festival da Canção Eurovision fez celebridades como a apresentadora Nigella Lawson e o humorista Russell Brand postarem selfies em que aparecem barbados, numa homenagem a vencedora. Num ação oposta, homens russos fizeram fotos se barbeando em protesto, postando os slogan “Se barbeie, não pareça com uma mulher”.

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A vitória de Wurst, no último domingo (11), expôs uma divisão entre progressistas e conservadores na Europa, a ponto do tabloide britânico The Sun ironizar a questão com o trocadilho "Furred World War" (algo como “Guerra Mundial Barbuda”).

Para milhões de espectadores, o show anual do Eurovision é apenas concurso de música brega, que se fez famoso pelo seu estilo kitsch e pelo som electro. Mas a disputa musical entre os países da Europa é também uma mistura de patriotismo e política.

Morena escultural de voz crescente de diva e uma barba escura, Conchita ganhou o Eurovision representando uma vitória da tolerância e do respeito à diversidade sexual e de gênero.

O presidente austríaco Heinz Fischer exaltou o caráter pedagógico da conquista de Conchita na luta contra o preconceito, dizendo que o fato “não era apenas uma vitória da Áustria, mas da diversidade e da tolerância na Europa”. Mas o vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin viu a questão de uma maneira totalmente oposta. Durante a final do Eurovision, ele escreveu uma mensagem no Twitter dizendo que a verdadeira face da integração europeia era “uma mulher barbada”.

Do mesmo modo, a parlamentar governista russa Olga Batalina diz que a vitória de Conchita no Eurovision provou que a controversa lei da Rússia que pune a chamada ‘propaganda gay’ é necessária.

"Não é só preciso ter talento e uma boa voz para ganhar Eurovision, você também precisa rejeitar a sua natureza, identidade e tradições”, critica  Batalina , que é do Comitê da Família e das Questões da Maternidade da Duma, a câmara baixa do parlamento da Rússia.

Todo esse falatório pode soar apenas como um excesso de retórica para um concurso de talentos, mas o Eurovision sempre foi mais do que isso.

Para homenagear Conchita, a apresentadora Nigella Lawson postou foto em que aparece barbada
Reprodução/Twitter
Para homenagear Conchita, a apresentadora Nigella Lawson postou foto em que aparece barbada


Criada em 1956, a competição coloca países europeus uns contra os outros em busca de glória da música pop. Ele ajudou a catapultar estrelas como os integrantes do grupo sueco Abba, que ganharam o Eurovision de 1974 com o hit “Waterloo”. Celine Dion levou o prêmio para a Suíça, em 1988.

Amado na mesma intensidade com que é alvo de piadas, o Eurovision é um desfile de músicas bregas e de artistas peculiares. A transmissão ao vivo é assistida por cerca de 180 milhões de pessoas, incluindo aí um forte e atuante público gay. Acusações perenes de votações regionais em bloco e intrigas geopolíticas acontecem todos os anos.

"[O Eurovision é] um fórum no qual os países podem julgar uns aos outros sem repercussões", avalia Paul Jordan , cientista político que fez um doutorado na competição musical. Para Jordan, o público gay votou maciçamente em Conchita pensando em dar uma resposta a tudo que está acontecendo na Rússia. “A música é performance dela eram muito fortes, mas tinha muito mais coisas acontecendo.”

A raiva ocidental em direção à Rússia também se deve a crise na Ucrânia, que acabou transbordando para o palco da Eurovision. Os vencedores do concurso são definidos por votos dos telespectadores e também de júris nacionais de 37 países participantes

Conchita Wurst e seu troféu conquistado no Eurovision
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Conchita Wurst e seu troféu conquistado no Eurovision

Durante final de sábado , em Copenhague , a Rússia foi ruidosamente vaiada pela plateia a cada vez que seus representantes, os gêmeos adolescentes Anastasia e Maria Tolmachevy , eram citados.

Em1998, a polêmica foi entorno da cantora transexual israelense Dana Internacional . Em Israel, judeus ultra ortodoxos protestaram contra sua presença no Eurovision. Mas mesmo assim ela conseguiu vencer o concurso.

Para Jordan, apesar das divisões geopolíticas, o Eurovision continua sendo uma instituição europeia única. “Ele falas às pessoas sobre o que significa ser europeu... Ele captura a imaginação das pessoas de uma forma que as eleições europeias não conseguem fazer. "

A votação que deu a vitória Conchita foi a terceira em tamanho se comparada às outras eleições na Europa. Dado que dá força a opinião de Jordan. 

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