Lideranças apontam enfraquecimento da militância LGBT no Brasil, simbolizado pela queda de público da Parada Gay de São Paulo, que perdeu 500 mil participantes em sua última edição

Realizada há uma semana, a 18ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo surpreendeu ao registrar uma quantidade de participantes bem menor do que nos últimos anos. Segundo dados da Policia Militar, o evento levou 100 mil pessoas à Avenida Paulista. Em 2013, a PM contabilizou um número seis vezes maior, 600 mil. O cifra de 2014 fica ainda mais reduzida se comparada ao recorde da Parada Gay paulistana, em 2005, quando o público registrado foi de 2,5 milhões.

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Lideranças LGBT ouvidas pelo iGay apontam a drástica redução de público da Parada Gay como uma representação clara de um momento de desmobilização da militância, com o movimento gay do Brasil perdendo força, sem conseguir atrair novos participantes ou mesmo manter os antigos. Com isso, projetos importantes de lei como a criminalização da homofobia e a regulamentação das identidades de gênero não conseguem avançar na pauta do Congresso Nacional.

Presidente do Movimento Gay de Minas (MGM), Oswaldo Braga mostra que o arrefecimento da militância LGBT não se exemplifica apenas como a Parada Gay de São Paulo. O evento similar que ele organiza na cidade mineira de Juiz de Fora também enfrenta uma queda de público.

Veja imagens da 18ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo:

“Temos percebido uma diminuição. Em 2006, tivemos o recorde de 120 mil pessoas. Número importante se considerarmos o fato de que Juiz de Fora tem 500 mil habitantes. Mas no último ano, o público foi de 35 mil participantes”, relata Braga, que aponta para a necessidade de uma reinvenção do movimento LGBT.

“Hoje, grande parte das nossas lutas não faz mais tanto sentido. Antes, nós pedíamos uma lei para poder demonstrar afeto em público , agora já podemos casar” , explica Braga, que no entanto, lembra que ainda faltam muitas conquistas para a comunidade LGBT ter sua cidadania plenamente respeitada. “A homofobia acabou? Foi criminalizada? A reposta é não para as duas perguntas, isso evidencia que é preciso repensar muitas coisas, inclusive o formato da Parada”, acrescenta o presidente do MGM.

Conselheiro do Fórum LGBT de Pernambuco, que organiza a Parada Gay de Recife, Thiago Rocha faz uma ressalva em relação à diminuição de público em São Paulo, lembrando que o evento paulistano foi antecipado por conta da Copa do Mundo de 2014, impedindo que muitas pessoas pudessem se programar a tempo. “Eu mesmo tentei ir, mas não consegui me planejar. Porém , é nítido que estamos com dificuldade de chegar à sociedade” , reconhece Rocha.

Presidente do Movimento Gay de Minas, Oswaldo Braga acredita que o formato da Parada Gay deve ser repensado
Reprodução/Facebook
Presidente do Movimento Gay de Minas, Oswaldo Braga acredita que o formato da Parada Gay deve ser repensado

Coordenador especial da Diversidade Sexual da cidade do Rio de Janeiro, o estilista Carlos Tufvesson vê a cooptação política das lideranças LGBT como fator preponderante para a erosão enfrentada pelo movimento gay. Falando como militante e não como representante do Estado, Tufvesson diz que a presença de partidos políticos foi danosa e fez muitas pessoas saírem da militância.

“Tivemos uma captação partidária ideológica muito forte. O movimento passou por um processo de exclusão de quem não se identificava com os partidos”, lamenta Tufvesson. “O movimento que ia às ruas hoje não vai mais, perdemos grupos históricos, pessoas que nos representavam foram se tornando instrumentos de politicas partidárias”, prossegue o estilista.

Presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Carlos Magno pensa diferente do outros militantes LGBT, acreditando que a perda de força do movimento deve ser encarada de maneira relativa.

Carlos Tufvesson diz que a presença  de partidos políticos foi danosa e fez muitas pessoas deixarem a militância
Isabela Kassow
Carlos Tufvesson diz que a presença de partidos políticos foi danosa e fez muitas pessoas deixarem a militância


“Faltam elementos para saber se estamos realmente perdendo. Na verdade, as pautas têm ultrapassado a barreira da comunidade LGBT, o debate é público. Em qualquer área, o número de pessoas que milita é efetivamente pouco, se considerada a população como um todo”, pondera Magno.

Como argumento de que o movimento LGBT não está tão arrefecido, Magno conta que a ABGLT conta com 285 organizações filiadas e tem 30 pedidos de filiação. “Temos ainda núcleos de pesquisa em universidades, a Associação de Estudos Homoeróticos em Porto Alegre, grupos de mães, Igrejas inclusivas, além de paradas de Norte a Sul do País. Tudo isso é avanço.”

MUDANÇA PASSA PELO CONGRESSO NACIONAL

Para as lideranças, a reinvenção do movimento LGBT tem que incluir um número maior de representantes da comunidade gay em Brasília. “Precisamos de ideias novas, de maneiras novas de fazer, não só a Parada Gay, mas a militância como um todo. É a oxigenação que faz o movimento estar sempre vivo. As ONGs devem começar a se estruturar melhor, ter força. Além disso, precisamos urgentemente de representatividade no Congresso, temos apenas um congressista gay”, afirma Tufvesson, se referindo ao deputado federal Jean wyllys (PSOL-RJ), colunista do iGay. 

Para Thiago Rocha, os fundamentalismo religioso sabota fortemente o movimento gay
Reprodução/Facebook
Para Thiago Rocha, os fundamentalismo religioso sabota fortemente o movimento gay

Mais descrente com o futuro do movimento LGBT, Rocha lembra que os opositores da comunidade gay têm uma acachapante superioridade numérica no Congresso Nacional, com a Frente Evangélica ocupando 110 das 513 cadeiras do parlamento brasileiro. “Os políticos religiosos têm se fortalecido cada vez mais. Eles têm muita força e não é só isso, a cultura do Congresso é muito machista e não vai mudar”, argumenta o conselheiro do Fórum LGBT de Pernambuco.

Magno também percebe o conservadorismo e fundamentalismo religioso como obstáculos. “A força social é importante, ela que incentiva as mudanças. Mas a lógica que rege o Congresso é complexa. As leis Maria da Penha, de Discriminação Racial e Estatuto da Juventude tiveram dificuldade em passar, todas legislações relativas aos direitos humanos tiveram. Temos poucas mulheres no congresso, poucos negros, um gay e nenhum índio.”

Admitindo-se cansado, Braga faz um apelo para que novas gerações assumam seu papel na militância. “Quando falam que os dinossauros da militância não largam o osso, não levam em conta que ninguém quer entrar no nosso lugar. Mesmo que seja para mudar tudo, ele devem entrar no movimento”, conclui o presidente do Movimento Gay de Minas (MGM).

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