Criadas por casais de lésbicas – as mães biológicas e suas companheiras –, Bruna e Ithátilla contam como é fazer parte de uma família com duas mulheres no comando

Quando maio se aproxima, a produtora de eventos Bruna Salatiel , 23, já sabe que precisará investir em dois presentes de Dia das Mães. “Me ferrei, gasto em dobro em maio e em agosto [no Dia dos Pais]”, brinca. Na verdade, ela faz isso com o maior prazer. É que Bruna tem duas mães: a biológica, Rose , e a companheira dela, Cida . “As duas sempre desempenharam os papeis de mãe e pai em casa”.

CURTA O IGAY NO FACEBOOK

Amo a Cris mais que a meu pai, e ela me ama mais que ele (Ithátilla Reis)

O mesmo acontece com a escriturária Ithátilla Reis , 24, filha de sangue de Maria Gorete e de coração de Cristina , companheira da mãe há 17 anos. “Desde quando a Cris entrou em casa, antes mesmo de eu saber que elas eram um casal, considerei-a minha mãe, porque ela sempre me tratou com muito amor. E é com as duas que comemoro o Dia das Mães e o dos Pais”, diz. “Amo a Cris mais que a meu pai, e ela me ama mais que ele”.

A “AMIGA” DA MAMÃE

Quando a montadora automobilística Cida entrou na família da advogada Rose, Bruna tinha seis anos de idade. A “amiga” da mãe chegou com dois filhos mais velhos que Bruna (uma menina de sete anos e um menino de 12). Um ano depois, Rose revelou para a filha que aquela era, na verdade, sua namorada. “Elas achavam que eu já soubesse, porque falava coisas como ‘vocês estão se olhando com olhar apaixonado’, mas era tudo na inocência. Quando ela me contou, foi uma surpresa”, afirma.

A pior coisa que tem é viver uma mentira. No trabalho ou socialmente, às vezes, somos obrigados, mas em casa é pesado demais (Rose)

Surpresa também ficou Rose, que se diverte ao lembrar daquele dia: “Eu tinha certeza de que ela sabia. Estávamos sozinhas em casa, a Cida tinha saído com as crianças, e aproveitei a situação. Não ensaiei, mas havia passado a conversa na cabeça algumas vezes. E daí ela me fala que não sabia. Pensei ‘iiiiiiiiiih!’”. Apesar da situação inesperada, ela não se arrependeu nem por um minuto. “Foi bom, porque a pior coisa que tem é viver uma mentira. No trabalho ou socialmente, às vezes, somos obrigados, mas em casa é pesado demais”.

Para Bruna, a revelação em nada mudou o dia a dia e apenas atiçou sua curiosidade. “Não fiquei chocada, porque não fui criada com preconceito de gênero, mas comecei a perguntar se toda moça que andava com outra moça ou que dividia casa com amiga era lésbica. Elas foram me explicando e comecei a entender melhor o mundo”.

A história de Ithátilla guarda muitos pontos em comum com a de Bruna. Ela tinha sete anos de idade quando Cristina, que trabalha com telefonia, entrou na vida de sua família (Ithátilla tem uma irmã três anos mais velha), e também achava que fosse uma amiga da mãe. Mas algo dentro dela dizia que era mais. “Em casa, chamava a Cris de mãe desde o início, sem ninguém ter me dito para fazer isso. Foi algo natural para mim”, recorda.

Chamava a Cris de mãe desde o início, sem ninguém ter me dito para fazer isso. Foi algo natural para mim (Ithátilla)

Quando ela fez dez anos, Maria Gorete e Cristina revelaram-lhe a verdade. Inicialmente, a reação da garota foi de decepção, “porque elas me enganaram por três anos. Eu preferia que tivessem me dito a realidade desde sempre”. Mas isso passou rápido, ela garante: “O amor que sinto pelas duas é muito grande, essas bobagens de indignação passaram rápido”.

FELIZES  E PRONTO

Lidar socialmente com o fato de ter mães lésbicas foi uma experiência diferente para as duas. Ithátilla passou a falar na escola que tinha duas mães, sem se importar com as reações dos colegas ou dos professores. “A gente estava feliz e pronto”, resume. Hoje em dia, ela percebe que as pessoas não se sentem confortáveis para demonstrar qualquer desconforto, uma vez que ela lida com a questão com muita tranquilidade. “Às vezes, alguém solta um ‘Mas sua mãe é lésbica? Como assim?’ e, como não ligo, a pessoa não prolonga o assunto”, afirma.

Já Bruna teve mais dificuldade. Em primeiro lugar, porque o casal levou dois anos para contar a verdade para os filhos de Cida, então a menina precisava manter o que sabia em segredo. Em segundo, porque ela define seus então colegas de escola como “muito certinhos”, o que lhe dava alguma insegurança. “Eu não tinha medo de preconceito, mas de perder os encontros, a turma mesmo. Eu falava que a Cida era minha tia. Era tudo muito legal, eles gostavam das duas, só que... E se eles não entendessem?”, questiona, retroativamente.

A situação ficou mais fácil para ela depois que tudo foi contado para os irmãos e ela mudou de escola. Sobre a revelação em casa, Rose agradece até hoje pela compreensão de Bruna. “Como tínhamos a experiência positiva com ela, nos sentimos muito mais confiantes para falar com eles. Claro que teve choradeira, ‘por que vocês não nos contaram antes?’, mas passou e o sentimento entre todos nós não mudou. Foi excelente, porque estava complicado até justificar por que havia uma cama de casal no nosso quarto”, rememora.

Também lésbica, Bruna não encontrou problemas quando assumiu sua homossexualidade para Cida e Rose
Edu Cesar
Também lésbica, Bruna não encontrou problemas quando assumiu sua homossexualidade para Cida e Rose

Já a mudança de escola, na virada do ensino médio para o fundamental, foi um ponto de transformação total na vida de Bruna. Ela começou a namorar uma amiga, assumiu-se lésbica para a nova turma e isso deu-lhe confiança para falar também sobre as mães. “Como fui bem aceita, imaginei que minhas mães também seriam. E foram”, comemora. “Alguns disseram que foram pegos de surpresa, outros já desconfiavam. A gente teve muita sorte, porque todo mundo percebia que éramos felizes e tudo ficou bem”.

PAIS AUSENTES 

Cida e Cris entraram nas vidas de Bruna e Ithátilla e preencheram um vazio deixado pelos pais biológicos das então pequenas meninas. Bruna conheceu seu pai quando já tinha quase 18 anos, o nome dele foi incluído em sua certidão de nascimento – mas ela não acrescentou o sobrenome paterno ao dela – e ela tentou manter um vínculo, mas “não rolou”. “Isso foi por uns dois ou três anos. Deixei pra lá, cansei de forçar. Não sinto falta de ter um pai presente, porque a gente não sente falta do que não conhece”, declara.

Não sinto falta de ter um pai presente, porque a gente não sente falta do que não conhece (Bruna Salatiel)

Ithátilla, por sua vez, conviveu com o pai no começo da vida, quando Maria Gorete ainda era casada com ele. “Ele era alcoólatra, tratava minha mãe muito mal. Ela se separou, conheceu a Cris e perdemos o contato próximo com ele. Mesmo assim, ele aproveitava toda oportunidade para criticar e julgar as duas, queria arrumar briga”, lembra. Hoje eles se veem mais, pois moram próximos, mas não há um relacionamento pai-filha. “Nem ‘feliz Dia dos Pais’ dou a ele. Pelo menos ele não quer mais brigar”, ameniza.

O DIA DAS MÃES

Além dos presentes em dobro, Bruna e Ithátilla aproveitam o Dia das Mães para comemorar em dose dupla as famílias felizes em que vivem. “Mesmo que seja uma data comercial, é sentimental também. Sempre faço um cartão, escrevo alguma coisa para elas. É uma data para pensar no que a relação significa e externar o que a gente sente no dia a dia, mas nem sempre fala, por causa da correria da vida”, considera Bruna.

Família reunida: Ithátilla, Maria Gorete, Ana Clara e Cristina
Arquivo pessoal
Família reunida: Ithátilla, Maria Gorete, Ana Clara e Cristina

A festa de Ithátilla, Maria Gorete e Cristina tem uma presença mirim muito especial: a de Ana Clara, filha de cinco anos de Ithátilla que sabe desde o nascimento que a vovó tem uma namorada. “Ela não chama a Cris de vovó, chama de ‘minha Cris’ e diz que elas são gêmeas”, conta a mãe orgulhosa. As quatro se reúnem, almoçam e celebram o amor que têm em suas vidas. “Minha mãe é a melhor mãe do universo e para mim não importa com quem ela esteja, só quero vê-la feliz. Acho que o Dia das Mães é uma data normal, mas que reforça esse meu sentimento”, finaliza.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.