Em São Paulo para a Parada Gay, atriz de 'Orange Is The New Black' fala da fama de sisudas das lésbicas, da homofobia internalizada nos gays e do sucesso instantâneo da série

​Lea DeLaria esta bem à vontade na pele de sua personagem Big Boo, de "Orange Is The New Black", a série sobre um presídio feminino cuja (aguardadíssima) segunda temporada estreia no dia 6 de junho no Netflix. Mais do que isso: a pele de sua personagem é a sua própria pele. "Todas as minhas tatuagens são reais - as outras tatuagens do programa são falsas. Todas as atrizes têm tatuagens falsas, estas são minhas", ressalta ela.

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E mostrá-las é uma novidade para Lea: "Em geral, eu tenho de perder tempo escondendo minhas tattoos para fazer meus personagens, é muito bom não ter que fazer isso agora. Nessa série eu posso ser do meu jeito natural, não tenho de me vestir, trocar de roupa, me maquiar. É sempre a mesma roupa e nada de maquiagem. Para mim é ótimo, para mim e para Samira ​Willey , que faz a Poussey​, nós somos bem casuais, somos como somos. As outras atrizes são mais femininas, elas não gostam de sair de casa sem se maquiar, então o que acontece é que ​antes de filmar ​elas têm de ir para a sala de maquiagem para tirar a maquiagem que colocaram para ir de casa até o estúdio. Mas algumas das garotas finalmente disseram: ‘que se foda’, e agora colocam óculos escuros e saem de casa ​de cara lavada​.​"​

Sua personagem, ​Big Boo, é uma lésbica convicta, que circula pela prisão com um cachorro labrador que ela batizou de Little Boo. Lea explica que a presença do animal na cadeia é parte do programa "Puppies for prisoners", que é ao mesmo tempo um trabalho e uma terapia.

"O programa é instituído em muitas prisões federais americanas. Eles dão os cachorros para presos que treinam os animais para fazer algum trabalho, como cães guias para cegos ou acompanhantes para surdos. Eles tendem a dar os animais para os presos mais agitados: é uma maneira mais barata do que medicação para acalmá-los. E eles ganham dinheiro pelo serviço prestado, então você mata dois pássaros com uma pedrada só.”

​Lea conta para o iGay que sentiu o efeito do sucesso de "Orange" literalmente do dia para a noite. ​"A série foi lançada numa quinta-feira em julho de 2013​. N​inguém sabia o que ia acontecer. Antes do lançamento, o Netflix​ anunci​ou​ que a segunda temporada estava confirmada, o que é inédito no entretenimento, ninguém nunca tinha feito isso antes. Enquanto a gente filmava, mais ou menos sabíamos que ​estávamos fazendo um bom trabalho, mas ​ninguém queria usar a palavra hit, porque se você está no showbiz por tempo suficiente você sabe que ninguém fala nisso ou pode se ferrar. Mas a gente sabia que estava fazendo uma coisa especial, sabe? Eu sabia que ia ser bom, mas não podia prever que seria um sucesso​", conta a atriz​.

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"A parada do orgulho gay é uma afirmação política que tem de ser feita", afirma Lea

​"A​ série foi lancada numa quinta e na sexta eu estava no metrô em Nova York e um sujeito apontou para mim e disse: 'Biiiiiig Booooooo!' E eu pensei: 'não faz nem 24 horas que estamos no ar' Entende? E alguém já esta apontando para mim e me chamando de Big Boo. Isso é interessante. E no fi​nal​ deste mesmo fim de semana, eu mal podia andar na cidade. E no fi​nal​ do fim de semana seguinte era impossível sair de casa. Eu contei para o meu amigo Jeremy (que estava com ela na hora desta entrevista​, na última sexta-feira (2), no hotel Emiliano, em São Paulo​) o que estava acontecendo e ele disse: "Você esta exagerando". Então nos fomos juntos para a região de Hell's Kitchen, para uma rua cheia de bares gays e era impossível andar de um bar até outro. Se você parava por um minuto, ​ficava parado​ mei​a​ hora. ​Simples assim. ​Uma multidão se formava a nossa volta, as pessoas tirando​ fotos, foi incrível​. ​Depois de​ caminhar ​três quarteirões assim, ele disse: ‘Isso e absurdo!’. E eu respondi: ‘Eu te falei. É uma loucura!’ A​ gente se ligava, mandava e-mail, e todo mundo do elenco estava passando pela mesma experiência.​Foi imediato, e foi uma surpresa ótima para todos nós", admite Lea.

​iGay - Qual é a sua fala favorita na primeira temporada do programa?
​Lea DeLaria
- Ah, são tantas! Quase todas as falas de Big Boo são ótimas. Tem uma que eu gosto especialmente: ' Você deve ser mais idiota do que você parece, ​o que é idiota pra caramba, porque você parece vir de uma família que vem fazendo sexo entre si por gerações​' E tem uma que eu cai da cadeira de tanto rir quando li: 'Isso é ​m​ais deprimente do que uma banda cover da Tori Amos ​.'​"​

iGay - Tem uma que eu quero comentar seriamente com você. A Big Boo diz que não quer ter um filho com outra mulher porque a criança seria gay e ser gay é uma vida dura pra caramba. Você acha que é dura?
​Lea DeLaria - ​​Eu não, de jeito nenhum. É o que é. Não acho que é mais duro do que qualquer outra coisa. Quem tem uma vida fácil? Homens heterossexuais brancos ricos. Que porcentagem da sociedade se enquadra nesta categoria? E mesmo assim, se tivesse algum homem hétero branco e rico aqui agora, ele diria: "Ah, você pensa que é fácil?" A vida é dura. Ser gay não é mais duro que a vida. Não é fácil, ninguém disse que seria fácil. A vida não é para os fracos.

​iGay - ​Você gosta de ir a paradas gays?
​Lea DeLaria
– ​Ah... eu já fui a tantas! Agora, por conta de ser reconhecida onde eu vou, ficou mais difícil. Estou animada de ir a essa parada de domingo em São Paulo porque eu serei parte da parada, ​vou ficar ​abanando para o povo.

​iGay - ​O que você ​pensa ​da crítica das pessoas que acham que a parada gay não os representa? Quem é gay e pensa que a parada mostra os gays como pervertidos?
​Lea DeLaria
- ​Isso é uma tristeza. Essa pessoa está sendo consumida por homofobia internalizada, sinto muito por quem pensa assim e acredita nisso. Elas estão desperdiçando a vida.

Devemos celebrar que somos diferentes dos héteros, nó​s​ somos completamente diferentes dos héteros. Nós temos a nossa linguagem, temos o nosso estilo, nós somos o que somos

​iGay - ​Qual você acha que é a importância das paradas gays?
​Lea DeLaria
- ​A parada do orgulho gay é uma afirmação política que tem de ser feita. E também acho que é uma festa. E é perfeito colocar essas duas coisas juntas, certo? E ​pelo que vi nos vídeos das paradas passadas, acho que aqui no Brasil vocês​ mistura​m muito bem essas duas coisas. As paradas gays de que não gosto são aquelas de que falamos antes. Discordo dos que querem fazer assimilações, dos que acham que a gente deve se ​ comportar​ como todos os outros, e a gente é diferente. Isso é o que eu chamo de homofobia internalizada.

​iGay - Por que você acha que isso acontece?
Lea DeLaria -
​Eles ouviram muita gente dizendo que a gente está errado, e alguns acreditam que a gente está errado, e ac​ham​ que a gente até pode ser como quiser, contanto que ​nos comportemos​ como eles. E isso está errado. Nós devemos celebrar a nossa diversidade. Devemos celebrar que somos diferentes dos héteros, nó​s​ somos completamente diferentes dos héteros. Nós temos a nossa linguagem, temos o nosso estilo, nós somos o que somos, isso é o que devemos expressar na parada gay.

​iGay - ​Sábado tem a Marcha das Lésbicas e deve ser mais séria e mais política do que a parada. Por que as lésbicas são mais serias do que os gays?
​Lea DeLaria
- (ironizando) ​ As lésbicas são mais serias, jura? Não tinha percebido isso... Até elas acham isso, até eu acho isso. Eu passei a vida fazendo graça de nós mesmas. Tenho 32 anos de stand up comedy e sempre fui uma lésbica comediante, sempre gritei com elas: ' Vocês se levam muito a serio!' Eu faço de um jeito engraçado, claro. ​M​as acho importantes as caminhadas das lésbicas, porque as lésbicas tendem a desaparecer dentro da comunidade gay, eu sou uma apoiadora das marchas lésbicas pelo mundo, já fui a muitas delas. Mas eu me divirto também, nem tudo tem de ser levado tão a serio.

Acho que os gay​s​ têm de ter o direito de se casar se quiserem, mas eu pessoalmente não acredito no casamento para mim

iGay – ​Você é casada?
​Lea DeLaria
- ​Eu tenho uma namorada, mas não, não sou casada. Não acredito no casamento. Acho que os gay​s​ têm de ter o direito de se casar se quiserem, mas eu pessoalmente não acredito no casamento para mim.

​iGay - ​Deve ter muitas meninas olhando para você agora, com todo esse sucesso, não?
​Lea DeLaria -
​Ah, elas sempre olharam.

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