Homossexuais criam página em rede social para combater discriminação contra gays com trejeitos femininos

Após terminar um namoro de um ano e meio, o produtor cultural cearense Thomas Saunders , 24, voltou a paquerar e se decepcionou com o que viu. Em conversas com amigos e conhecidos, Thomas percebeu que o preconceito entre os próprios homossexuais contra os gays afeminados como ele estava mais forte do que nunca.

CURTA O IGAY NO FACEBOOK 

“Nos aplicativos de encontro é sempre aquele texto de perfil: ‘não fico com afeminado’. Alguns conhecidos já me disseram que eu preciso ser mais discreto”, reclama Thomas. Incomodado com a situação, o produtor cultural desabafou no Facebook. “Sou Afeminado sim, curto afeminado sim. Mas além de tudo, sou humano”, escreveu ele, que também postou uma placa com a frase: “Sou/Curto afeminado”.

A imagem postada por Thomas, que deu origem a página 'Sou/Curto Afeminado'
Arquivo pessoal
A imagem postada por Thomas, que deu origem a página 'Sou/Curto Afeminado'

Ao fazer o protesto na rede social, Thomas descobriu que não estava sozinho em sua inconformação, muitos outros gays partilhavam do mesmo sentimento. Além de receber inúmeros comentários, o post foi compartilhado 367 vezes.

Diante desta resposta, o produtor e um amigo decidiram criar a página “Sou/Curto afeminado” no Facebook, no início deste mês de abril.

Na página, outros homossexuais de diversas partes do Brasil passaram a postar fotos com mesma placa criada por Thomas. Hoje, eles são mais de duas centenas. A “Sou/Curto afeminado” também ultrapassou três mil curtidas.

Antes da página, Thomas já tinha uma postura afirmativa de sua maneira de ser. “Me assumi há 10 anos. Sempre soube que era afeminado, sempre fui delicado, sentava de pernas cruzadas. Na escola, fazia colagens da Beyoncé no caderno. Nunca tive medo, levava numa boa as piadas que ouvia”, relata o produtor, revelando uma irritação com o fato desta conduta imatura se repetir nas falas de pessoas adultas. “Caras de 30 anos se incomodam, reparam e soltam piada. Passam de carro e ficam buzinando, gritam coisas como ‘vem aqui, viadinho’”.

Tenho trejeitos, minha voz é muito fina e sempre fui delicado, desde pequeno (Igor Rocha)

Assim como Thomas, o estudante carioca Igor Rocha , 22, sofre preconceito por conta de sua maneira de ser. “Tenho trejeitos, minha voz é muito fina e sempre fui delicado, desde pequeno”, explica ele.

Devido a estas características, Igor ouvia cobranças de pessoas que o viam erroneamente como um transexual. “Por conta da voz fina e dos cabelos cumpridos, achavam que eu era trans. As pessoas diziam que eu tinha que assumir isso, mas não tem nada a ver, eu sou apenas gay.”

QUEM NAMORA O AFEMINADO?

Mas para Igor, além do preconceito, o maior problema é a maneira que os próprios homossexuais tratam os afeminados. “Muitos gays não bem resolvidos com a própria sexualidade, casados inclusive, acham que você está ali para realizar as fantasias deles. Como se o fato de ser afeminado significasse que você é fácil. Você vira alvo daqueles que precisam descontar a frustração no outro”, lamenta o estudante.

O relações públicas Uriel Ricachenevsky percebe este preconceito dentro da própria comunidade LGBT como algo cotidiano.

“Em qualquer site de relacionamento gay, a primeira pergunta é sempre: ‘Você é afeminado?’. Quando você diz sim, ouve imediatamente a resposta: ‘Desculpa, cara, mas eu sou discreto’. Quer dizer, existe um preconceito entre pessoas que lutam pelos mesmos direitos”, constata.

Thomas diz que muitos afeminados mentem sobre sua maneira de ser, contando que só relacionam com parceiros mais masculinos. “A pessoa pode ser afeminado até o último fio de cabelo, mas fala que só fica com boy”, descreve o produtor, apontando esta conduta como uma espécie de autodefesa.

Fernando Crincoli, rejeita o preconceito e revela preferência por afeminados
Arquivo pessoal
Fernando Crincoli, rejeita o preconceito e revela preferência por afeminados

O professor mineiro Fernando Crincoli , 24, rejeita este preconceito e revela uma preferência em se relacionar com homens afeminados. “Comumente, eles são mais carinhosos, fofos logo de cara. Não tem aquela apreensão para trocar carinhos, é algo que eles fazem naturalmente, de uma forma verdadeira”, avalia Fernando, ressaltando que ser um homem mais feminino não é um pré-requisito para ele se interessar por alguém.

Para Uriel, o interesse por alguém também vai além dos trejeitos. “Se me faz rir, já é meio caminho andado. Sem falar no caráter, claro”, admite o relações públicas.

Elencando características de seus antigos parceiros, Igor revela sua preferência. “Já namorei um afeminado, já me apaixonei por um canastrão e por um barbudo peludo. Sou geminiano, não costumo me limitar”, se diverte ele.

É aceitável ser afeminado se você for cabeleireiro, estilista de moda... Mas você não pode ser um advogado afeminado (Uriel Ricachenevsky)

NÃO PODE SER ADVOGADO

No campo profissional, Uriel acredita que os afeminados só são aceitos quando atuam em determinadas profissões ou em determinados ambientes. “Vivemos em uma sociedade hipócrita, onde você só é aceito como homossexual quando não parece com um homossexual” , critica o relações públicas, dizendo que no mercado de trabalho este preconceito é flagrante.

“É aceitável ser afeminado se você for cabeleireiro, estilista de moda ou qualquer outra profissão parecida. Mas você não pode ser um advogado afeminado. Porque isso faz, supostamente, com que você não tenha credibilidade”, aponta Uriel.

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