Intérprete da personagem com duas décadas de sucesso na noite carioca, ator e professor de Biologia Marcelo Souza conta como criou a drag irreverente

Desbocada, pornográfica e abusada. Esse trio de adjetivos são os mais indicados para descrever a mais popular drag queen do Rio de Janeiro. Suzy Brasil chega aos 20 anos de carreira com a agenda cheia, se apresentando em seis casas noturnas da capital fluminense. Pai de dois filhos, o ator e professor de biologia Marcelo Souza , 37, começou a viver personagem depois de uma brincadeira com os amigos.

CURTA O IGAY NO FACEBOOK

Em 1994, durante os ensaios para uma peça infantil, alguns colegas de Marcelo, que trabalhavam na produção de shows de transformistas, criaram um personagem para ele. “Eles me montaram e me batizaram com o nome de Jaqueline Fontair. A minha ideia era fazer uma drag bonita, luxuosa. O problema é que eu acabava caindo sempre no escracho, na caricatura. Assim, acabei assumindo essa coisa engraçada”, lembra o ator.

Em sua primeira apresentação, no calçadão de Copacabana, Marcelo foi visto pelo já falecido transformista Pedro Paulo da Costa, intérprete de Rose Bombom , drag lendária na noite gay do Rio. Pedro o chamou para se apresentar em seu show, uma paródia do antigo programa “Buzina do Chacrinha”.

Veja também : Gaycionário: o dicionário com as gírias engraçadas da comunidade gay

“Não tinha a menor pretensão de me tornar uma transformista. Nunca fui uma criança de gostar de se vestir de mulher, o máximo era imitar a Gretchen na frente da televisão. Foi a Rose que me incentivou a voltar mais vezes”, conta Marcelo, que com ajuda de amigos transformistas batizou a sua personagem com intenção e ressaltar a sua verve debochada.

Tinha que ser um nome escrachado para dar a cara da personagem. Então veio Suzy, que é nome de cachorra. O sobrenome Brasil é por causa desta bagunça toda que a gente conhece

“Tinha que ser um nome escrachado para dar a cara da personagem. Então veio Suzy, que é nome de cachorra. O sobrenome Brasil é por causa desta bagunça toda que a gente conhece”, brinca Marcelo. Saindo da adolescência na ocasião, o ator começou então a encarar uma pesada agenda de shows. O mais curioso é que a família não sabia deste trabalho, muito menos que o então adolescente era homossexual.

“Dizia que era tudo por causa dos espetáculos. Minha mãe sempre me questionava ‘teatro a uma hora dessa?’ , mas a minha família sempre respeitou o meu trabalho, mesmo não sabendo o que era, nunca invadiram meu espaço”, explica Marcelo, que com seu gestual contido e voz grave não lembra nem de longe a despirocada Suzy.

'Desmontado', Marcelo Souza tem gestos contidos e voz grave
Arquivo pessoal
'Desmontado', Marcelo Souza tem gestos contidos e voz grave

Muitas vezes, os amigos se atrapalhavam diante da família de Marcelo e o chamavam pelo nome de drag. “A minha casa estava sempre cheia de viados, um bando de bicha pintosa. Eu sempre falava para eles fazerem a linha, não usarem dialetos gays, mas depois da terceira cerveja, eles começavam a me chamar pelo nome de Suzy”, relata o ator, que fazia malabarismos para despistar os familiares.

Trabalhando com Rose, Marcelo viu o sucesso como Suzy chegar no final dos anos 90. “Foi um grande aprendizado trabalhar ao lado da maior caricata do Rio de Janeiro. Era inteligente, com uma grande capacidade de improviso. Ela foi fundamental para a noite carioca”, reconhece o ator, lembrando que o êxito da dupla fez os cachês de profissionais como eles aumentarem.

Com o tempo, Suzy passou o ter o seu próprio show, com a personagem ganhando ainda mais fama por falar sem pudores sobre sexo, religião, escatologia e outros assuntos. O grande número de shows e a cobrança por mais sucesso deixou Marcelo esgotado, foi neste momento que ele pensou em parar e foi estudar Biologia.

Posso dizer que Suzy é meu cartão de visitas. Começo a dar aulas sempre falando na personagem e os adolescentes adoram

Marcelo se formou em Biologia e passou a lecionar em colégios da rede pública e privada e também em presídios, mas sem deixar o trabalho como drag. A dupla jornada criou uma situação de embaraço quando a personagem virou matéria num diário do Rio. “Os alunos me pediam autógrafos e eu pedia para eles guardarem o jornal”, conta Marcelo, que hoje fala abertamente salas de aula sobre o seu trabalho artístico. “Posso dizer que Suzy é meu cartão de visitas. Começo as aulas sempre falando na personagem e os adolescentes adoram.”

Todo esse reconhecimento veio através da Suzy. Foi ela quem pagou a faculdade do Marcelo. O que eu ganho como professor no mês é o que tiro em uma semana nos shows nas boates

A dúvida sobre deixar a personagem foi superada com o apoio da família. “Eles passaram a ter orgulho de mim, principalmente depois que as reportagens, as entrevistas começaram a surgir. Minha rua em dia de festa aqui em casa fica cheia. Os vizinhos me adoram. Pedem para tirar fotos. Todo esse reconhecimento veio através da Suzy. Foi ela quem pagou a faculdade do Marcelo. O que eu ganho como professor no mês é o que tiro em uma semana nos shows nas boates.”

Quando começou a namorar, Marcelo finalmente teve o diálogo definitivo sobre sexualidade com a mãe. “No fundo, ela sempre desconfiou. Na hora que eu sentei para conversar, aos 27 anos, ela virou e falou para mim: ‘Eu sempre soube. Eu respeito você da mesma forma que você me respeita quando eu faço as minhas doideiras’”, relata Marcelo.

SONHO DE SER PAI

O desejo de ser pai sempre esteve na cabeça de Marcelo. Para realizá-lo, ele recorreu a uma amiga, com que teve um filho que hoje tem 11 anos. O irmão de garoto, que tem 17, também é considerado como filho pelo intérprete de Suzy.

A maneira que os dois filhos descobriram o trabalho artístico do pai não foi do jeito que ele desejava. Os dois estavam assistindo televisão quando viram uma reportagem na TV sobre a drag. “Eu queria que eles descobrissem naturalmente, mas foi essa trombada, esse caminhão que passou levando tudo. Eles se afastaram um pouco de mim, mas isso não está ocupando a minha cabeça. Estamos num mundo em que as informações estão todas aí e eu espero que eles passem me aceitar e me respeitar de forma natural”, projeta Marcelo.

Na vida afetiva, Marcelo vive um momento tranquilo. O namorado é seu empresário e ajuda a organizar sua agenda de shows. Aliás, o ator e professor nunca mais pensou na ideia de aposentar a personagem. Sorte dos fãs de Suzy Brasil.

Suzy Brasil solta o verbo e responde questionário do iGay:

Uma cor:  “Negro, negão”

Livro de cabeceira:  “Minha cama não tem cabeceira, mas os livros que me ajudaram muito foram ‘Penetrando pela Porta dos Fundos’ e ‘Meus Ebós na Umbanda’”.

Seu ídolo:   “Chico Xavier. Eu era fã das perucas dele”

Um símbolo sexual:  Roberta Miranda , um tipo bem masculino”

Tamanho é documento?: “Tamanho e espessura são RG, CPF, certidão de nascimento...”

Sexo é bom quantas vezes por semana?:Em dias de coleta de lixo a quantidade é maior. Em períodos de invasão na Penha, os policiais comparecem, sou conhecida como UPP. Procuro manter boas relações com os vizinhos”.

Já teve problemas com ‘cheque’?: “Jamais, sou autolimpante”

Já fez a ativa?: “Minha única atividade é a paranormal”

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.