iGay acompanha aula de aspirantes da Polícia Civil. Alunos aprendem que travestis devem ser tratadas como mulheres e conceitos sobre orientação sexual e identidade de gênero

Os policiais civis e militares do Rio de Janeiro receberão até o mês de junho uma cartilha com temática gay. Todos os 60 mil agentes das polícias Militar e Civil terão o seu exemplar com orientações de como tratar de forma adequada a comunidade LGBT.

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“Depois de seis anos capacitando agentes de segurança pública, colhemos as principais dúvidas deles e montamos um questionário de perguntas e respostas com as dúvidas que apareceram durante esse período. O material virá juntamente com o reforço do conteúdo apresentado durante as aulas para os policiais”, explica Cláudio Nascimento , coordenador do Rio Sem Homofobia, órgão do governo do estado fluminense.

As cartilhas fazem parte do treinamento que o Rio Sem Homofobia e a Secretaria de Segurança Pública do estado têm promovido nos últimos anos com forças policiais locais sobre a população gay. Na última quarta-feira (09), o iGay acompanhou uma destas iniciativas, uma aula da “2ª Jornada Acadepol de Formação para a Promoção da Cidadania LGBT, da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos”.

Realizada no centro do Rio, na Academia de Polícia Civil (Acadepol), a aula foi ministrada por Nascimento no curso de formação de novos policiais civis. O coordenador detalhou os conceitos de orientação sexual e identidade de gênero e também tirou as dúvidas dos 30 alunos presentes

Como os policiais ainda estão em formação, a Acadepol pediu que os alunos ouvidos pela reportagem não fossem identificados pelo nome verdadeiro, a fim de evitar riscos à vida deles.

Cláudio Nascimento, coordenador do Rio Sem Homofobia, ouve dúvida de aluno
André Gomes de Melo/ GERJ
Cláudio Nascimento, coordenador do Rio Sem Homofobia, ouve dúvida de aluno

Na aula, a aluna Bruna ficou surpresa ao descobrir que a abordagem a uma travesti deve ser feita por uma policial feminina. “Não sabia disso. Mas para mim não haveria problema. Claro que, conforme foi explicado no curso, se for uma pessoa enorme, de dois metros de altura, pedirei ajuda a um colega. Achei importante a orientação para garantir a integridade delas”, reconheceu a aluna.

Para Renato , o destaque da aula foi recomendação de que as transexuais devem ser sempre tratadas com seu nome social feminino e não o de batismo. “Eu já passei por uma situação assim em uma empresa na qual trabalhei. Uma travesti sentou à minha frente. Na pressa, resolvendo muitas coisas ao mesmo tempo, acabei a chamando pelo nome masculino. Esse reforço foi importante para evitar que situações assim não aconteçam”, distinguiu o futuro policial civil.

Flávio admitiu que ainda tem dúvidas sobre abordagem aos LGBTs. “É uma situação delicada. Meu medo é que na prática algumas pessoas possam tentar reverter a situação agindo contra mim. Se eu vir um casal homossexual passando dos limites em lugar público, por exemplo, eles podem argumentar que eu estou agindo com homofobia”, ponderou o aluno.

Questionado sobre como seria uma situação que “passa do limite”, Flávio demonstrou ainda não ter opinião clara sobre o assunto. “O limite do casal homossexual é o mesmo do casal heterossexual. Eu acho que a abordagem a um casal homossexual pode ser mais complicada em razão desse conflito sobre o que é ou o que não é homofobia.”

Os colegas tiraram uma onda com elas [travestis], riram da cara delas. O nível cultural de grande parte dos policiais é um problema sério (Renan)

Renan , um policial militar e ex-aluno do curso que preferiu não se identificar, elogia o projeto, mas assinalou que o histórico cultural do agente, às vezes, se sobrepõe a capacitação. Ele citou o exemplo de uma situação que aconteceu com ele e outros colegas.

“Dias depois de nós passarmos por essas aulas, eu e um grupo de PMs estávamos em um micro-ônibus da corporação quando passamos por três travestis. Os colegas tiraram uma onda com elas, riram da cara delas. O nível cultural de grande parte dos policiais é um problema sério”, apontou Renan.

É um processo lento e gradual. Um processo de reeducação para se criar um ciclo virtuoso de cidadania. Os policiais são parte da sociedade e, como qualquer outra pessoa, herdaram preconceitos (Cláudio Nascimento)

RESULTADO EM LONGO PRAZO

Nascimento reconheceu que as aulas nem sempre têm um efeito imediato e que os resultados não devem ser esperados só em curto prazo. “É um processo lento e gradual. Um processo de reeducação para se criar um ciclo virtuoso de cidadania. Os policiais são parte da sociedade e, como qualquer outra pessoa, herdaram preconceitos”, admitiu o coordenador, lembrando que os homossexuais devem ser tratados com o respeito que merecem todos os cidadãos. “A gente não está aqui para mudar a cabeça deles, mas para dizer como um servidor público deve agir com os LGBTs.”

No entanto, Nascimento disse que o projeto já tem resultados concretos, como a queda do número de denúncias de abusos de autoridades recebidas no Disque Cidadania LGBT.

“Além disso, nós percebemos que está havendo uma mudança na percepção dos LGBTs que é fruto deste trabalho. Hoje, eles vão às delegacias fazer registros de ocorrência sem medo. Antes, entravam mudos e saíam calados”, pontuou o coordenador.

NOVOS ALUNOS, NOVOS PENSAMENTOS

A minha turma tem 48 alunos e isso é unanimidade. Todos acham que essas aulas são muito importantes para garantir os direitos da comunidade LGBT (Diogo Sobral Cunha)

Ouvido pelo Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, o aluno Diogo Sobral Cunha destacou como positivo o fato de que eles e os colegas vão ter os ensinamentos antes de começaram a trabalhar nas ruas. “A minha turma tem 48 alunos e isso é unanimidade. Todos acham que essas aulas são muito importantes para garantir os direitos da comunidade LGBT. Nós já aprendemos muito nas aulas de direitos humanos”, contou o aspirante a policial civil.

A diretora da Acadepol Jéssica de Oliveira reforçou essa ideia. “A transformação acontece aqui dentro da academia. Aqui eles passam a ver que essa é uma agenda pública, que eles têm que respeitar os direitos humanos. Eles têm que se despir de qualquer preconceito para estar a serviço do público”, sentenciaouJéssica.

Aqui eles passam a ver que essa é uma agenda pública, que eles têm que respeitar os direitos humanos. Eles têm que se despir de qualquer preconceito para estar a serviço do público (Jéssica de Oliveira)

Entre abril e maio, serão capacitados 450 alunos do curso de formação de novos policiais civis Além dos alunos, peritos e agentes das delegacias especializadas ao atendimento à mulher passarão pelo treinamento, estes últimos para o atendimento às lésbicas.

3200 policiais civis e militares foram capacitados entre junho de 2013 e março de 2014. A meta do programa é treinar até o final deste ano oito mil agentes. Somados aos quatro mil que já passaram pelo curso em anos anteriores, a capacitação vai chegar a 12 mil agentes, 20% do contingente das duas polícias.

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