Educadores trans enfrentam o preconceito dentro e fora da sala de aula, mas se impõem e ajudam a formar cidadãos mais tolerantes e menos preconceituosos

Dona de um estilo que combina elegância e firmeza, a professora Júlia Dutra ocupa desde o início deste ano o cargo de diretora da escola Max Fleiuss, na Pavuna, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Ela é a primeira transexual a chegar a este posto na rede pública do estado. Assim como ela, outros trans também enxergam no sistema de ensino uma oportunidade de trabalho, superando preconceitos dentro e fora das salas de aula.

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Formada em Educação Artística pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Júlia assumiu definitivamente a identidade feminina no ano passado, após sete anos de sala de aula. Ela admite ter ficado com receio da reação dos alunos, mas se surpreendeu positivamente ao encontrar o apoio da escola. “Eu tinha muito medo. Pensei realmente que seria rejeitada pelos alunos. Mas o que aconteceu foi o contrário. Sou muito amparada, acolhida.”

Eu tinha muito medo. Pensei realmente que seria rejeitada pelos alunos. Mas o que aconteceu foi o contrário. Sou muito amparada, acolhida (Júlia Dutra)

Boa parte deste acolhimento se deve ao respeito que Júlia conquistou como profissional da educação. “Meu maior orgulho é minha boa relação com os alunos. Eles me veem como referência, uma pessoa a quem eles podem procurar e buscar ajuda. A minha busca é pela construção diária de uma escola democrática, que eles recebam uma boa formação ética, profissional e artística”, argumenta a diretora.

A Júlia me incentivou a estudar, cobrava meu desempenho, sentou para conversar comigo... Ela é mais que uma diretora, é uma amiga (Larissa Milla)

Cursando o segundo ano do ensino médio no Max Fleiuss, Larissa Milla , 16, confirma a boa relação da educadora com os alunos. “Eu quase fui reprovada no ano passado. A Júlia me incentivou a estudar, cobrava meu desempenho, sentou para conversar comigo e me fez ter força de vontade para passar de ano. Ela é mais que uma diretora, é uma amiga”, exalta Larrissa, ressaltando ainda o bom humor e dedicação da diretora.

Ainda se adaptando à adequação de identidade de gênero da diretora, Felipe Carlos , 20, também estudante do segundo ano, ainda se confunde ao falar de Júlia, mas não deixa elogiá-la. “Às vezes, eu ainda a chamo de ele, mesmo na frente dela, mas ela me corrige”, confessa o jovem. “Me ajudou (a entender a situação) também porque perdi um irmão que era gay, que se matou porque descobriu que estava com uma doença incurável, era HIV positivo. Sou uma pessoa sem preconceito”, completa ele.

Júlia faz questão de ressaltar que o preconceito não vem de jovens como Felipe e Larissa, mas dos adultos. As resistências partiram, por exemplo, de um pai de uma aluna cadeirante que reclamou da presença de “um homem vestido de mulher” na escola. Funcionários, de forma velada, também atuam preconceituosamente. “Eu não gosto nem de falar muito sobre isso. Não gosto da posição de vítima. Acho que as pessoas nos veem da maneira que nós nos colocamos no mundo. Respeito a todos e exijo respeito de todos no ambiente de trabalho”, defende a diretora.

TRANSFOBIA DA DIREÇÃO E DOS ALUNOS

Professor de inglês, Benjamim Braga , 36, passou por problemas ao fazer o seu processo de adequação de gênero, quando lecionava em uma escola particular carioca. Ele trabalhava e morava na região central do Rio, mas, sem sobreaviso, foi informado pela direção que seria transferido para uma unidade a 30 km de distância da original. Pior, o regime de trabalho deixou de ser de ser de segunda à sexta para se concentrar apenas nos sábados.

O transhomem Benjamim Braga tratou a questão dos transgêneros na sala de aula, ouvindo perguntas dos alunos
Arquivo pessoal
O transhomem Benjamim Braga tratou a questão dos transgêneros na sala de aula, ouvindo perguntas dos alunos

“Eles encontraram uma forma de me pressionar a sair do emprego. Porque eles sabiam que eu não poderia aceitar essa transferência. Por isso, não tenho dúvida que é melhor estar na rede pública quando se faz o processo de transição, é muito mais seguro”, avalia Benjamin, que atualmente leciona nas redes dos governos municipal e estadual do Rio.

Para evitar problemas causados pela desinformação, Benjamim tratou a questão dos transgêneros na sala de aula. “Foi um bate-papo tranquilo, aberto. Deixei os alunos fazerem as perguntas. Respondi as questões que me senti confortável em responder. A maioria das perguntas era para o entendimento sobre o que é transexualidade, identidade de gênero. Foi muito importante porque evitou o clima de piadinha e as aulas continuaram fluindo normalmente.”

Chamada de 'coisa' por um aluno, Maya Monteiro recebeu apoio de toda  a escola
Arquivo pessoal
Chamada de 'coisa' por um aluno, Maya Monteiro recebeu apoio de toda a escola

Maya Valentina Monteiro , professora de Artes na rede pública do Rio, enfrentou a transfobia vinda de um aluno do programa EJA (Educação para Jovens e Adultos). Ele foi à diretoria da escola em que ela trabalhava para protestar contra o fato de receber aula de uma ‘coisa’.

“Ele foi extremamente preconceituoso. Foi à direção com essas palavras, perguntando como uma coisa como essa, se referindo a mim, poderia dar aula. No final das contas, foi pior para esse aluno, porque a turma inteira, aliás, a escola inteira, se levantou contra ele”, recorda Maya.

Segundo Maya, o aluno foi punido com uma advertência. “A direção sugeriu que eu fizesse um boletim de ocorrência, mas preferi resolver o caso na esfera escolar mesmo”, explica a professora.

CONSELHEIROS DOS ALUNOS GAYS

Os três educadores ouvidos nesta reportagem relataram que os alunos, muitos deles homossexuais, os abordam pedindo aconselhamento. “Muitos me procuram porque os pais são evangélicos e não os aceitam como homossexuais. Eu os oriento a ter calma e paciência, porque os pais deles têm uma criação diferente. É preciso dar tempo ao tempo”, resume Benjamim, que também fala com eles sobre os perigos da internet.

Sei que sou bonita e isso incomoda algumas pessoas que se julgam normais. Eu não sou o tipo de pessoa que fica quieta com ataque. Comigo o preconceito e os preconceituosos não se criam (Maya Valentina Monteiro)

Maya tem uma experiência semelhante. “Em todos os colégios por onde passo, eu sou a professora mais querida, porque eu escuto os entendo. Procuro não me envolver demais na questão familiar, mantenho um distanciamento, mas tento orientá-los.“

Vaidosa e orgulhosa de si, Maya se impõe para enfrentar o preconceito. “Eu sei que sou bonita e isso incomoda algumas pessoas que se julgam normais. Eu não sou o tipo de pessoa que fica quieta com ataque. Comigo o preconceito e os preconceituosos não se criam”, sentencia a educadora, que é formada em Artes Plásticas com pós-graduação em Arte Ilustrativa pela UFRJ.

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