Não é só na novela que a mulher desiste do marido para viver com outra mulher. Conversamos com mulheres que se assumiram lésbicas depois de relacionamentos heterossexuais

Nanovela 'Em Família, da TV Globo, Clara (Giovanna Antonelli) constrói um relacionamento com Marina (Tainá Müller). Entretanto, por ter sido casada com Cadu (Reynaldo Gianecchini), a personagem de Giovanna hesitou em deixar o marida para viver o amor lésbico.  

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Mulheres como Clara, que se assumem lésbicas depois longos relacionamentos com homens, não são raridade na vida real. A escritora Karla Lima , de 43 anos, teve sua primeira relação lésbica aos 31 anos, e com ela a confirmação que atropelou um casamento heterossexual de quatro anos.

“Descobri que era gay aos 12 anos de idade, mas nunca tinha me relacionado com uma mulher. Namorei anos e me casei aos 27 porque ele quis”, conta a escritora, que sempre deixou clara sua tendência homossexual. “Sempre falei para todos que era no mínimo bissexual, mas como nunca tinha experimentado, não tinha como provar. Quando meu ex-marido me pediu em casamento, deixei claro que se um dia uma mulher se aproximasse e eu curtisse, o casamento estava acabado”.

E foi o que aconteceu, em 2002, quando Karla se envolveu com uma colega de trabalho. “Me separei na semana seguinte. Perguntei: ‘Lembra daquela conversa que tivemos antes de casar? Então...’. No momento em que saí com uma mulher, soube que não queria continuar casada. Não foi por causa do sexo incrível, e nem por ser uma paixão arrebatadora. Foi simplesmente a confirmação da intuição que eu tinha de que era lésbica”.

Pya Pêra e Karla Lima,  juntas há 12 anos
Arquivo pessoal
Pya Pêra e Karla Lima, juntas há 12 anos

Karla considera que a demora em assumir a homossexualidade não foi questão de aceitação, e sim de falta de oportunidade. “Eu não bebo, não saio para dançar, não conhecia gays, nunca uma mulher chegou em mim, nem sabia quais eram os códigos de conduta. Além do mais, a relação com um homem não era horrível. Não era incrível, mas não era horrível”, relembra a escritora.

ELA COZINHA, EU MATO BARATA

Um mês depois do fim do casamento, Karla começou um relacionamento, que dura até hoje, com a consultora Pya Pêra . O ex-marido é amigo do casal. “Na época teve um puta conflito, porque ele é um cara bacana. Eu pensava: ‘Sabia que era gay desde os 12 anos, precisava ter certeza bem agora, que estou com um cara de que gosto tanto?'"

Numa relação entre homem e mulher, é fácil você se acomodar nos papéis estabelecidos. Entre duas mulheres não tem isso, a gente define juntas. Ela cozinha, eu mato barata, mas ela também troca pneu, esse tipo de coisa, sabe?" (Karla)

Segundo Karla, a principal diferença entre estar com um homem e com uma mulher é a cumplicidade: “Numa relação entre homem e mulher, é muito fácil você se acomodar nos papéis de gênero estabelecidos. Entre duas mulheres não têm isso, a gente define juntas. Ela cozinha, eu mato barata, mas ela também troca pneu, esse tipo de coisa, sabe?”.

Karla e Pya escreveram juntas os livros "Armário Sem Portas" 1 e 2, que abordam a convivência diária das duas.

Elaine reclamou com a mãe:
Arquivo pessoal
Elaine reclamou com a mãe: "Por que não me contou antes que eu era lésbica?"

PORQUE NÃO ME CONTOU ANTES?

A servidora pública Elaine Gonzaga de Oliveira , 38, conta que teve sua primeira relação com outra mulher aos 32 anos. “Sempre tive desejo por mulheres, mas, por ser muito católica, sempre foi algo surreal para mim. Achava que era algo absurdo e nunca pensei que pudesse ser lésbica”. 

Comecei a aventar a hipótese de ficar com uma mulher para experimentar. Foi a melhor experiência da minha vida. Me senti adolescente." (Elaine de Oliveira)

As relações com homens eram algo impessoal e frustrante. “Nunca fui de namorar, tive um único namorado sério, que durou 8 meses. Não eram relações saudáveis emocionalmente. Sem carinho, sem nada, só sexo. Isso me dava vazio”, explica. De uma relação casual nasceu seu único filho, hoje com 17 anos.

Em 2006, começou a frequentar com um amigo gay um grupo chamado Colcha de Retalhos, que discutia a sexualidade. Nas reuniões do grupo percebeu que seus desejos não eram anormais. “Comecei a aventar a possibilidade de ficar com uma mulher pra experimentar. Foi a melhor experiência da minha vida. Percebi que eu sempre havia sido lésbica e realmente não sabia disso”, conta.

“Sabe todas aquelas coisas que a gente lê nas revistas adolescentes sobre o primeiro beijo? Então, foi isso, uma sensação de aconchego, carinho, desejo, me senti, literalmente, adolescente”. A militância pelo grupo facilitou para ela se assumir. Ao contar para a mãe, ouviu que ela já sabia desde que a filha era pequena. “Reclamei: ‘Porque você não me contou antes?”, lembra ela , se divertindo.

SERÁ QUE SOU FRÍGIDA?

A jornalista Daniela Galli , de 33 anos, é mãe de uma menina e está solteira. Ela conta que nunca se sentiu 100% confortável com homens. “Sempre fui muito cheia de pudores na cama, sem nenhuma ousadia. Não permitia muita coisa. Quando conversava com minhas amigas, percebia a diferença e pensava: ‘Caramba, eu sou frígida!’”

Daniela se casou, mas algo destoava no seu sonho de casamento. “Sempre pensava na festa, na banda, na comida, na decoração, mas no meu sonho não tinha um marido”, conta. Mesmo assim, quando foi pedida em casamento, aos 28 anos, aceitou. “Ele era honesto, de boa família, eu tinha muito carinho por ele. Achei que fosse a pessoa certa pra formar uma família.”

Daniela considera que já cumpriu todos os papeis sociais: agora está livre para ser feliz
Arquivo pessoal
Daniela considera que já cumpriu todos os papeis sociais: agora está livre para ser feliz

Aos 32 anos, chegou à conclusão de que não fizera a escolha correta. “Vi que eu não tinha nascido para aquilo, ser responsável por uma casa, ser cobrada por isso. Depois que minha filha nasceu, a coisa piorou, porque meu trabalho aumentou e a atração sexual se tornou inexistente.”

Fui atrás de uma menina que estudou comigo e que eu sabia que era gay. A gente se encontrou, se beijou, e vi que tinha encontrado o meu espaço." (Daniela)

Veio o divórcio e ela passou a buscar respostas: ”Fui atrás de uma menina que estudou comigo e eu sabia que era gay. Na época da faculdade já me sentia atraída por ela. A gente se encontrou, se beijou, e vi que tinha encontrado o meu espaço.”

Depois que se assumiu, ela conta o que mudou. “Passei a me sentir mais feminina, mais mulher mesmo. Já quitei minhas obrigações sociais, casei, tive filha, agora dá licença que posso ser feliz”, brinca.

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