Com medo de ser punidas ou mesmo por falta de informação, pessoas cometem 'homofobia light' reprimindo sexualidade dos homossexuais

Eliminado na última semana do reality show global “Big Brother Brasil 14” com rejeição alta - 61% dos votos -, o publicitário Diego Grossi dizia aos colegas de programa que não era preconceituoso, mas se celebrizou no confinamento por dar declarações de homofobia latente. 

Diego disparou pérolas como "Não sou preconceituoso, mas não acho normal. Mulher com mulher até vejo, mas homem com homem, acho nojento", e “Uma criancinha crescer com duas mães ou dois pais, isso poderia interferir no psicológico dela, no crescimento dessa criança”.

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Infelizmente, o caso de Diego está longe de ser algo isolado. Muitas pessoas, que acreditam não ter preconceito, ainda proferem frases similares às do ex-BBB. Este comportamento é tão preconceituoso quanto outros mais explícitos, apenas se dá de forma mais envergonhada, numa espécie de homofobia em versão light.

No confinamento do
Divulgação/TV Globo
No confinamento do "Big Brother Brasil" , o publicitário Diego Grossi disparou frases de homofobia, mesmo se dizendo sem preconceito


Uma das autoras do livro “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil” (Editora Perseu Abramo) e integrante do Núcleo de Estudos de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo, a socióloga Vilma Bokany diz que a homofobia se caracteriza pela aversão e rejeição aos homossexuais, sentimentos que podem ser explícitos ou velados.

Eles recusam a igualdade de direitos aos homossexuais ao proporem que os casais gays e lésbicos não andem abraçados, não se beijem em público (Vilma Bokany)

“O homofóbico prefere não encontrar com os LGBTs, sente repulsa. A atitude homofóbica, em geral, vem acompanhada pela frase ‘não tenho nada contra, mas... ’. Geralmente, há um discurso fundamentalista religioso, de forte apelo moral, que faz afirmações como ‘As pessoas bissexuais não sabem o que querem’ e ´Os homossexuais são quase sempre promíscuos’”, exemplifica Vilma.

De acordo com a socióloga, essa homofobia light se evidencia como recusa em aceitar que os homossexuais são seres humanos iguais aos heterossexuais. “Eles recusam a igualdade de direitos aos homossexuais ao proporem que os casais gays e lésbicos não andem abraçados, não se beijem em público ou mesmo que não tenham filhos.”

Existe o medo da punição. Na maioria das vezes, quem faz isso é mal visto, recebe olhares pejorativos. Então, a essa pessoa acaba maquiando e negando o que realmente pensa (Elídio Almeida)

Psicólogo da Universidade Federal da Bahia, Elídio Almeida entende que essa homofobia velada é um comportamento inconsciente, em muitos casos. “É muito raro a pessoa se dar conta. Ela acha que está ajudando”, analisa o especialista, dizendo ainda que a conduta também pode esconder o temor de ser penalizado ao ser mais explícito. “Existe o medo da punição. Na maioria das vezes, quem faz isso é mal visto, recebe olhares pejorativos. Então, essa pessoa acaba maquiando e negando o que realmente pensa”, aponta Almeida.

Vilma relata que as pesquisas de opinião costumam flagrar o comportamento velado de parte da sociedade. “90% dos entrevistados reconhecem que existe preconceito contra LGBTs. Mas só 27% das pessoas admitem ter preconceito quando perguntadas. Onde estariam então os agentes da discriminação? Perceber a nós próprios como preconceituosos e discriminadores não é uma tarefa fácil. Tendemos a achar que o problema é sempre do outro e nós somos os politicamente corretos”, expõe a socióloga.

A arquiteta Carol Mossim que já passou por situações chatas com amigos preconceituosos
Arquivo pessoal
A arquiteta Carol Mossim que já passou por situações chatas com amigos preconceituosos

"HOMOFOBIA AMIGA"

A arquiteta Carol Mossim , 35, já passou por experiências de homofobia velada com uma pessoa importante em sua vida. “Tenho uma grande amiga da faculdade, bem mais velha que eu. Ela foi a primeira a perceber que eu era gay. Foi muito direta comigo, me disse coisas bonitas e me acolheu. Mas com o passar dos anos fui percebendo que ela não era uma pessoa totalmente livre de preconceitos”, conta Carol, que notou a incoerência ao ouvir frases da conhecida.

Carol foi repreendida ao trocar carinhos com uma namorada na frente da amiga. “Ela falou que eu era muito melosa, que não precisava ser assim”, recorda Carol, que inclusive deixou de ser convidada para visitar a fazenda desta pessoa quando começou um relacionamento lésbico.

“Ela falou que não saberia como agir ao nos colocar em um quarto da casa. Que havia risco das filhas verem algo, como carinhos e beijos”, descreve a arquiteta, que manteve a amizade e passou a ser mais discreta.

Aliás, Carol rejeita a ideia de que a amiga seja homofóbica. “Fobia é algo mais pesado, de uma pessoa que agride, que se incomoda com a questão. São aqueles que perseguem homossexuais. Já quem tem algo mal resolvido com o assunto é por um problema de ignorância ou mesmo preconceito.”

Almeida vê esse comportamento tolerante com a homofobia velada como algo bastante comum. “Em primeiro lugar temos a questão da aceitação, o homossexual percebe que não quer viver sem o outro. Gays e lésbicas acabam aceitando mais comentários homofóbicos de amigos porque já estão acostumados com isso no cotidiano, infelizmente. Por outro lado, o homofóbico que mantém a amizade com o gay vai desenvolvendo uma tolerância”, considera o psicólogo.

O professor Laercio Candido , 32, rejeita a ideia de reprimir seus sentimentos para agradar amigos. “Quando saí do armário, decidi que tudo que envolvia minha sexualidade sairia junto. Com isso, minhas demonstrações de carinho também se tornaram públicas. Alguns amigos estranharam e começaram a me questionar. Uma pessoa até se justificou, dizendo que eu devia me reprimir por questão de segurança. Me deu um verdadeiro manual de como se comportar em público”, narra Laércio, que conseguiu mudar o pensamento de alguns conhecidos.

Laércio Cândido rejeita a ideia de reprimir seus sentimentos para agradar amigos
Arquivo pessoal
Laércio Cândido rejeita a ideia de reprimir seus sentimentos para agradar amigos

“Uma amiga em particular entendeu meus argumentos de que era um erro coibir o beijo, por exemplo. Que essa atitude era equivalente a afirmar que a homossexualidade é feia, errada e pecaminosa. Ela compreendeu ainda que um gesto de amor não pode ser encarado como ofensa”, pontua Laécio, admitindo que a conhecida ainda não está completamente à vontade com sua orientação sexual.

“Ela diz que entende e que não se sente agredida, mas ainda não consegue curtir uma foto de um beijo meu com alguém no Facebook”, lamenta o professor.

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