Com mais de 40 anos de carreira, a cartunista revela que atuação como militante LGBT invadiu seus quadrinhos, mesmo contra a vontade dela

Com mais de quatro décadas se dedicando aos quadrinhos, a cartunista paulistana Laerte Coutinho se firmou como um dos maiores nomes das artes gráficas do País. Agora, ela se prepara para colocar todo o seu talento com a caneta para contar a própria história num HQ autobiográfico, que vai repassar sua vida profissional e pessoal, incluindo aí o processo pelo qual passou ao assumir uma identidade feminina, em 2004.

“Estou tentando me entender como artista gráfica. Ver aonde meu traço está indo e fazer um novo quadrinho, que vai ser bem complicado. Uma narrativa razoavelmente biográfica, abordando a minha juventude e maturidade. Resumindo dos anos 70 para cá, o que aconteceu comigo e com o Brasil”, conta Laerte.

Entrevista e ensaio com Laerte Coutinho: “Gostaria de não ter renegado minha homossexualidade por 40 anos”

O trabalho da cartunista contempla publicações fundamentais na história do HQ e das tirinhas no Brasil, como as revistas “Chiclete com Banana” - editada por Angeli , e “Piratas do Tietê”, com edição da própria Laerte . Deus, Suriá, Overman e Hugo Baracchini se destacam na galeria de personagens dela.

Não para deixar de citar ainda as tiras “Los Três Amigos”, que Laerte produziu ao lado Angeli e também do já falecido cartunista  Glauco . Os personagens do trabalho, Angel Villa, Laerton e Glauquito, eram caricaturas dos próprios autores.

Além do trabalho como cartunista, Laerte também atuou como roteirista nos programas “TV Colosso”, “Sai de Baixo”, “TV Pirata” e “Fantástico”, todos da TV Globo. Atualmente, ele é um dos principais cartunistas do jornal Folha de S. Paulo.

Quando decidiu assumir sua identidade feminina, em 2004, o trabalho de Laerte ganhou novos rumos. Nos dez anos seguintes, o processo de trabalho da cartunista passou por reviravoltas. “Minha atividade profissional se solidificou e cresceu a luz de um procedimento muito claro: ideia, rascunho e desenho. Existia uma linearidade do meu processo produtivo que eu não tenho mais, e isso é foda”, avalia ela.

“Eu não tenho uma situação tranquila com o meu próprio desenho. Não é um ato de resolver coisas, desenhar para mim é entrar em um problema. Às vezes, isso é desagradável. Começo e não gosto, acho que não está resolvendo e que tem algo que eu não consigo ver. Faço dois, três, quatro e acabo entregando um porque está na hora de entregar. E tudo isso é recente”, desabafa Laerte.

VIDA PESSOAL INVADE VIDA PROFISSIONAL

A relação entre o seu processo de aceitação e a militância LGBT com o trabalho é também um tema confuso para a cartunista. “Em princípio são coisas independentes, mas sabe como é, acaba vazando. A própria militância que me empolgo em exercer entra no trabalho”, admite Laerte, revelando desconforto com essa invasão da vida pessoal na profissional.

Eu não tenho uma situação tranquila com o meu próprio desenho. Não é um ato de resolver coisas, desenhar para mim é entrar em um problema. Às vezes, isso é desagradável

“Eu particularmente não gosto muito da parte militante do meu trabalho, ela perde a flexibilidade, a ginga, uma gostosura que meu trabalho tem. Quando faço um trabalho muito palavra de ordem, muito linha pragmática, percebo que perco os personagens. A verdade flexível da construção do meu humor.”

Mas esse desconforto não impede Laerte de reconhecer a necessidade de militar, de participar de uma manifestação na rua e de fazer um trabalho assertivo e opinativo. “Quando você está à frente de uma situação de emergência, você tem que fazer algo que viola esse frescor e esse modo bailarino de se expressar, é preciso fazer algo dia tal, hora tal, todo mundo lá.”

O processo de transgeneridade de Larte apareceu nas tirinhas do personagem Hugo Baracchini, feitas para o jornal Folha de S. Paulo
Reprodução/Folha de S.Paulo
O processo de transgeneridade de Larte apareceu nas tirinhas do personagem Hugo Baracchini, feitas para o jornal Folha de S. Paulo


Laerte percebe que esta ebulição interna dele muitas vezes confunde os seus leitores. “Estou vivendo processos de autorrevolução desde 2004, isto é muito legal. Muita gente olha meu trabalho e fala ‘é bobagem, ele está delirando’. Mas outras falam ‘é legal, interessante, gostei’. As pessoas olham com muitas cabeças, muitos olhos.”

Para a cartunista, seu trabalho atinge até as pessoas que dizem não o entender. “De algum modo, eles internalizaram aquilo. De algum modo, aquilo pode dar filhote na cabeça das pessoas. Aconteceu tantas vezes de eu olhar algo e pensar ‘que merda, que coisa esquisita’. E, de repente, você se pega lembrando ou relacionando algo com essa coisa. Uma vez comido, tá lá dentro de você.”

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